sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O Regresso do Silêncio I


Dias depois de completar 3 anos de activação decidi enveredar por um ensaio pessoal, determinando as minhas emoções e comportamentos as consequências desfasadas na prolongação do silêncio, estando quase uma semana sem ouvir com o Implante Coclear. Não pensei chegar a este ponto logo após 21 anos em silêncio, jurei para mim mesma nunca desligar o processador de fala mas as circunstâncias assim ditaram para que pudesse vivenciar uma experiência metafísica e psicológica, talvez por isso goste de aprofundar com interesse o reencontro desentrançado do passado.
Da canção para o silêncio. Esmaecida na ausência de sons, tudo se silenciou como se a respiração ultimasse o ouvido implantado, as folhas suspiradas pelo vento pararam de dançar, o canto dos passarinhos criou dentro do meu cérebro um vácuo constrangido de cantaria muda, podia imaginar o som reflexo da memória auditiva, não apenas um som, mas de todos desenvolvidos no apoio da visão periférica diante de objectos em movimento.

Era capaz de conceber o som daquela matéria-prima sem ter o sentido de audição ligado, o silêncio disparara em retrocesso apoderando de mim quais teias de aranha debruçando no estágio do isolamento auditivo e todas as cores deixaram de ser brilhantes. O poço foi ficando cada vez mais fundo, escuro e humedecido.