quarta-feira, 28 de março de 2012

Aos Interessados

Baseado na pesquisa do sistema Blogger houve interessados em procurar informações sobre a Revista da National Geographic Portugal de Fevereiro de 2010 sobre a Biónica, tema este onde o Implante Coclear em Coimbra é mencionado. 

Se alguém estiver interessado, tenho em PDF e para tal basta endereçar o meu e-mail que se encontra visível no canto direito abaixo para que possa dentro dos meus possíveis enviar.

Durante a 1º quinzena de Abril não estarei cá.  

quinta-feira, 22 de março de 2012

O Encontro com a Menina


O dia floriu murmurando o desabrochar da Primavera, solarengo e com aquele calorzinho de Verão. De repente deu-me uma vontade irresistível de ir ao Continente Bom Dia comprar umas bolachinhas doces, assim fomos num instante ao pequeno hipermercado da esquina. Achamos as bolachas na prateleira, trouxemos duas e seguimos adiante para a caixa. Foi então que tudo parou, vi uma criança com traças africanas, uma menina que não teria nem perto de 10 anos. Muito atenta aos sons em redor, mexia e revirava o rosto de forma constante, e o processador de fala Nucleus5 castanho, qual chocolate exibido ao mundo!

Sorri estando ela à minha frente, com uma caixa de ovos no seu colo a aguardar que chegasse a sua vez, neste pequeno espaço de tempo dialogamos eu e o meu amor em conjunto de como a bobina era visivelmente mais pequena que o meu. O seu olhar penetrante espantado e frágil, a sua independência em construção para uma vida tão cheia de sonhos e realizações trituravam nestes obstáculos de comunicação com o empregado de caixa, que se mostrou ser incapaz de a entender e ela a ele. 

O suor e os humores começaram a vacilar pelo dinheiro que ainda faltava entregar, apenas 29 cêntimos. Olhei e olhámos para aquele cenário que me fez recordar o meu tempo de criança, lançada ao mundo para enfrentar e amadurecer o relacionamento social com as pessoas e resolver os problemas de maneira ganhar maturidade e experiência para o futuro. São lições de vida que valem oiro. 

Enquanto ambos se debatiam, a menina e o caixa, vi um retrocesso eminente, a menina prontificou-se em entregar a caixa de meia dúzia de ovos por não ter mais trocos consigo, chegou a virar as costas e correr. Houve tempo de a interpelar e avisar que lhe dava os 29 cêntimos em falta. O sorriso foi enorme! Numa acção intimamente pessoal, retirei o meu processador de fala e a mostrei, naquele instante os seus olhos brilharam depois de um sorriso, e de repente um grande obrigado ecoou afastando-se entre-olhando para trás.

O rapaz caixista estava visivelmente atrapalhado pedindo desculpas que não conseguia compreender o que a menina lhe tinha dito. Acontece. Para a próxima já irá lidar mais facilmente a situação por se ter confrontado com esta experiência.       

sexta-feira, 16 de março de 2012

Resposta ao Jornalista Espanhol


Fui contactada por um Jornalista espanhol, através de e-mail, que anda a preparar uma reportagem sobre a tecnologia biónica aplicada às pessoas com incapacidades físicas e motoras, também sensoriais. Ficou extremamente curioso num aspecto em particular daqui do Blogue “Sou uma Cyborg – Ouvido Implantado” – de me apelidar de Cyborg, termo este que para muitos dos usuários biónicos pode ferir algumas susceptibilidades, pois a sua abreviatura é “organismo cibernético” – uma relação intimamente pessoal entre homem-máquina, artificialmente falado. Mas na medicina a história é outra pois existem dois tipos distintos de Cyborgues: a restauração e o avanço no sentido de reparar/melhorar a função que foi perdida durante o processo biológico.

Curiosamente, o Implante Coclear foi quem mudou o rumo de toda a ciência biónica, abrindo brechas para outras tecnologias que viriam a se revelar mais uma vez eficazes: o coração artificial, o pacemacker, a implantação de retinas, o olho biónico que actualmente está a ganhar notoriedade embora ainda não esteja perfeito mas todos os dias existe inovações por parte da medicina que visa melhorar a qualidade de vida das pessoas com incapacidades, cujas faculdades foram perdidas no decorrer da vida ou no nascimento. Conheço um menino cego, de olhos azuis, a aguardar que atinja a idade certa para puder ver como se o mundo de repente passasse a ter cores a girar à sua volta e descobrisse esta maravilhosa tonalidade de arco-íris, este rapaz irá receber o mais avançado equipamento de sempre daqui a uns anos.

Portanto, quando me apelido de Cyborg, é na realidade um termo carinhoso que dei ao meu Implante Coclear, porque tenho um ouvido biónico, uma tecnologia de alta ponta, um euromilhões aqui dentro. É aquela sensação única de ser parte de uma revolução tecnológica que me permitiu voltar a ouvir eficazmente pois ouço tão bem como qualquer ouvinte. Tanto até! 

Está diante de uma pessoa biónica, cujo equipamento é imprescindível no dia-a-dia para realizar diversas actividades. Sou portanto com imenso carinho, orgulhosamente Cyborg!

domingo, 11 de março de 2012

Momento IC II

Quando de repente sentes que a evolução nos sons e discriminação de palavras mais complexas resolvem parar, é no fundo sinal que melhores acontecimentos estão por surgir da maneira inesperada!

Sem pedir se faz favor, quando a gente quer que seja de cariz imediato, não podemos transportar as pressas na carroça à frente dos bois. Eu já devia ter percebido isso! Mas esqueço-me que a paciência é uma virtude.


Esta natureza surge o mesmo efeito idêntico à de crianças, há um tempo para aprender ouvir e assimilar as informações das entoações linguísticas peculiares da nossa Língua Portuguesa, a de amadurecer a natureza fonética no meio de muitos barulhos. A criança deixa-se de falar, emitindo os mesmos sons que antes aprendeu, falando à bebé. É onde começa a ter noção da sua voz, escuta a si própria e vai treinando novas palavras que nas primeiras vezes saem frouxas, desentaladas e incompreensíveis, mas gostam de brincar na produção vocal dos sons, ganhando maturidade para responder verbalmente novos vocabulários, juntar duas palavras numa frase e posteriormente ser cada vez mais. E é então, chega uma altura em que o nosso cérebro descobriu e aprendeu a filtrar os sons envolventes para apenas e somente concentrar-se no que é essencialmente importante: discriminar a voz humana.

Pois bem, aconteceu pura e simplesmente e tenho bem noção das minhas limitações auditivas com o processador de fala em locais extremamente ruidosos. A dificuldade em escutar vozes através das colunas onde uma pessoa locutora fala diante do microfone em espaço aberto, num jardim verdejante pertinho de uma estrada nacional de trânsito pude ouvir pequenas ondas do rio a embater nas pedras e o imenso vento rastejante a beijar no processador de fala. Na companhia da minha irmã, numa bela tarde solarenga onde decorria o Agita Seixal, pude discriminar cada palavra, cada frase de uma senhora que deu a honra de abertura com uma declaração especial em nome da Junta, ela soou-me assim:

"Em primeiro lugar, gostaríamos de desejar um feliz dia internacional da mulher, de 8 de Março a todas as Mulheres presentes! Obrigada a todos pela vossa presença. Divirtam-se!" 

Em resposta de confirmação - perguntei à minha irmã se era exactamente esta descrição que ouvira - ela sorriu, com o brilho nos olhos dizendo:

Sim mana, foi o que ela disse.

Não precisei de dizer mais nada! FELIZ por ter sido capaz de escutar mesmo com tanto ruído em redor. 
 


    

sábado, 10 de março de 2012

Momento IC

Momento da manhã: FAIL 

- ainda a dormir, coloquei a prótese auditiva na orelha, liguei e nada de som, nada de ruído, nem aquelas famosas estrelas sonoras. Rompe a estranheza, troco as pilhas gastas pelas novas, de novo na orelha e é somente silêncio! Ausência de sons barulhentos, intrigo-me:

"Raios, o que se está a passar?" 

- então, retiro o tubo e o molde da orelha, faço uma limpeza geral, aspiro o tubo com um balão de ar e voltei a montar, coloco de novo na orelha:

Silêncio!

Medo... 

depois de o tirar e o ter na mão o aparelho auditivo é que me lembrei logo que andava a pôr no ouvido implantado! Fuck....

terça-feira, 6 de março de 2012

Nós, Vencedores

Conhecem? Não sabem? É o Programa Nós, Vencedores de Rádio, da Antena1 da ilustre jornalista Sónia Morais Santos. Acontece por ser seguidora assídua do Programa Nós, Vencedores onde são contadas histórias reais de pessoas de quem na vida venceu perante adversidades, perante o luto, e a deficiência. Mais outros assuntos na qual semanalmente são abordados. Num simples contacto do facebook, a jornalista perguntou-me se estaria interessada em fazer uma pequena entrevista sobre Como Vencer a Deficiência Auditiva, hesitei por momentos, mas lá decidi ir, com a minha mãe por ela saber o começo da minha perda auditiva. 

Marcamos o dia, e o local frente ao Café do Pingo Doce, no Cais de Sodré e estava muito barulhento! Com o som dos voos rasos dos pombos, das sirenes de apito dos comboios e dos barcos, uma infinidade de sons! Sentadas na esplanada aguardávamos pela Sónia Morais Santos, incrivelmente foi ela que nos achou conhecendo-me pelo rosto. Abrira um sorriso rasgado, cumprimentamos e falamos um pouco naqueles segundos, a explicar-me como seria e como haveria de falar, o Programa Nós,Vencedores teria apenas 5 minutos de duração. Assim foi, entre nervosismo da minha parte por falar pela primeira vez na rádio desta magnitude, ainda por cima para a Antena1. 

Contara que já entrevistara mais pessoas, com surdez severa e outras familiares e namorado sobre como é conviver com alguém com Surdez. Claro, não descurei, tentei ser o mais breve possível, realçando pontos fundamentais da minha jornada. À medida que fui contando sobre a minha vida do antes e pós Implante Coclear, a jornalista Sónia Morais Santos admirava-se com os olhitos bem abertos e pensou para si mesma: Como é lindo ver, de repente perder a audição em bebé e mais tarde redescobrir os sons em adulta. E também não sabia que os medicamentos podem ter efeitos negativos provocando surdez... ou seja à medida que a minha mãe e eu relatávamos pequenas etapas - era um mundo fascinante à parte por estar fora do circulo da Língua Gestual Portuguesa - estava diante de alguém com surdez profunda, que venceu e lutou! Sim, lutei, lutámos graças aos meus pais, e particularmente eu. 

Apreciem!

"Esta semana ouvimos quem vence a surdez. Ou seja, quem luta para vencer as adversidades de uma deficiência que não tem de impedir nenhum som..."