quarta-feira, 30 de julho de 2008

30 Julho - 1 ano de Activada!

Photo by Sun Melody
Deleito-me em ouvir as subtilezas desde a activação e recordo-me nitidamente a grande viagem da reentrada ao mundo dos sons com tanta clareza o instante memorável em que o técnico J.P esboçou um riso diante do meu olhar nu, despido de um nervosismo hilariante e ao mesmo tempo sério, de expectativas e pensamentos irrequietos.

Retirara o Implante Coclear do pacote, encaixou as peças separadas, moldou o gancho do ouvido e a bobina para a unidade de processamento, a seguir deu um toque final, segurou o controlador BTE e fez rotação á unidade de processamento, estavam assim unidas num só corpo.

Mais tarde conectou o cabo que partia do computador ao processador de fala, fê-lo com uma naturalidade nunca antes encarada, e num gesto poisou o aparelho coclear na palma da minha mão, despertei como nunca, desejei e ansiei tanto por esse momento.

Único, um rio de sensações indescritíveis.

O despertar das sonoridades, o de poder finalmente ouvir o mundo característico dos sons, de sentir na alma como soariam as vozes das pessoas que amo, a sonância da natureza, o piar dos pássaros, o timbre de uma gargalhada e sobretudo escutar a minha voz.

Estava rendida assim a inúmeras possibilidades, incapaz de imaginar o que me aguardava, um clamor de melodias indefinidas, é certo, fiquei ansiosa com o implante coclear já colado magneticamente ao chip interno, agarrado a mim seguro por detrás da orelha e não senti nenhum tipo de desconforto, fiquei ainda mais eloquente no seu abraço tecnológico.

À minha volta existia silêncio, a respiração suspensa, o coração bombeava a galope e pude comprovar que tudo iria mudar, sentada de punhos fechados, onde de repente um apito cintilante rompe e surgem outros, apito baixo, apito alto, apito ali e acolá continuamente.

Adiante um simples botão fora ligado! Saltei da cadeira com a explosão de ruídos dentro da minha cabeça, fervilhantes, assombrosos e no fim mergulhei de incredulidade, vozes, ouço vozes e o guincho dos passos vindos do corredor, e depois as primeiras palavras intercaladas do técnico J.P. “Consegues ouvir-me?”

Todo o meu corpo paralisou, absorta, conseguia escutar nitidamente, e questionando o quão é diferente, comparado com o uso da prótese auditiva, parecia inacreditável e cativante a energia das próprias palavras a entrar no meu novo ouvido recém-activado.

Precisei de um tempo para voltar em mim, as palavras tinham sido engolidas em seco dentro da boca, enjauladas na preciosa redescoberta dos sons, fora inundada na orgia dos mais diversos ruídos acalorados de emoção, do riso ao choro de felicidade.

Por fim, a muito custo respondi “Sim”, numa fracção de segundos escutei pela primeira vez atónita o timbre da minha voz, suave e terna, o meu interior agitara por reter todos os sons que conheci em tão pouco tempo e já era para mim uma verdadeira bênção.

A minha mãe, testemunha e espectadora de toda a minha existência, olhara-me no abismo das sensações, os lábios tremiam, a visão enchera de lágrimas a escorrer no seu rosto, era um choro de alegria.

Saí da sala de activação a ouvir, vozes misturadas, gritos de crianças, passos, o canto das cigarras e inúmeras melodias.

Um ano passou, um ano de muitas conquistas sonoras, um ano onde o telemóvel e o uso do MP3 passaram a fazer parte da minha vida, são tantos os sons que me faltam para descobrir e conhecer, saboreá-las e acolhê-las nos meus frutos com uma intensidade quase tresloucada!

Não existe mais silêncio, só na hora de embalar sonhos.

domingo, 27 de julho de 2008

SmartSound 1 e 2


Em Julho de 2007, quando comecei a escutar o mundo mal o Implante Coclear fora activado reparei num pormenor – o BEAM – o WHISPER - o ADRO – inicialmente não sabia o que significava este tipo de linguagem, o que era então?

Peguei no manual de instruções do Nucleus Freedom – e consta que se trata de uma tecnologia inovadora – o SmartSound 1 – um software que dá para armazenar vários programas de ajustamento no processador de fala á medida que as novas tecnologias evoluem até chegar um upgrade mais sofisticado e aperfeiçoado em termos de qualidade sonora.

Assim sendo:

O BEAM – Permite concentrar-se nos sons provenientes da direcção para a qual está a olhar. Pode ser utilizado, por exemplo, quando estiver a falar com alguém numa multidão onde existe muitos ruídos distractivos á sua volta.

O WHISPER – Está mais vocacionado para a detecção de sons baixos no silêncio. Poderá ser utilizado, por exemplo, quando estiver numa reunião ou formação onde é mais difícil ouvir a uma determinada distância.

O ADRO – executa ajustes automáticos quando se verificam alterações significativas de som entre alto e baixo. Poderá ser utilizado, por exemplo, quando existe muito ruído: os sons baixos são detectados com maior facilidade, os sons altos são mais confortáveis e a fala é clara.

Ora, em Fevereiro de 2008 actualizaram o meu processador de fala pelo tão badalado SmartSound 2, é efectivamente um ajuste inteligente para uma ampla gama de situações auditivas do quotidiano em que a pessoa utilizadora com o Implante do Nucleus Freedom pode tirar o melhor partido na estabilidade dos sons.

As novas características incluídas no SmartSound 2 foram: o RUÌDO, a NITIDEZ e por fim a MÙSICA.

O RUÍDO – Foi projectado para fornecer a melhor audição em sítios barulhentos, por exemplo, num jogo de futebol onde nutre a emoção, a excitação, podemos desfrutar todo este conjunto de sons.

A NITIDEZ – Tem um foco simples em compreender a pessoa que fale á sua frente quando há muito barulho em redor. Imagine, está numa festa alegre ou num restaurante, nestas situações de desordem pode querer reduzir o ruído em torno de si, para que possa desfrutar a conversa com o seu companheiro.

A MÙSICA – Foi concebido para permitir uma melhor descriminação musical em qualquer instrumento, assistir a concertos e ouvir gravações (CDs, MP3, Rádio, etc).

Portanto, houve uma disparidade em especial á música, no que respeita a intensidade dos timbres vocalizados, o ritmo de entoações e a clareza das vozes.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Audiometria



Houve uma grande evolução, em termos de percepção auditiva do antes e pós Implante Coclear, vou esclarecer o diagrama gráfico, ora como vêem na tabela existem 7 cores, certo?

Cada uma delas é agrupado o grau de perda auditiva dominante, portanto a linha preta nela exposta no perímetro rosado está na área da Surdez Profunda, abaixo dos 100 decibéis, ou seja antes de ser implantada ouvia qualquer coisa com ajuda das próteses auditivas.
Sem elas, existia um silêncio total.

O traço vermelho e contínuo, emergiu na era do pós-Implante Coclear, para ser mais exacta dois meses após a activação (Outubro de 2007). Foi a primeira audiometria, e os resultados não tardaram em aparecer assim sendo passei de Surdez Profunda para Surdez Leve. Um espanto!

Superei todas as minhas expectativas.

Finalmente, ainda no processo de reabilitação auditiva onde sou constantemente acompanhada pelos profissionais, em Fevereiro de 2008 renovo o audiograma, desta vez houve uma ligeira subida de 10% em relação ao anterior pactuando na fronteira da audição normal com Surdez Leve bem vísivel no gráfico de linha azul.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Melhoria do Reajuste

Chip Interno- Nucleus Freedom - Contour Advacend Electrode

Depois de meia hora a espera, avistei sentada o Técnico J.H no balcão da Widex, fardado, de bata branca por cima da sua roupa e aparentava um ar bem disposto. Mirei-o de relance, e o telemóvel começou a vibrar insistentemente dentro da minha mala esverdeada.

Desabotoei o bolso, peguei nele e atendi ao meu ouvido implantado, uma voz doce e tremula que circunda como uma corrente de ar nas células ciliadas, reconheço essa voz familiar, que me agrada e dá-me festas. Estrelas sonoras.

"Tou?"
"Está tudo bem?"
"Sim, ainda não fui chamada."
"Ok, quando saires avisa-me."
"Está, beijo."

Todos me observam, caras desconhecidas, e uma senhora de idade sentada a meu lado fita-me cheia de curiosidade, admirada e sabe que uso Implante Coclear, tenho ele á vista ao mundo a brincar com os fios do meu cabelo. Belo e digno de atenção e nem por isso fico incomodada. Esboço um riso vaidoso.

Ali, o Técnico J.H faz-me um gesto natural como que dizer para aguardar uns minutos, sacudi a cabeça de afirmação. O tempo voou, e a grande porta de madeira é entreaberta de mansinho sem o habitual ruído desgastado na ausência de óleo. Levanto-me, acelero os passos na sua direcção, demos um aperto de mão e os olhares entraram em contacto, brilhantes e afectuosos.

Reparo a mudança da sua personalidade, as maças do rosto ficaram ligeiramente coradas, questiono, que se passa? Ele não é assim, nunca o foi para comigo, onde está o seu ar arrogante e reservado, um cubo de gelo nas emoções inexpressivas? Alguma coisa aconteceu para deixá-lo tão desperto e sociável, mais humano com o calor de bondade e compaixão nunca antes vista.

Percorremos o corredor, estranhamente encantados, quando finalmente foi directo ao assunto e procurou entender a minha situação auditiva, no começo esquivou. Entretanto, as suas palavras acalmaram-me, e a sala permanecia silenciosa, as paredes eram á prova de som, o cheiro á perfume dos detergentes de limpeza.

Estabelece a conexão do processador de fala a um cabo que partia do computador, e tinha razão... alguma coisa não estava bem no programa do Implante Coclear, foi preciso ajustar quatro vezes e levantar o dedo na revisão dos apitos agudos, todos eles altos, intermédios e baixos.

Ele liga o aparelho biônico, escuto, está muito baixo, peço para que diga uma frase, não, não está bem. O aparelho é desligado, regresso ao silêncio e o J.H fica atento no software, aumenta os agudos e baixa os graves. Fui novamente activada, e agora? Não noto diferenças, está muito parecido… de repente surge-me uma lógica, solicito-o para voltar á programação anterior e que aumente a velocidade dos impulsos eléctricos na extremidade dos eléctrodos.

De volta ao adorado mundo dos sons, ena que diferença! Está óptimo, perfeito, vozes mais nítidas que chegam a mim, a velha melodia da minha infância, sou novamente uma borboleta, e flutuo no ar da vida, invisível.

Tão meu, tão único.

Hoje

Estou terrivelmente cansada, é o melhor termo a aprontar.

Objectivo nº 1 - feito - gravar palavras de homem/mulher para um cd-audio de forma treinar intensivamente a minha memória auditiva com ajuda do MP3 durante as férias com o meu mais que tudo.

Deveras aliciante! Vou me divertir bastante.

Objectivo nº 2 - ainda por realizar - refazer/melhorar o reajuste do Implante Coclear á tardinha na companhia da minha irmã que tanto adoro. Expor pequenas dúvidas ao Técnico J.H, e tirar-lhe o ar tão sério a um tímido sorriso.

Até logo

segunda-feira, 21 de julho de 2008

A Novidade do Bluetooth



Fiquei abismada ao saber que uma pessoa com Implante Coclear pode utilizar um auricular sem fios - Bluetooth, nunca imaginei um dia experimentar - ainda sequer tomei iniciativa, o meu telemóvel não contém caracteristicas apropriadas para o uso desse mesmo diapositivo.


Daqui a um ano, compro um telemóvel que se adapte ás minhas necessidades cocleares, espectáculo!

Parece uma loucura, de repente abriu-se um mundo de oportunidades ilimitadas, são pequenas coisas que fazem diferença, não sei como soará as vozes das pessoas, distorcidas? ásperas? confusas com interferência? Límpidas? Não sei.


Vou fazer um ensaio de ESTILO demasiado audacioso : )

Acaso Sonoro

Estive presente no Campeonato Nacional de Atletismo este fim de semana, vi atletas de renome mundial em acção para a qualificação aos Jogos de Pequim no complexo desportivo "A" internacional.

Houve muitas provas: Corrida de Barreiras, Corrida de Fundo, Corrida de Meio-fundo, Corrida de Velocidade, Lançamento do Dardo, Lançamento do Disco, Marcha Atlética, Obstáculos, Salto com Vara, Salto em Altura, Salto em Comprimento e Triplo Salto.

Tive a oportunidade de conhecer novos sons por mim então desconhecidos, é o caso da pistola ar, a queda de uma barreira, as palmadas aplicadas nos músculos dos membros inferiores, e um bailado de vozes deleitável numa viagem sem fim.


No entardecer, abraçei a vibração sonora do vento na intimidade de um sorriso.


Esta quarta-feira tenho uma consulta agendada, para uma melhoria do reajuste em relação ao anterior mapa, espero assim baixar os graves e dar amplitude ás frequências mais agudas de forma as vozes realçarem suavemente e transparente sem poeiras no meio da azafama de ouvir.


Mal posso esperar pelo renascimento em peso!

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Implante Coclear Nucleus Freedom

Uma visão real de Upgrades e futuras tecnologias, estás dentro de mim e não és uma coisa qualquer, fazes-me ouvir os risos cintilantes do mundo dos sons.



quarta-feira, 16 de julho de 2008

Discriminação de Palavras II

O cansaço era ainda mais profundo, tinha os pensamentos conservados a um lugar distante, vazio e próximo do sossego ao mesmo tempo que escutava a extensão ferroviária sob o peso da carruagem.

O som do metal a ser engolido, no arranhar das rodas em brasa, e apercebo como é bom provar este ruído lentamente, ao longo do percurso.

Estou a chegar, e o altifalante rompe o meu cérebro: "Entrecampos".

Discriminação de Palavras

- Um.

- Sessenta e sete.

- Seis

- Letra: D, S, Z, B, T.

- Mas.

sábado, 12 de julho de 2008

Instante Sonoro

Ouve-se a minha mão a bater no peito de calor, e peguei numa revista que se encontrava dentro do cesto de palha, empilhado de crónicas, folheei-as uma a uma, e junto ao meu ouvido implantado entrou um som ténue, leve e suave.

Uma sensação auditiva de sopro, reconfortante e encantador ao virar a página.
São estes momentos em que penso, valeu realmente a pena fazer o Implante Coclear e conhecer todos os sons, em busca da última melodia.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Conquistas Sonoras

Dei uma volta na baía com a minha família, ao andar á beira do rio ouvi o bater de asas dos pombos em pleno voo, mais uma descoberta solta invadiu o meu interior mágico e esse som é tão banal para quem as ouve desde sempre.

De regresso a casa, acabei por ligar o computador e ouço a uns 20 metros, o espaço que separa o escritório da cozinha, um nítido ATCHIIIMM ecoado e contínuo, mas ponderado como ondas sonoras submersas no azul do mar.

Eu: “Santinho!”

Pai: “Obrigado”

terça-feira, 8 de julho de 2008

Reabilitação em Obras

Bolas… fui ao Hospital fazer reabilitação auditiva, e não é que me deparo com as obras gigantescas, cabos e fios de electricidade a olho nú… uma barulhada colossal de berbequins, serraduras, e vozes entorpecidas dentro do caos desumano naquelas condições.

Foi impossível.

sábado, 5 de julho de 2008

Dormir com o Implante Coclear


Os eléctrodos comigo, não terão descanso e ontem foi a segunda noite que dormi com o implante coclear activado, posso afirmar sem hesitações, dormi que nem criança ao som da brisa, dos lençóis estendidos na corda a dançar em compasso e batiam nos quadrados brancos do estore na cozinha.

Já mergulhada no sono profundo, a música dos latidos caninos apaixonados abastecia a energia eléctrica ao meu nervo auditivo, doces cócegas irreverentes, pequenas células despertas encheram-me de sensações auditivas que me fez acordar às seis da manhã.

Pestanejo várias vezes na escuridão do quarto, concentrada aos sons em redor, senti ternamente envolvida no clausulo melodioso, no barulhar dos veículos a uma distância soberba, dos passos nas escadas que chiavam dentro do prédio.

Nada é como antes e não existe mais silêncio.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Falar ao Telemóvel.


Estou sem saldo no telemóvel, tal situação não me é possível enviar mensagens a quem porventura precise mas dado o meu milagre coclear, OUÇO palavras e consigo na maioria das vezes entender o contexto da frase vindo do outro lado.

Vozes reais e humanas, reconhecidas há quase um ano, desde a activação. Um canal de frequências límpidas e coroadas imerge no meu ouvido implantado até ao nervo auditivo, por fim com destino marcado ao cérebro.

Basta o telemóvel tocar acima da mesa com uma música de fundo, sem o suporte do alerta vibratório condensado de tremidelas bruscas para atender, de seguida encosta-lo à orelha, junto ao microfone do processador de fala e de lá nascem palavras delicadas.

Escuto e entendo de verdade, frases memorizadas.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Tecno-ciência

Neste novo reajuste, verificou-se um avanço nos agudos pois não se encontram bastante intensos, existindo entre eles uma suavidade na intangibilidade e esclarecimento auditivo, de certa forma acho agora mais equilibrado no embate de variadas vozes porém ainda “estaciono” nos graves.

Insisto em melhorar neste sentido metafórico, não sei se por agora com o Implante Coclear as frequências graves me soem diferente em comparação com a prótese auditiva, mas uma coisa é certa, na cirurgia quando colocaram o fio de eléctrodos na cóclea não perdi nenhum resíduo auditivo que me restava, caso contrário, hoje não estaria a escutar os graves.

Se isto durar, marco consulta na próxima quarta-feira em Lisboa para fazer uma melhoria do reajuste.

È a vantagem do Implante Coclear, haver versatilidade no software: 4 programas.