domingo, 30 de novembro de 2008

SOS da Otite


Ontem não resisti, fui á SAP de urgência para tratar da inflamação do ouvido que de vez enquanto sugava e picava religiosamente, uma dor intensa. Detesto.... detesto... detesto otites, de todas as lesões que tive enquanto atleta de alta competição não ultrapassa o limiar de sofrimento desta.

Aguardei sozinha na lista de espera, uma pilha de gente no Sábado chuvoso, um menino ao colo da mãe amarrava o pano de algodão esvaziado de sangue junto ao queixo. Rostos adoentados. Crianças a escaldar de febre, amplamente sonolentas e moles. Um bebé com pintas de varicela.

Vi a insatisfação, os gritos queixumes na deficiência do serviço. Eu roía de dor... queria tanto mas tanto desligar o processador de fala, não podia senão não tinha como me ouvir a chamar, mantive firme encontrando um pensamento calmante alugares dentro da minha cabeça.

Barulhos. Os choros. A impressora. As vozes. O tilintar das moedas a cair em pingue na máquina de refrescantes e da cafetaria. Mais vozes e gritos. Pessoas a entrar e sair, a corrente de ar sentida dentro do estabelecimento clínico. Tosses sucessivas, espirros repetidos, assoares bruscos.

Resolvo pegar no telemóvel e escrever uma mensagem ao meu namorado, ouço alguém com voz de mulher articulando o nome com elevação, ouvi e percebi: Sun Melody! Porém, não tive tanta certeza, olhei-a e perguntei que nome era, pronunciou Sun Melody. Sim, sou eu.

Yeah!

Lá fui, caminhando no meio do corredor estreito e arrefecido. Entrei numa pacata sala nada acolhedora, expliquei-lhe... observou o ouvido lesado e receitou-me antibiótico para uma semana, tomar de 12h a 12h. Aconselhou-me marcar uma consulta de especialidade. OK.

Regressei ao caótico local barulhento de vozes e gritos, estava feito, ia agora a uma Farmácia e depois para casa, no entanto chove, ouço as gotinhas de chuva a bater no solo, deixando o seu rasto em terras molhadas.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Ouvido Não-Implantado


Existe uma coisa dentro de mim, noutro ouvido, o pior que escuto ou quase nada. O não-implantado, cuja anatomia perdura a fragilidade desde os tempos de criança que de mês a mês espreitava uma otite malandra dedicando-me quilómetros de dor... de desespero, de choros contínuos com direito a mordidas na almofada no silêncio da noite, contorcendo na vontade de arrancar este sofrimento dentro do meu peito coclear.

Maldita otite!!

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Ida a Coimbra I


Coimbra brindou-nos á chegada, uma geada de correntes de ar fundidas de gelo num líquido de água em que o sol tornava a nascer na enseada do Mondego. Uma paisagem de cortar a respiração e os sons que ouvi era apenas o vento muito agressivo, queimando os nossos rostos, apertamos o casaco acompanhado por cachecóis coloridos. Fomos ao bar da estação beber um café quente antes de apanharmos o Táxi, ali á frente logo após a saída da Estação Coimbra-B.

Que frio, mais gelado que Lisboa.

Foi rápido, chegamos ao Hospital dos Covões em cinco minutos, até vencemos o taxímetro que não chegou a ultrapassar os 5€. Tive a impressão, de que efectivamente o dia seria diferente, horas mais tarde acabei por ter razão. Correu tudo pelo melhor.

Depois de marcar a presença na recepção, subimos para o 1º piso e aguardamos sentados, estava ali uma rapariga implantada que de vez enquanto observava-nos demoradamente... a mim e ao meu namorado, parecia-me nova e usava o MED-EL preto, ficava-lhe bem com a cor do seu cabelo, um loiro dourado.

E de relance surge a Terapeuta de Fala de sorriso aberto, com os seus olhos tão azuis como a cor do céu e do mar dizendo "bom dia" e um "aguarda só um momento que já volto a chamá-la". Assim foi, minutos depois, veio ter connosco para mais um teste ás minhas capacidades cognitivas, mais uma prova desgastante, e novamente os nervos regressaram em mim.

Lá apresentei os resultados descritos numa folha de papel, anotações de treinos que fiz em casa com a família. È certo, torceu o nariz, no entando expliquei-lhe a minha aparente dificuldade de entender vozes mais graves, se era normal?

Segundo ela, sim é, ensurdeci antes do tempo de prevalecer a memória auditiva e por isso o meu cerebro não reconhece. Apenas necessito treinar bastante, para afim criar uma sintexe da memória em relação aos sons das palavras.

Lá recomeçamos as vogais, aparentamente piorou no entanto em outras letras teve uma melhoria significativa, após tantas tentativas não conseguia acertar ou fazia-me confusão pois as letras eram-me quase semelhantes. Parecidas. Estranhou... e disse, que ia falar com o Técnico JP para dar uma melhoria de reajuste. ok. Aguardei na sala.

A porta quase entreaberta, num gesto chamou-me, lá seguimos para a Sala de Afinações, dar um retoque ao meu processador de fala, retirei o Implante Coclear do lugar e dei ao Técnico JP onde este ligara o meu aparelho a um cabo conectado ao computador, e a Terapeuta melhor que ninguém sabe onde exactamente focar o problema, pediu para separar determinadas frequências, os 2 dos 22 electrodos.

Já com o processador de fala ligado a mim, não notei nenhuma divergência, estava igual ao que ouvia antes. Regressamos a sala, e demos continuidade ao trabalho da Reabilitação, disse as respectivas letras de forma rápida, e acertei quase tudo, só errei umas 4.

(continuação)


segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Estou a Chegar


Coimbra á vista, e como havia de ser em dia de chuva por isso mesmo não deixa de ser mágico, espero sair de lá com o dever cumprido.

Acima de tudo, abraçar e sentir os aromas do Mondego. Só mais um dia Coimbra, beijo as tuas palavras e todos os sons que existem em ti, ó bela cidade!

domingo, 23 de novembro de 2008

Um Silêncio Diferente


(Photo By Cyborg)

Hoje de manhã acordei bem-disposta, e a primeira coisa que tive em mente foi buscar o processador de fala e cola-lo magneticamente, depois de o activar a minha respiração ficara suspensa pois não ouvia barulho nenhum, mas sim o silêncio habitual.

Não me recordo de passar por esta experiência antes. Foi incrível, escutar este emudecimento e descobrir que não é igual ao que vivi e senti, não um silêncio absolutamente esmagador e obscuro, mas diferente. Era agradável e alegre.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Ouvir Bionicamente


(Photo by Sun Melody)

Tic tac tic tac, um relógio antigo pendurado na parede de azulejos esfriados faz este barulho e recorda-me a emoção de ouvir este tic tac tic tac genuinamente infantil aos olhos de uma criança. È engraçado este timbre quase associado a uma nota musical de um instrumento ligeiramente suspenso na intemporalidade e me fez pensar que milagre foi este, a de puder escutar novamente.

E é tão bom.

O vento lá fora, cada vez mais forte embebendo a tarde imaculada e solarenga de folhas soltas ensopadas ao meu olhar, de encantamento, o meu novo ouvido implantado a bailar em todos os segundos e minutos na dança das folhas. Pura música. A melodia da Natureza. O som do vento e o tic tac tic tac metálico do relógio envelhecido.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Tu és a minha Música


Queria tanto dançar, entrar numa discoteca e ouvir música aos berros com aquele que pinto o mundo há anos, agarrado a mim corpo a corpo e o olhar dele a beijar os meus ternamente apaixonado.

És doido, és louco e único.

Amo-te P.M.

domingo, 16 de novembro de 2008

Campainha e Irmã


A campainha toca bruscamente. Maldita campainha, atingiu o cume dentro do meu nervo auditivo e pôs-me a rodar mil e umas voltas de tontura, esta peste! Só ela clica o botão assim, igual aos anteriores, a mesma sequência regular.

Barafusto irritada, raio de campainha tenho que te trocar por uma mais leve e menos ruidosa, espreito o pequeno circulo vidrado e a peste está do outro lado da minha porta cheia de pressa, suada e ofegante. Abro-a.

Corre para a casa de banho, deixando as coisas no chão do corredor: a mochila, as sapatilhas, incluído a parte cima do Dobok e fecha a porta a cadeado. Passou-se! Ouço o chapinhar da água a partir da cozinha, e reclamo os 10 minutos no chuveiro e grito "despacha-te senão o jantar fica frio!"

Nenhuma palavra foi dita.

Escuto a porta reabrir devido à ausência de óleo e a seguir os passos arrastados, e vejo-a com uma cara de poucos amigos, mal-humorada e acaba por se sentar a meu lado, enquanto ponho comida no prato dizendo "ó piolha vê se para a próxima não coles o dedo no botão durante uns segundos, basta tocares uma vez apenas, está bem?"

Responde-me indignada com "epá já vais começar?!"

Que bicho lhe mordeu?! ^^'

Entendi na perfeição, sem leitura labial. Mais uma festa.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Discriminação Auditiva


Imagem retirada daqui

Anteontem, depois de ter tido uma manhã atribulada na metrópole lisboeta tornou-se evidente o cansaço que se fazia sentir no meu corpo, quase esgotada mentalmente de tanta pressão acima dos ombros.

Sentada no banco metálico da estação de comboios, uma aragem gélida batia-me o rosto esvoaçando os milhares fios de cabelo e o processador de fala de vez enquanto espreitava o mundo.

Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii. Credo!

Um apito muito agudo, e depois o altifalante anuncia, no entanto percebe-se pessimamente e só consigo apanhar bocados da frase "Senhores Passageiros ........ comboio ...... Setúbal ......." - digo eu, está a chegar.

Mesmo á distância, as rodas chiavam, gosto do som.

As portas abrem automaticamente, entro, desço as escadas para o "rés-do-chão" desesperada por um sossego momentâneo e vejo o jornal deitado na polpa, pego-o para manter a leitura em dia sobre as tendências da actualidade, ainda se fala sobre a vitória e momentos históricos de Barak Obama.

A seguir, a famosa crise financeira, salto a página procurando o soduko - este jogo fascina-me tanto mas tanto e nunca fui boa em números, cada dia me surpreendo. Concentrada lá ia resolvendo o problema existial do quadrado, nem me tinha apercebido a presença do revisor a meu lado, até eu ouvir um tímido "desculpe!", sobressaltei-me!

Um pouco a leste, mexi as mãos apressadas e retirei das calças o passe, no entanto os meus dedos escorriam sempre que tentava tirar o passe do plástico, e novamente o revisor pronunciou "não é preciso" - olhei embasbacada.

Tinha discriminando as palavras sem fazer leitura labial! E eu percebi nítida e claramente - inteira, sem intervalos e paragens no tempo vocal. Soletrou tudo seguindo.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Mini - Treino Auditivo

Revi as vogais, testanto a minha memória auditiva - A -E -I -O -U tendo acertado uns 85% e mais adiante, discriminando os números e notei a minha dificuldade no 19, 10 e 6.
Continuo amanhã o resto.

sábado, 8 de novembro de 2008

Adormecer com o Implante Coclear


Mais uma noite, a ver tv e deixei-me adormecer com o Implante Coclear activado tal era o cansaço no quentinho do edredon enrolado em mim, é certo, no amanhecer acordei com as vozes activas a circular dentro da cóclea e incrivelmente as pilhas não se tinham esgotado... como era possível?

Mudei-as na terça-feira, ainda hoje elas duram. Geralmente o limite é de 4 dias, devido ao ultimo reajuste do Sun Melody, o programa encontra-se mais forte em termos de potência/velocidade dos impulsos eléctricos transmitidos através dos electródos.

No entanto, tenho impressão que a duração das pilhas estejam já em contagem descrescente na sessão solene de qualidade sonora, a cascata soa intermitente mais grave.

Resumido, dói-me um pouco a cabeça.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Projecto Criativo


As ideias são imensas, e já reservo trunfos na manga a favor dos implantados, por enquanto encontra-se no papel imaginário onde aos poucos, lentamente o conceito do procedimento irá ser agilizado com a ajuda dos tópicos já preparados por mim.

Se assim resultar, apresentarei uma proposta irrecusável e talvez quem sabe alguns profissionais estejam interessados para bem das crianças e adultos implantados.
Até lá, farei o teste de experimentação com a Sara, a SilenceBox e por fim eu mesma - 3 cyborg's, sei no entanto, terei a aprovação destas duas. :)

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Palavras e Telemóvel


Digitalizo essas palavras ao som da música “Amanda – Aisha Duo” de Jazz, onde por sinal gosto da melodia, da entoação e percebo como me acalma bastante enquanto trabalho estimulando o nervo auditivo sem qualquer mínimo de esforço.

Estou há mais de um ano neste caminho interminável, sem fim e espero continuar nesta empreitada cavalgando estradas e lugares diferentes, dia após dia ao volante do processador de fala em busca de sons e discriminações auditivas atravessando o mundo á pé.

Procuro. Encontro. Descubro. Vibro em cada conquista. Guardo para dentro de mim, que percorrem como borboletas procurando quem sou através das mudanças sonoras, o meu silêncio já não é silêncio de oiro. Mudou como as pessoas que mudam a maneira de pensar e sentir das coisas em que o mundo lhes oferece.

Conduzo de olhos fechados. O processador de fala guia-me, ruído a ruído, palavra a palavra, melodia a melodia e tudo em mim é música, apenas música crua e verdadeira, capazes de me devolver o calor da vida, o seu sentido e significado em tempestades de gelo que fazem doer os ossos.

No entanto, o amor das palavras existem, reconhecer a voz de alguém familiar por detrás do telemóvel que toca desenfreado e cheio de pressa de ser atendido, ouvir um “olá” alegre aliado a uma preocupação crescente do “está tudo bem?”.

E a minha resposta entregue do “sim, está tudo em ordem e por aí”, novamente a voz do outro lado sussurra ao meu ouvido implantado ténue e aguda do “também está tudo bem”, e então fala-me uma frase comprida mas eu não percebi desta vez porque havia muito ruído de fundo naquele lugar. Mas que lugar era esse? Desconheço. Não cheguei a saber.

A frase é repetida, continuo a não entender e desanimo um pouco, não devia ser difícil de aprender a ouvir, questionei. À terceira com mais calma, noto que ela saiu do ambiente ruidoso e consigo escutar claramente o “passa ao acorrentado”, fez-se luz e reafirmo o que ouvi “passo ao acorrentado?”, a voz sobressai o “sim”. Wow!

Cheguei á conclusão, que mesmo lentamente chegarei ao destino - vitoriosa.

Foi o que aconteceu ontem, no entardecer em que a chuva se avizinhava na espreita do céu cinzento-escuro, triste e deprimido. As nuvens pareciam ter um mapa escondido, a dos sons e palavras soletradas.