quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

2010


Mais um ano passou a correr e o novo está mesmo no virar da esquina, momentos inesquecíveis perduram agora nas lembranças para todo o sempre enquanto viver. Não prometerei nada pois aprendi que a vida foi e é imprevisível.

2010 tão incerto e esperançoso.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O meu Natal


No dia anterior da véspera de Natal, o distrito de Setúbal e Lisboa estavam em alerta laranja, temi o cancelamento dos transportes colectivos devido ao mau temporal inconsolável. Todavia o tempo melhorou e foi bom regressar ao norte de comboio, passar o Natal na pequena e isolada aldeia onde reina o frio, a chuva e neve. Rever a família e matar saudades, abraça-los como se nunca houvesse um novo amanhã.

O cheiro da lareira e o fumo sair pela chaminé das casas. O som das vozes, o som dos passos corridos aos atropelos dentro da nova moradia, a meiguice das gargalhadas. Assistir a queda de chuva na janela, como fazia em criança, vendo o mundo a trovejar furiosamente, estrondo intenso e barulho ecoado depois da explosão de luz, o frio arrefecido criando geadas em tudo que era lado.

Os quatro dias que lá passei foi agradável, muito. Tudo impecável e delicioso. O amor e a cumplicidade sempre presentes, assim foi o meu Natal.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Feliz Natal


Desejo a todos os leitores que me acompanham silenciosamente, um Feliz e Santo Natal recheado de doces, sonoridades e esperança por uma vida mais justa e fraterna. Haja amor, paz e solidariedade para todos, que neste Natal possam também aquecer o coração.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Preciso de Re-Programar


Anteontem enviei um email para o técnico J.H, pois senti a necessidade de dissipar algumas dúvidas acerca da programação do processador de fala apesar de estar a ouvir bem com o IC. Mas tenho a sensação de os sons estarem um pouco abafados como se as vozes estivessem a falar debaixo de um cobertor e gostaria que os sons fossem um pouco mais abertos e não filtrados, mais soltos e não aprisionados.

Não sei se é por ter feito o reajuste em Setembro, e após 3 meses o meu cérebro querer mais do que aquele mero interface, encontrar um ajuste perfeito em termos de volume e sensibilidade, bem como a profundidade de campo à minha actual condição auditiva.

Alguma coisa mudou também a nível de percepção e discriminação em ambientes ruidosos, que sufoco! A leitura labial não combina com a fonética verbal em tempo real, nem o inverso. São nestas alturas, ponho-me a pensar se toda esta poeira barulhenta resolveria com a implementação bilateral no meu ouvido direito?

Todavia, no dia seguinte (ontem) recebi resposta dele com pré marcação para Janeiro, espero guardar o programa actual no P1, e o recente no P2 caso não conseguir acostumar nele. Pretendo também melhorar a qualidade sonora do IC em ambientes ruidosos no P4.


domingo, 6 de dezembro de 2009

Momentos Biônicos


Um frio que teimava alojar pela noite adentro, seguimos de carro na auto-estrada a caminho de Setúbal para buscar a minha irmã numa Escola de Música. Só de relembrar o som do vento que batia nos vidros do carro, a comoção de reter esse instante. A alegria de ouvir. Os sentimentos contraditórios do tempo em que o silêncio foi rei destemido durante duas longas décadas na minha vida, desde a infância até à adolescência.

O sol desce, escondendo por detrás daquelas montanhas agrestes no horizonte. Barulho continuado, do motor, do clique dos pedais de mudança e travagem. Das canções portuguesas, das vozes embaladas pela sonoridade da guitarra. Vem-me à memória a distinção do primeiro ligar e o quão diferente estou hoje a nível de audição, se naquela altura depois de ter saído da sala de activação ouvia apenas as frequências agudas, o bálsamo das vozes e os graves teimavam em não penetrar o meu cérebro. Aliás sempre estiveram presentes, mesmo naquele momento, e ele, o meu cérebro não reconhecia essas tonalidades graves. Parecia um zumbido a ecoar intrinsecamente.

Fomos para casa de autocarro, dei-me conta de que não conseguia ouvir com clareza através do processador de fala as vozes, devido em grande parte ao zumbido chato e contínuo, que na verdade era som. Os graves. O ruído motorizado. Martelava dentro de mim, só no final do dia o zumbido passou a ser som, alentado de nitidez. Era capaz diferenciar o timbre de vários transportes rodoviários. Só necessitei de um dia para o cérebro habituar aos sons eléctricos do processador de fala, assim fui melhorando com o tempo, cada vez mais.

Todo o implantado, necessita de um processo de adaptação e aprendizagem, é preciso ter consciência que os sons não chegam tudo ao mesmo tempo. Primeiro sentem-se sensações auditivas, mais tarde são considerados como sons. Convém, no entanto abreviar: cada caso é um caso.

Estou na Escola de Música, naquele curto espaço de tempo alguém toca piano. Esse som tão familiar, esse som que reconheci logo sem nunca antes ter ouvido com a prótese, esse som amado que guardei antes de ensurdecer estava em evidência num piscar e fechar os olhos. Uma suspeita tornara na certeza, que lentamente iria transformar a minha vida plena de redescobertas constantes.

A vida tirara-me um sentido, e mais tarde a tecnologia devolveu-ma graciosamente, de braços estendidos perante a possibilidade, bastou escolher e isso é bonito de se ver. Decifrar os sons, no corpo de adulta mas criança ao mesmo tempo. É magia. O deslumbramento de um novo renascer.

Em casa, a fazer o jantar. O som do gás bombear a chama do fogão, a carne fritar, o tilintar agudo dos copos a chocarem uns nos outros. A chuva cair lá fora. As folhas dançar. As vozes dos repórteres do Telejornal na televisão. Os passos nas escadas do prédio. O choro de criança alugares no andar de cima. A música renascida do computador no quarto do lado. A minha irmã tocar Saxofone. O barulho dos talheres que pouso na mesa. O puxar do autoclismo. Cada som reconhecível numa espiral que não cessa e se encontra misturado.

Sentados na mesa, conversamos distraidamente como qualquer família unida. Políticas. Educação. Vidas alheias. Coisas pessoais. Acontecimentos. Novidades. Um telemóvel toca na hora de jantar, a A. levanta-se para atender e a gente vai comendo, petiscando... ela demora-se, e uma voz constrói palavras enquanto vejo o jogo do Benfica.

- "Bicho?"
- "Anda cá Bicho"
- "Espera, já vou!"
- "Então estamos todos a tua espera"

Virei de relance, matutei e procurei a confirmação do que tinha acabado de descriminar. Ouvi! Percebi! Mais uma vez com todo aquele barulho circundante da cozinha. Sim. Estou lá! Construindo a maravilhosa capacidade de ouvir.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Diálogos

(Photo de Adriane)

Na segunda-feira à tardinha, dentro do carro ruidoso embalavam quatro vozes, conseguia distingui-los, e pelo contexto da conversa pescando palavras soltas falavam de lombas na estrada, até decifrar um "ahhh, é verdade" paterno.

Anoitecera, já dentro do apartamento vestia um blusão e quando ouvi a minha irmã e mãe a conversarem entre si:

Irmã - Mãe!
Mãe - O que é?
Irmã - os meus fooooones???
Mãe - Não sei!

Ri-me baixinho, de sorriso atrás da orelha, fui ao quarto dela buscar os fones brancos pousados na secretária e lhe dei, vi dois olhos admirados a beijar nos meus. Deitei a língua fora, cúmplice e em jeito de brincadeira recebi abraços exaltados, abanões...