quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Olá! Sou o Jonas!



Eu era apenas um pequeno sonho de infância da minha artista Alice Inácio (escritora deste blogue) e senti na altura o coração dela a bater acelerado e ouvia-se… tum… tum… tum… só lhe pedi sussurrando junto do ouvido que me criasse no seu imaginário das linhas traçadas em lápis no papel e eis com o tempo desenhou-me. Fiquei bem giro! Faltava apenas uma coisa e ela pensativa, lá me deu um nome...

Jonas!
E... sou Implantado Coclear Bilateral! Vou nascer no dia 17 de Outubro - no Auditório do CED Jacob Rodrigues Pereira - Casa Pia - Lisboa - com a seguinte morada: Rua D. Francisco de Almeida, nº 1, 1440-117 Lisboa.

A entrada é gratuita.

Para mais informações:
https://www.facebook.com/jonaseosouvidosmagicos

sábado, 13 de junho de 2015

A Regressar Lentamente

Após dois anos de inactividade, regresso lentamente a este canto de palavras soltas com novidades boas e más pelo caminho. Em breve. 

sexta-feira, 7 de junho de 2013

O Desencanto da Surdez

É cansativo ombrear a intolerância sem qualquer cabimento, e ainda mais extenuante quando o confronto se torna directo em ter lidar frente a intelectuais sádicos na falta de sabedoria sem menosprezar esforços de que a Surdez é uma coisa maravilhosa. A sério só me apetece vomitar! Como pôde ser transcendental e concludente?

Há tanta mas tanta gente a querer ouvir melhor, gente que perdeu audição, gente que nasceu assim, gente que inevitavelmente desejaria em ter os sons de volta na sua vida mas não pode porque a biologia não o permite. Contudo, muitos se esquecem de como as crianças lidam no clausulo a dimensão da própria Surdez quando são confinadas no despertar da consciência individual como individuo racional no decorrer do crescimento e muitas vezes esta ausência da falta de um dos sentidos não passa despercebida mal observem que nenhum elemento da família utiliza aparelho auditivo.

É nesta altura, a brecha revela e começam a querer curiosamente desvendar o significado dos timbres em que o mundo oferece muitas vezes aos outros, é querer escutar junto de amigos que dançam ao som de uma banda formada a ensaiar ruidosamente pela noite adentro na garagem. Ouvir um sussurro segredista da melhor amiga de infância com a boca bem próxima do ouvido para que os outros não saibam, ouvir pistas num jogo de brincadeira do quarto escuro e reconhecer a voz em vez de tanger com a palma da mão em cada rosto para adivinhar o nome eleito. Ouvir os pássaros chilrear, o som das ondas a rebentar bem sonoro no areal, mais o mensageiro dos ventos que carregam chuvas e tempestades colossais de trovejo, de querer perceber conversas nos desenhos animados favoritos ausente de legenda, de realizar uma chamada telefónica para convidar uma amiga dormir na sua festa de pijama, de conversar os amores de paixão ou combinar um ida ao cinema, de escutar um mero ditado numa sala de aula sem depender da leitura labial e assim acompanhar em ritmo idêntico dos colegas sem qualquer tipo de limitações. De poder aprender tocar um instrumento musical, ir a uma visita de estudo assistir Teatro e ouvir na plateia o diálogo dos personagens, ou mesmo quando uma prenda oferecida no Natal se trata de um fantástico Walkman que apesar de tudo dava para escutar qualquer coisa mas insuficiente devido ao nível e grau de perda ser demasiado profunda para apreciar em pleno.

Então a Surdez é estupenda?
Para quem sente bem na sua própria condição no uso de aparelhos auditivos, talvez nem engasga com a falta de solidão auditiva diária e por isso não necessite em dar um salto qualitativo em melhorar a vida por estarem já acostumados desde sempre, estas pessoas não conhecem o verdadeiro som, não sabem o que denota a carência de admitir que perscrutar invariavelmente pouco pode prejudicar distintas experiências, e mais do que nunca comunicar é deveras importante quando se tem uma vida social activa, um emprego preciso cuja vertente é conferenciar clientes em que o discurso torna-se constante.

Daí entra o Implante Coclear, um milagre da ciência e do conhecimento que promete modificar imensas pessoas para quem decide avançar num outro nível de traquejo, mas pior é quando se trata de alguém que ouve normalmente sem entraves não faz ideia da profundidade de isolamento do quão a Surdez traz, nem mesmo a uma criança com pensamentos em ebulição onde as perguntas são mais que meras respostas.
Escolhi não ter ressentimentos e desilusões, porque tive finalmente a oportunidade de fazer uma escolha que poderia mudar tudo ao meu redor, simplesmente demorou visto de não ter sido a altura certa, no entanto chegou a tempo e pude então ser feliz em ouvir com apenas um Implante Coclear.
As emoções enclausuradas finalmente deram destaque a lágrimas alegres, e junto dela as descobertas levaram-me ao êxtase, pude apreciar cada som, cada palavra, cada frase discriminada auditivamente como uma verdadeira bênção sem igual. Foi regressar de novo à minha infância para puder vivenciar o que perdi em barcos similares e hoje o meu mundo é tremendamente descomunal.

Sim abraço os sons, um amor inegável e por isso pretendo em breve colocar o segundo Implante Coclear dando um irmão no lado direito, assim educadamente com a minha licença para quem continue achar a Surdez um empreendimento maravilhosamente concebido e legítimo, faz o favor de danificar os seus ouvidos mas tenha cuidado para não as inutilizar pois num tempo não muito distante quando realmente sentir a falta de ouvir e das coisas acostumadas vai ter desejado nunca ter feito isso.


Nunca diga que a Surdez é deslumbrante.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Porque também amo o Implante Coclear!

Às vezes quero mesmo entender o que vai na cabeça de certas pessoas ligadas à Comunidade Surda, cuja demanda é a defesa plena e árdua da Língua Gestual seja de que país for sem pensar na colossal diversidade que prevalece: surdos gestualistas, surdos bilingues que transitem entre dois mundos de mãos dadas, surdos oralistas aparelhados e implantados desde nascença ou adquirida como primeira língua materna, o português falado.

Choca-me profundamente haver um livro que apregoa as inverdades, factos adulterados a respeito do Implante Coclear com uma relutância que incentiva discussões polémicas, contestações injuriadas no intuito de alimentar novos mitos já desmitificados pela maioria das pessoas portadoras dessa tecnologia biónica ao longo dos anos. Como podem querer continuar adoptar uma postura resistente perante uma tecnologia que inevitavelmente progride de olhos vistos a um ritmo avassalador de forma positiva mudado milhões de vidas? Ainda tem o descaramento em limitar as opções abertas e confundir as famílias que buscam uma solução menos impactada aos seus filhos. Estas pessoas veem no Implante Coclear um retrocesso, uma ameaça à sua cultura e ao seu mundo, vedado de forma categórica as condições na busca de uma melhoria da qualidade de vida a longo prazo que traria sobretudo inúmeras vantagens numa sociedade extremamente competitiva em que a exigência é a comunicação oral total.

Mais engraçado é, analisado através de uma perspectiva intimamente pessoal, não sou contra a Língua Gestual pois sei perfeitamente que nem toda a criança surda tem tanto sucesso na oralização assim como no decorrer do desenvolvimento com o IC, isto é um facto real que assisti sobretudo em Portugal em que algumas crianças necessitaram de englobar as duas línguas juntas de modo dar um empurrão para a explosão falada. Sou contra a imposição insistente, dotadas do mais absoluto disparate de falácia doentia e macabra de que o IC faz aquilo e isto rodeado de negatividade, absurdo de mentes imaturas, de mentes que não abraçam o desconhecido, de mentes que não fazem ideia do que é o som, de mentes que inevitavelmente fecham as portas ao que o mundo tem para oferecer. Só os mais ousados possuem esta coragem e brilho nos olhos!

As escolhas devem ser respeitadas, assim como a escolha dos pais diante da sua criança, mais do que uma escolha é a garantia de um futuro repleto de acontecimentos notáveis se bem encaminhadas e participar ativamente sem constrangimentos provocados pela Surdez.


É escolher em deixar de viver dentro duma redoma de vidro para uma imensidão sonora e vibrante, é deliciar-se em ouvir o mundo aloucado e não aquele ventre de décadas aprisionada numa bolha silenciosa. É ter escutado a minha alma suspirar por sons e ter escolhido esta maravilhosa jornada, a de transformação e descobertas. É ter desejado sobretudo o impossível, e a vontade foi grande como as estrelas que ele chegou de mansinho e então a activação do meu IC aconteceu arregalada com uma expressão de Alberto Caeiro, senti de novo criança no corpo de adulta e tudo ao redor mudou drasticamente para melhor nos primeiros sons, nas primeiras palavras e frases. 

Foi relembrar o quanto em criança desejava saber como soariam os sons, do simples beijo na bochecha, do vento que punha as folhas de árvores dançar, do mar cujas ondas rebentavam no areal, das gaivotas grasnar à beira do rio, enfim de conhecer as vozes da minha família e tudo muito mais. Todavia o impensável persistia, e foi então que pela primeira vez atendi a chamada da minha mãe no telemóvel, naquele preciso momento percebi o barulho do carro a ecoar no meu ouvido implantado juntamente com o som da sua voz, tão terna e suave dialogando “Então está tudo bem?” ao que respondi “Sim está e por aí?”, de volta aquela voz acariciava tenuemente com a minha incredulidade provocada pelo momento despedindo “Estamos quase a chegar, até já e beijinhos” – fiquei por breve instante assombrada… e tão feliz com as lágrimas a escorrer no meu rosto dialogando de novo nos meus botões “Não há mais silêncio na minha vida!”.

E é isso, surda profunda desde os 18 meses de idade, aparelhada até aos 23 e implantada unilateral a aguardar o 2º IC noutro país, agora espera-me um enorme desafio pois estou prestes a emigrar e isso só foi possível porque sem dúvida alguma o IC deu-me uma grande liberdade de fazer escolhas ao longo da minha vida, desta vez com toda a segurança e ligada ao mundo sonoro! Por isso, sim como a Lak Lobato do "Desculpe, Não ouvi!" disse, eu amo o Implante Coclear!   

terça-feira, 21 de maio de 2013

Novidades Curtas

E a vida continua assim como as conquistas sonoras transbordantes do mais inesperado, a facilidade imensa de compreender e discriminar a língua francesa com uma rapidez nunca antes ousada - é como se não fizesse tanto esforço em repescar na memória auditiva, mas o mais curioso é ter sabido esta língua somente pela escrita e oralmente pronunciado na era do antes-IC. Agora hoje em dia, as palavras fluem sem pistas visuais, parece ser muito mais simples do que a nossa amada língua portuguesa, contudo já observei falhas peculiares minhas em termos auditivos nas palavras francesas que terminem em "mi" , "emme" por aí diante e vagamente é para mim surdo, quase mudo tornando assim incompreensível.

É uma questão de tempo.    

quinta-feira, 4 de abril de 2013

O Desporto e o Esquecimento

O impensável aconteceu, o mais indicado é retirar o processador de fala antes de começar qualquer tipo de actividade desportiva devido ao risco de a transpiração prejudicar seriamente o funcionamento do mesmo, o material pode ser resistente mas em qualquer caso convém jogar pelo seguro pois se estraga não há volta a dar. Ora... estava demasiado empolgada em treinar de novo o meu Taekwondo de paixão, só me lembrei tirar os óculos menos o processador, nem dei conta do seu peso pendurado na orelha, ouvia e depois?

Habituei-me escutar o dia inteiro desde sempre, indiferente lá fiz o aquecimento em corrida ao redor do pavilhão, alongamentos e corridas de sprint sem descurar ou preocupar com as possíveis quedas devido à minha falta de equilíbrio, se cai-se, levantava-me e pronto. A seguir iniciou-se as técnicas aliciantes de corpo a pontapear nos Plastons, por aí vai, o processador de fala continuou ali bem sossegado a fornecer-me todos os sons e discriminação de palavras em tempo real, bem podia estranhar o facto de o meu equilíbrio estar incrivelmente estável... o susto surgiu depois quando os pingos de suor ficaram mais abundantes a deslizar no meu rosto!

Conclusão? Recordei em segundos já perto do fim do treino, que o processador continuava ali intacto, retirei-o encharcado de suor para o limpar com auxílio do tecido no meu dobok - socorro, como desesperei tanto coloca-lo no interior do desumidificador para tirar esta humidade toda - e foi o que acabei por fazer mal cheguei a casa.

De repente, fiquei a pensar de como este pequeno milagre biónico faz parte do nosso corpo sem darmos conta, do mesmo modo como dependemos da respiração para viver.   

Todo o cuidado é pouco. Aí, como suspiro a chegada do Nucleus6 e se for aprovado para a comercialização para lá em Outubro depois dos ensaios finais de Junho com performances boas em termos de resistência ao suor, à chuva e ao choque poderei ser mais feliz treinar a ouvir sem as limitações impostas.

Resta-me esperar. 

     

quarta-feira, 3 de abril de 2013

O Efeito do Último Reajuste

Tudo me soa tremendamente alto depois do último reajuste feito, as vozes ficaram diferentes ou melhor estão super nasaladas como se estivessem roucas o tempo todo e desconfio com toda a certeza ser mais uma fase de adaptação - aquela fase muito chata para o meu cérebro acostumar de vez à recém-programação. 

Hoje no metro reparei numa cena para lá de espectacular, ouvia o altifalante a anunciar baixinho as paragens de cada estação mais os acessos naquele alvoroço ecoado das linhas a rangerem estrépito no metal como se beijassem mutuamente. O barulho que se faz é impressionante, e reparo nas reacções de certas pessoas a taparem os ouvidos, penso se isso lhes faz doer?

A mim não faz nenhuma diferença, não me incomoda seja agradável ou desagradável, não me fere e aranha o ouvido pois eu escuto a partir do cérebro e não no próprio ouvido com as células ciliadas a produzir energia. É engraçado esta nova forma de ouvir. Tudo soa como disse, estranhamente alto, portanto estou a gostar menos aquelas vozes constipadas. 

 

terça-feira, 2 de abril de 2013

O Adeus a Coimbra - Parte 1 - O Início



Há 6 anos atrás, no mesmo mês e semana de Março a jornada iniciou-se a desaguar antes do amanhecer cavalgando nas agitadas correntes marítimas do Tejo rumo a Lisboa, no embarque da saída o céu cinzento gotejava ininterrompidamente debaixo do meu guarda-chuva aberto, era assim que o mundo dava banho de água fria sem ver a luz do dia, fomos caminhando em direção à paragem de Táxis.

”Para Santa Apolónia, com urgência.”

Uma vez chegadas no carrossel dos destinos, os bilhetes de viagem procediam com o simples toque do funcionário clicando no botão e o papel começara a imprensar na caixa registadora. Duas notas entregues e uns trocos devolvidos, só restou portanto guardar os bilhetes no interior de uma bolsa evitando que a corrente de ar os apanhasse no voo diabólico, andámos apressadas para a Linha 1 e faltava apenas 6 minutos para a partida.

Enterramos na carruagem cujas janelas do alfa-pendular se encontravam embaciadas pelos pingos de chuva vistos de dentro no conforto do calor e os passageiros enchiam os lugares vagos por ordem de chegada. Lisboa a fundo ainda dormia sem sobressaltos no meio das luzes amareladas, havia aquele brilho mundano de escape serpenteando nas linhas férreas associado à expectativa no aproximar da consulta. Algo ia mudar para sempre. Sentia isso.

E foi então que te conheci Coimbra tão encantadoramente mágica, uma cidade que embalava como uma canção de pontes e rios de estudantes inundados nos milhares guardas chuvas e gabardinas coloridas, entrevia uma canção que iria começar construindo pequenos versos que fala só de um lugar meu ainda incerto mas certo. Logo ali envolveste-me nos teus abraços de Primavera povoando uma neblina de um sol ofuscante a espreitar radiante no meio daquelas nuvens de algodão.

Coimbra contigo foi sentir de novo criança, a necessidade de sonhar trouxe em mim um impulso inexplicável que fulanizou o conceito que tinha da própria vida, quando se deseja algo somos capazes de ir até ao fim do mundo, eu por ti fui mesmo até ao fim fizesse sol ou chuva não descansei com um remanso emocional a circundar nos anseios de uma resposta definitiva após todos os exames feitos. Foi então que a contestação irrompeu na minha vida, pois por fim ia ter-te dentro de mim! Já não precisava de lutar mais contra as marés e ventos de tempestades, não necessitava lutar mais frente a fantasmas do meu passado de infância e contra as negações dadas como garantidas, sobretudo após a sentença de que nunca na vida poderia voltar ouvir porque a verdade é, iria finalmente poder escutar através de um Implante Coclear.

Ser uma Cyborg de verdade e não apenas ficção!

A Certeza

E a última consulta em Coimbra aconteceu com direito a tudo.