A CYBORG

Descrever esta vida dava um belo conto de fadas, um enredo ensopado de emoções distintas em que ouvir era um dado adquirido e no fétido dia, aos 18 meses de idade a Surdez batera-me à porta sem qualquer aviso e os meus pequenos ouvidos ensurdeceram o mundo que me rodeava.

Silêncio.

Não me lembro de derramar lágrimas e aparentemente foi como se nada me tivesse acontecido! Os meus pais encolheram os ombros, chocados e desolados com a imprevisibilidade trágica que abatera diante da sua primogénita… de repente tornei-me na personagem principal desse filme a cores neste novo recomeço na busca incessante dos sons que é meu por direito. Tive uma vida normal.
 
Um dia, numa certa noite depois de muito reflectir e ver a minha audição cair em pique, o silêncio era cada vez mais uma certeza na minha vida, incapaz de me imaginar no mundo tão sem sons para todo o sempre foi assustador. E ao anoitecer dirigi-me junto da janela onde fiquei a observar as fortes rajadas de chuva e apercebi-me de que nada ouvia com as próteses auditivas, nesse instante pus-me a imaginar de como soariam aquelas gotinhas de prata a embeber no solo. Um misto de melancolia e revolta perante a minha passividade de não ouvir perdurou omnipresente na esperança de os meus ouvidos puderem finalmente perscrutar esta canção agueirosa.
Não demorou muito tempo, tornei pesquisar este portentoso aparelho biônico nas páginas da Internet recolhendo informações e testemunhos de inúmeros implantados, ao ler as suas vivências reacendeu o sonho que a vida me retirara aos 18 meses de idade, a de ouvir!

2007, era foi a altura certa em dar o primeiro passo e tudo começou através de um e-mail ao Dr.Fernando Rodrigues, uma semana depois tinha recebido a resposta com a consulta marcada no Hospital dos Covões… foi uma emoção tremenda, de euforia e empolgadez, assim foi o meu inicio, o princípio do fim. O determinado e indeterminado. O nada e o tudo.

Logo na chegada, já me encontrava na sala de espera a aguardar que me chamassem, e num vislumbre vi ele, de bata branca e óculos no rosto, de sorriso doce a descer aquelas famosas escadas. Era quase hora de almoço quando o altifalante irrompeu a ansiedade tenaz, lá fui, chegara a minha vez e como sempre, avistei o Dr.Fernando Rodrigues dando um aperto de mão e com mesmo sorriso ténue de há bocado quando descia os degraus. No desenrolar da conversa, ao contar o meu historial de surdez, e ter feito imensas perguntas pegou na minha mão, com os olhos dele a beijar nos meus o pequeno consultório tinha-se feito silêncio onde os raios de luz continuaram a penetrar o interior imaculado. Bastou uma palavra, que considerei ser sábia e confiante, de cara muito séria pronunciando: “Sim, contigo é possível”.
Depois do grande sucesso, na cirurgia e activação, eis-me então aqui, a ouvir as estrelas sonoras! 
Sun Melody