terça-feira, 29 de junho de 2010

Antevisão da Cirurgia em 2007 - III


Não conseguia dormir, dei voltas na cama a noite inteira de desassossego e ânsia. O sol alteava, lembro-me de acordar bastante cedo, e a enfermeira aparecer no quarto para me dar uma bata com o logótipo azul do Hospital dos Covões para vestir. Perguntou de como me sentiria na véspera da cirurgia. Aparentemente em paz respondi, de sorriso brando e pacífico pois era algo que ansiava já há muito tempo, por isso não valia a pena ter os medos assombrar o instante mágico que acreditei tudo correr bem. Fui ainda à casa de banho finalizar os preparativos de higiene com o cabelo seco lavado de betadine da noite anterior.

Das minhas companheiras de quarto, a pequena M enfaixada e implantada há poucos dias dormir no berço mais a sua mãe M. A menina no alto dos seus dois anos acordara a pedir uma bolacha da embalagem do Noddy, ao me ver deu-me um beijinho e um abraço, de ela querer saltar para cima da cama brincar. Do olhar preocupado e temeroso do que se estava a acontecer. O ponteiro do relógio apontava para as 9h, era agora, mais duas enfermeiras entraram para me medirem a tensão, deram luz verde para me levarem ao bloco operatório empurrando-me na cama rolante. Espanto comigo própria, devia estar apavorada, mas não estou. Quero o Implante Coclear embutido em mim, para que ninguém mo tire, para que possa finalmente ouvir o mundo e sair do silêncio para a canção.
A enfermeira carregou no botão vermelho do elevador, a pequena M começa chorar, todos se surpreendem, incluído eu. Digo, não chores princesa, daqui nada estou de novo contigo e vamos poder brincar. Tenho a prótese no ouvido esquerdo, uma despedida solene daquele que foi meu aliado durante muitos anos. Aceno a mão em jeito de um até já. Retirei da orelha, o aparelho com sorrisos de bege que finalmente iria descansar, e o beijei. O meu coração batia muito depressa. Nunca tinha sido operada, não estava entre a vida e morte. À medida que ia aproximando da sala de cirurgia um arrepio percorreu na nuca, devido à mudança de temperatura, senti uma pequena corrente de ar a vaguear naquele corredor cinza-escuro.
Entrei adentro, na espaçosa sala banhada de azulejos de um verde alface, observei em redor, enfermeiras e médicos vestidos de bata verde, com máscaras coladas no rosto. Aquela luz cegava os meus olhos, uma grande aréola redonda de metal apontada para a tarimba dura e desconfortável. Saltei da cama para a outra, e uma das enfermeiras pegara na minha mão direita donde tenho o cateter, recordo de ela tentar desentupir o canal para que o líquido da anestesia começasse a fazer efeito, mas não conseguia pois aparentemente estava defeituoso. Ora, acabaram por me tirarem e colocar outro em boas condições, não me doeu nada, nem um pouco. Depois aplicaram aqueles fios de motorização cardíaca no meu peito e em segundos visualizei acima da mesa um estojo embrulhado de plástico transparente, tão bonito e perfeito. Daqui a umas duas horas estaria dentro de mim a dançar na cóclea!
Aproximou o Dr.F, afável e prometedor, os lábios dele agitam para puder lê-lo “Dormiu bem A.? Está pronta? Vamos a isso! Pô-la a ouvir!” – chegara a hora de por fim ao silêncio, e recomeçar a vida com outra perspectiva, uma mudança plena de sensações. De repente fiquei com tanto sono, uma força poderosa em fechar os olhos, ainda resisti um pouco mas foi demais. Desliguei-me completamente. O sonho começou dar vida.
Lentamente, no recobro ainda de olhos cerrados sinto um aperto na cabeça, e o ar quente a transcorrer por entre as minhas pernas e evoco a cirurgia! O implante coclear! Tudo me vem à consciência, levito o braço em direcção à cabeça, e os dedos tocam a textura da ligadura. Feliz, respiro, o mais difícil já foi! Contemplo momentaneamente o trunfo de conquista, finalmente IMPLANTADA.
29 de Junho de 2007.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Antevisão da Cirurgia em 2007 - II

Despertei e o apartamento do meu primo residia silencioso, vi as horas, eram 8 de manhã. Encaminhei com as minhas roupas para a casa de banho, e através do vidro o sol nascia abrilhantando o azul do céu, vinha aí o calor de verão.
Tomei um duche de água fria, pus creme e escovei os dentes por fim o cabelo, olhei-me ao espelho. Pensei, é hoje!
Comecei preparar a mala de internamento, não podia esquecer de nada sob pena de estar em perfeito delírio de uma seca mirabolante, a de não fazer nada nos próximos 7 dias. Chinelos, cuecas, soutien´s, gel de banho e châmpoo. Revistas e livros guardados, dois pares de pijama com fecho de abertura para facilitar a retirada com um monte de ligaduras envoltas na cabeça. Garrafas de água. Iogurtes. Tudo estava feito.

Saímos a caminho para o Hospital dos Covões, visivelmente ansiosa vejo rostos de preocupação, tudo vai correr bem digo. Chegámos. A dra.S. respondeu no dia anterior que tínhamos de estar presentes no edifício principal da ORL, não era necessário dirigir no balcão de atendimento, bastava ligar para ela. Ok. Não foi preciso pegar no telemóvel, já vinha ter connosco e num impasse pronuncia "Olá A. como estás? Estás pronta?" abano a cabeça  em sinal de confirmação e mais uma vez leio os seus lábios "Olha A. eu e a equipa chegámos à conclusão de que afinal não a vamos implantar no pior ouvido, no direito, optamos pelo esquerdo." 

Aquilo apanhou-me de surpresa, já estava mentalizada de que seria no direito, e por curiosidade abordei a questão, de porquê ser no ouvido esquerdo, o mundo parecia querer andar ao contrário. Pelo menos assim me pareceu, naqueles segundos exaltados, e a Dra. S. prontamente concedeu "Os dois ouvidos não são exactamente iguais, morfologicamente tem características diferentes, e segundo o estudo do seu caso a par da evolução da perca auditiva dos audiogramas apresentados, vimos que o esquerdo foi sempre o mais dominante e não só, em termos de amplitude das frequências capta da melhor forma. Acreditamos que após a implantação, a A vai ter uma evolução auditiva mais pertinente. Todavia a gente não avança até a A. decidir".

Não hesitei, nem duas vezes. Sorri. A decisão era minha, ninguém tem autoridade em impor-se nela. Arquitectei a minha voz, "Dra.S. vamos, vocês vão pôr-me a ouvir!" 

Cheguei ao meu quarto de internamento, cheirava a novo, tinham feito obras à pouco tempo, escolhi a cama e ali permaneci.     

domingo, 27 de junho de 2010

Antevisão da Cirurgia em 2007

Há 3 anos, neste dia (quarta-feira de 2007) os meus pés pisaram Coimbra, e assim iniciou a serenata travessada do sonho e realidade. No restaurante petiscava leitão com batata frita, e de repente o telemóvel toca no meio da grande multidão de comedores esfomeados... era a Dra.S. dizer para estar internada no dia seguinte no Hospital dos Covões ás 10h da manhã.

Fez-se o riso de felicidade, os meus olhos encheram-se de água, foi talvez o melhor presente da minha vida, de algo que viria a me devolver o que havia perdido para sempre. A tão almejada audição.

Assim encadeia emoções de um sonho real.  

terça-feira, 22 de junho de 2010

Pedaços de Mim 2

Gosto de manhãs ensolaradas, de sorrisos sinceros e rasgados, de conversas sérias cheia de maturidade em vez de diálogos algemados com toques aviados de total indiferença. De pegar no e-book à luz do entardecer e escrever ou desenhar junto ao rio, de ouvir a brisa e os guinchos das gaivotas.
Amo o riso de criança, contagiante e inocente. Os gestos levianos  e elegantes, adoro o cheiro do pão fresco acabado de fazer e de saborear um batido de banana pela noite adentro. Não resisto a gulodices, e também não resisto ao meu namorado em tudo que ele é por natureza.
A vida seduz-me. O brilho das estrelas encanta-me, e o cheiro da relva cortada nos jardins perfuma as minhas narinas. Gosto de fotografar instantes únicos, verdadeiros e sem poses. Prefiro lutar em vez de estar sentada e deixar a vida passar, fico lixada quando alguém interrompe o caminho e os meus ideais. Sou o tudo e o nada em constante mutação. Sou acima de tudo EU mesma.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Dias Sonoros

Podia escrever infinitas coisas e acontecimentos, passei as mini-férias fora do meu círculo natal a duas horas daqui e São Pedro brincou connosco lá em cima do céu brindando-nos uma grande intensa chuvinhada e vento durante o amanhecer. Quando lá chegamos, ao atravessar a ponte que passa o rio Tejo sustive a respiração de tal modo que a beleza da paisagem ultrapassou-me em grande escala, um belo quadro de planícies contínuos como existem nas fotos de revistas turísticas.

Foram dias fantásticos, de ar puro, de animais com o canto bem afinado, os sorrisos e conversas cúmplices de uma geração de outros tempos em que a vida era bem mais dura. O descanso na serenidade de uma casa típica alentejana em tons amarelados e janelas verdes situada no meio do jardim recheado de todo o tipo de vegetais e frutos carregados que nasceram alimentados da terra batida onde a água do poço que escorre estabelece a harmonia da vida. 

Houve tantos os sons que ouvi, alguns mais focados e outros discretos, foi agradável escutar as gotinhas de prata quedar, rolas a cantarolar, houve uma altura já na hora da refeição os galos decidiram iniciar uma sinfonia delirante e depois paravam até que algum galo distante da quinta começasse retribuir cantando. Pareciam estar na paródia, à conversa do que se estaria a se passar, e para juntar à festa os pardais chilreavam. 

Fechei os olhos só para ouvir esta linda orquestra.

A noite rompera silenciosamente soprando uma leve brisa, pelo menos cá fora pois dentro da típica casa alentejana reinavam vozes alegres e divertidas. Sabedoria. Muita. Naqueles sorrisos rasgados e intemporais.

[continuidade]     

sábado, 5 de junho de 2010

Progresso Musical

Pus-me a caminho para a paragem de autocarros, ouvia o crepitar leve e sussurrante das árvores nesta tarde cálida, decidi ficar em pé à sombra enquanto esperava o transporte. Chegou. Validei o passe magnético e sentei-me no penúltimo lugar do lado esquerdo com o motor a rugir furiosamente. 

A pesada viatura continuou a ser conduzida pelo motorista, subiu ao cimo de uma pequena colina e iniciou a longa descida no meio dos campos agrestes serpenteando até que mais à frente parou. Entrou um homem, que pelo aspecto seria brasileiro com os fones colados nos ouvidos, escolheu instalar-se atrás de mim. 

O suor encharcava-me, escorria água salgada na pele da minha face e nesse momento apercebo de uma música qualquer, cheia de ritmo a tocar. Uma coisa foi certa, não vinha da viatura. Continuei a ouvir, só me apetecia pôr o corpo a abanar e dançar! O volume da música começou a oscilar-se entre o médio e alto, continuava a procurar o ponto de origem da melodia... ora virei a cabeça para a direita nada, e agora na esquerda - ei-la! Está atrás de mim, daquele homem com os fones nos ouvidos que logo à partida devia ter o volume no máximo.

Ainda mais surpreendida fiquei, pelo simples facto de estar dentro do autocarro assentada acima do motor a rugir impacientemente, um bailando grave e agudo de mãos dadas.

Afinal sempre há progressos!