domingo, 29 de maio de 2011

Rescaldo Biónico



Prestes a completar quatro anos de activada, o meu ouvido implantado acabou de entrar para a pré-primária, já não é nenhum bebé biónico e como qualquer criança de quatro anos encontra-se sedada na linguagem informativa, saciando conhecimento. 

Vejo o quanto cresci neste espaço de tempo, rodeada de progressos auditivos desde ouvir música, escutar sons vulgares do quotidiano, deliciar-me com os risos dos adultos e gargalhadas contagiantes das crianças, de como é impressionante um choro de bebé descortinar no meio de inúmeras porções sonoras. Saber virar para que lado o som surge, se bem que no inicio foi complicado acertar com exactidão a sua posição, todavia, o melhor milagre foi a de puder conversar ao telemóvel. Quem diria, uma surda profunda ouvir a conversa e assim responder de forma convincente, nem sempre é tudo um mar cor-de-rosa pois como qualquer outra tecnologia o Implante Coclear tem limitações, portanto significativa apenas por curta duração: ele não se dá bem com ambientes extremamente ruidosos.

E a chegada do novo processador Nucleus5 vem colmatar este defeito com uma melhoria do software, capaz em diminuir 50% do ruído de fundo, mas pensarei eu, será assim tão diferente? Não faço ideia. Gostaria de experimentar um dia. Portanto, posso perfeitamente conversar ao telemóvel sem ser necessário aclopar o cabo ao processador, clicando o botão MT  (Microfone e Telebobina incorporada) para escutar em simultâneo com imensa qualidade.

Ainda há dias, quando passeava com a Lua, sim tenho um animal de quatro patas inseparável na minha vida, ouvi uma pessoa me chamar repetidamente, revirei tantas vezes o rosto, ora para a esquerda e direita, não vi vivalma nenhuma. Até que se fez luz, dirigir a visão para cima em modo piloto. A senhora, com as rugas estampadas no rosto segurava um bebé junto do parapeito da janela, a sorrir num diálogo esclarecedor. 

Inacreditavelmente questionei o quanto fui capaz reagir ao som. Estes pequenos milagres existem mesmo nestes quatro anos de audição biónica e artificial, vou construindo a cada dia um pedaço de mim, e a única certeza é, de momento haver outro brilhozinho e do quão confiante sou! 

Vivendo um dia de cada vez.  

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Cyborg no Trabalho

Como é ouvir com o Processador de Fala, vulgo Implante Coclear a nível profissional? Muitas vezes imaginei como seria estar num espaço aberto deveras barulhento na ausência de paredes ou qualquer tipo de isolamento de som.

Só estão cacifos e imensos computadores de topo, mais as pessoas que exercem as funções, e em cada posição está uma equipa orientada para projectos seguindo uma ordem hierárquica de paginadores, designers, fotógrafos e webdesigners.

Quando entrei no edifício do departamento de produções gráficas, podia ouvir o barulho da impressora a esculpir o papel, o ar condicionado burburinhar baixinho, uma música tocar e o que mais me assustou cada vez que aproximava do local foi a intensidade das vozes a circundar um eco amiudado e frenético em direcção ao meu cérebro. Exclamei para os botões. Chiça! Queres ver que no final do dia terei a cabeça prestes a explodir com tanto ruído em redor... 

A única hipótese foi diminuir o volume e sensibilidade, entretanto notei uma diferença abismal em termos de qualidade sonora do processador de fala... não conseguia escutar claramente as vozes. Estranho haver esta ocorrência, pois dantes não era nada assim. Devo estar com um ouvido super afinado!

Retornei ao volume e sensibilidade normal, mudando de programa do P1 para o P2, comecei a interagir com a malta e foi de uma facilidade impressionante num sítio em que o barulho é constante obstáculo para um implantado coclear cuja tarefa promete não facilitar a vida, porém encontrei o equilíbrio desejado manuseando os botões do processador de fala e a minha vida rola com uma normalidade aparente.

Já no final de tarde, vinte minutos antes da saída do serviço as pilhas do processador foram-se à vidinha, e não tinha outras novas comigo. É no que acontece quando surge imprevistos indesejáveis como ter uma chefe a querer falar comigo e eu não reagir ao seu chamamento. Pior ainda se me concentro na leitura labial, tudo que recebo é a não compreensão verbal... raios partam!


Nem os 20 anos de experiência focada na leitura labial fez activar o mecanismo, estarei enferrujada? Como?! Já?! Assim de repente?! Não, não foi bem fulminante, diria numa questão de meses logo após a activação do Implante Coclear pois o esforço seria recompensado pela via auditiva em vez da visão. 

Comunicamos, com ela a escrever no papel e no final responder-lhe oralmente, sou uma deficiente auditiva cyborg-ouvinte. 

Aí vida!