sábado, 6 de fevereiro de 2010

Pedaço de Mim


Não trocaria a minha vida por nada neste mundo com todas as suas cores e sorrisos, Portugal de norte a sul em apuramentos para os Nacionais, Espanha de Barcelona e Madrid - a minha primeira experiência internacional made in Portugal.

França de Paris, em que corajosamente subimos as escadas da Torre Eiffel para perder os 2 quilos de peso acumulado durante a viagem de autocarro que durou um dia e meio, de termos chegado ao topo completamente suados e ver a cidade parisiense tão brilhante, cercada de luzes, de ver o mundo um pouco arredondado no horizonte. De atravessar a ponte com a capitã e pararmos frente a uma reloutte pedir duas deliciosas panquecas de banana e chocolate. De ter decidido comprar um lindo casaco para a minha irmã como recordação. De apanhar o metro a caminho do hotel, e ao jantar detestarmos comida francesa... de no fim reunimos no corredor do do edifício com o mister para a noite da praxe dos caloiros pré-internacionais e de rirmos às gargalhadas com mãos na barriga deitados no chão.

De no dia seguinte levantarmos bastante cedo, para a prova de fogo do Campeonato Internacional, de termos chegado ao pavilhão e deparar com os gigantes de outros países, de tanto gritar "forçaaaaaaa", "na cabeça, na cabeça!", "acorda!!! Badal! Badal!", "Olé Portugal, Portugal, Portugal", de sermos constantemente observados de soslaio pelos outros e ver rostos reprovados, de um estrangeirolas a gritar no meu ouvido e eu a ameaça-lo com "mas o que tu queres pá? Estás a espera que te grite ao teu ouvido é??”

De estarmos roucos de tanto gritar, e cada um de nós vai-se preparando em vestir o equipamento, o colete, o capacete, a conquilha, as braçadeiras e canelas quando o número de combate começa a aproximar-se lentamente. Nervos em franja, coração acelerado e ansiedade. Os gritos continuam incansáveis, mas eu não ouço, tirei as próteses auditivas no entanto vejo a equipa a torcer por mim enquanto caminho descalça para o tatami "é para ganhares, se perderes nem sei o que te faço!! ouviste??". Sorri.

Ali, tudo parece estar em suspenso, o tempo, eu, a minha adversária e denoto-lhe uma expressão de indiferença... tudo a postos, posição de combate, troco de calcanhar a conhece-la e logo no primeiro momento em que ela avança para a minha direcção numa fracção de segundos dobro a perna elevando para cima e a estico acertando em cheio na cabeça e BBBOOOOOMMMMM. Perde equilíbrio e cai, o árbitro faz contagem crescente de 1 a 7, e é KO. Ganho, passo à fase seguinte. Venço mais uma vez, sigo para as meias-finais, depois a finalíssima cada vez mais renhida, os meus pés ressentem e incham, gelo, muito gelo e as outras começam a temer e eu a elas, estou no ringue novamente e ela ri-se, penso "porque raios ela sorri? estás a tentar jogar comigo, é? pois, não vais conseguir" - renhido, competitivo, marco ponto e ela a seguir, aproveito fazer rotação no ar e raspo-lhe o capacete, ela agarra no meu pé e é falta de menos meio ponto, foi por pouco... desvio em contra-ataque e dou-lhe no peito dois pontapés duplos, bah e bah, defendo-me desviando nos flancos, ela cerca-me e não sei como escapar, preparo-me e Bahhhhh, ela contorce, sei que a magoei é agora ou nunca. Todos gritam, fazem gestos, acenam os braços. Badal duplo, pontapé na cabeça, olho para o placard de pontuação e é suficiente para andar à roda fazendo com que os segundos da final do 3º round se escasseassem porque os meus pés não aguentam... Acabou, venci.

É a vez dos outros, grito sentada num dos bancos, empolgada a assistir um combate de outro mundo dum colega meu contra um espanhol, os enfermeiros pedem-me para ficar quieta, mas não consigo!!! Um aí aí aí ali, porraaaaa acolá, dói para caraças. Tenho as próteses nos ouvidos, cabelo rabo-de-cavalo, o seleccionador espanhol com uma rapariga senta-se a meu lado, olham os dois para mim surpreendidos e diz: “Ustend, no oye bien?”.

Esbocei um riso tímido, “sí, ey no oyen bien, há algum problema?”, “No, es que estoy sorprendido de ver a una personna sorda en esta competención de classe A” e enquanto, o seleccionador olhava para o belíssimo estado dos meus pés, respondi: “ah, ainda bem para vocês, no es mi primera vez. He estado en Madrid y Barcelona”. Incredulidade e admiração naqueles quatro pares de olhos, dois verdes e dois castanhos, como se a minha vida fosse um belo conto de fadas. Pensei para mim: “Até cá fora, sou sensação!”.

Arrebentamos com o primeiro lugar em equipas. O regresso foi doloroso, mas satisfeitos pelos resultados. Portugal sempre em destaque.

Há mais… de Bélgica, Holanda e Luxemburgo. Não trocaria a minha vida por nada neste mundo.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Quando a Pilha Acaba


A primeira regra de uma pessoa implantada, muito antes de sair de casa é verificar sempre e obrigatoriamente se levamos connosco um pack de 6 pilhas, não vá depois o mundo silenciar a cada minuto adicional quando numa noite de grande convívio com pouca luz o meu processador de fala emitiu três suaves apitos agudos anunciando a escassez de energia das pilhas e dentro da minha cabeça fez-se um ecoar silencioso repugnante.

Da canção para o silêncio, auxiliei-me na leitura labial, mas ela tornou-se uma natureza verdadeiramente insuportável. Ciente do desconforto, do cansaço que seria em olhar de boca para boca, todas elas com simetrias diferenciadas cujas palavras me parecem iguais.

Alberguei no universo tão fora do contexto, eu e o silêncio dentro da mesma redoma de vidro, bolas já não me recordava como era ficar sem ouvir, humilhada pelo meu esquecimento comecei a sentir repulsa, apesar de saber que foi uma reacção natural que ao estar sem ouvir é aperceber no fundo como a Surdez ainda pode exercer influência ao longo da minha vida, nem que seja por pequenos instantes diante de um botão que se liga e desliga.