sexta-feira, 7 de junho de 2013

O Desencanto da Surdez

É cansativo ombrear a intolerância sem qualquer cabimento, e ainda mais extenuante quando o confronto se torna directo em ter lidar frente a intelectuais sádicos na falta de sabedoria sem menosprezar esforços de que a Surdez é uma coisa maravilhosa. A sério só me apetece vomitar! Como pôde ser transcendental e concludente?

Há tanta mas tanta gente a querer ouvir melhor, gente que perdeu audição, gente que nasceu assim, gente que inevitavelmente desejaria em ter os sons de volta na sua vida mas não pode porque a biologia não o permite. Contudo, muitos se esquecem de como as crianças lidam no clausulo a dimensão da própria Surdez quando são confinadas no despertar da consciência individual como individuo racional no decorrer do crescimento e muitas vezes esta ausência da falta de um dos sentidos não passa despercebida mal observem que nenhum elemento da família utiliza aparelho auditivo.

É nesta altura, a brecha revela e começam a querer curiosamente desvendar o significado dos timbres em que o mundo oferece muitas vezes aos outros, é querer escutar junto de amigos que dançam ao som de uma banda formada a ensaiar ruidosamente pela noite adentro na garagem. Ouvir um sussurro segredista da melhor amiga de infância com a boca bem próxima do ouvido para que os outros não saibam, ouvir pistas num jogo de brincadeira do quarto escuro e reconhecer a voz em vez de tanger com a palma da mão em cada rosto para adivinhar o nome eleito. Ouvir os pássaros chilrear, o som das ondas a rebentar bem sonoro no areal, mais o mensageiro dos ventos que carregam chuvas e tempestades colossais de trovejo, de querer perceber conversas nos desenhos animados favoritos ausente de legenda, de realizar uma chamada telefónica para convidar uma amiga dormir na sua festa de pijama, de conversar os amores de paixão ou combinar um ida ao cinema, de escutar um mero ditado numa sala de aula sem depender da leitura labial e assim acompanhar em ritmo idêntico dos colegas sem qualquer tipo de limitações. De poder aprender tocar um instrumento musical, ir a uma visita de estudo assistir Teatro e ouvir na plateia o diálogo dos personagens, ou mesmo quando uma prenda oferecida no Natal se trata de um fantástico Walkman que apesar de tudo dava para escutar qualquer coisa mas insuficiente devido ao nível e grau de perda ser demasiado profunda para apreciar em pleno.

Então a Surdez é estupenda?
Para quem sente bem na sua própria condição no uso de aparelhos auditivos, talvez nem engasga com a falta de solidão auditiva diária e por isso não necessite em dar um salto qualitativo em melhorar a vida por estarem já acostumados desde sempre, estas pessoas não conhecem o verdadeiro som, não sabem o que denota a carência de admitir que perscrutar invariavelmente pouco pode prejudicar distintas experiências, e mais do que nunca comunicar é deveras importante quando se tem uma vida social activa, um emprego preciso cuja vertente é conferenciar clientes em que o discurso torna-se constante.

Daí entra o Implante Coclear, um milagre da ciência e do conhecimento que promete modificar imensas pessoas para quem decide avançar num outro nível de traquejo, mas pior é quando se trata de alguém que ouve normalmente sem entraves não faz ideia da profundidade de isolamento do quão a Surdez traz, nem mesmo a uma criança com pensamentos em ebulição onde as perguntas são mais que meras respostas.
Escolhi não ter ressentimentos e desilusões, porque tive finalmente a oportunidade de fazer uma escolha que poderia mudar tudo ao meu redor, simplesmente demorou visto de não ter sido a altura certa, no entanto chegou a tempo e pude então ser feliz em ouvir com apenas um Implante Coclear.
As emoções enclausuradas finalmente deram destaque a lágrimas alegres, e junto dela as descobertas levaram-me ao êxtase, pude apreciar cada som, cada palavra, cada frase discriminada auditivamente como uma verdadeira bênção sem igual. Foi regressar de novo à minha infância para puder vivenciar o que perdi em barcos similares e hoje o meu mundo é tremendamente descomunal.

Sim abraço os sons, um amor inegável e por isso pretendo em breve colocar o segundo Implante Coclear dando um irmão no lado direito, assim educadamente com a minha licença para quem continue achar a Surdez um empreendimento maravilhosamente concebido e legítimo, faz o favor de danificar os seus ouvidos mas tenha cuidado para não as inutilizar pois num tempo não muito distante quando realmente sentir a falta de ouvir e das coisas acostumadas vai ter desejado nunca ter feito isso.


Nunca diga que a Surdez é deslumbrante.