quarta-feira, 27 de outubro de 2010

3 Crianças e 3 Cirurgias


Mais uma bebé pequenina entrou no selecto dos Cyborg's, conheci a E. com apenas 8 meses mais a sua família no 3º Encontro Nacional de Implantados que houve em Lisboa no mês de Agosto.

Foi reconfortante conviver, esclarecer informações sobretudo na nossa presença e de uma terapeuta espanhola na qual estimo imenso. E estava lá também um rapazinho com duas próteses auditivas coladas nos ouvidos, já se tornara falante porém a perda era já de carácter progressiva e ás vezes o destino tem coisas engraçadas. 
Nesse encontro, duas famílias descobriram que moravam na cidade comum, dentro da mesma freguesia bem como a M, a R e a F. Mais uma vez as dúvidas foram desfeitas, seguiram a viagem para casa aliviados e foi então que mais tarde recebi inúmeras notícias boas. 
 
O pequeno rapaz das duas próteses auditivas iria ser implantado, e a bebé E tinha consulta marcada para a pré-avaliação de Implante Coclear, dias depois fui informada de mais uma bebé, a pequena B dos olhos azuis resplandecentes a caminho do Implante. E mais do que uma vez, o mundo parece a querer conspirar aos felizes acasos, tanto da E como a B tinham consultas agendadas para o mesmo dia em Coimbra! 

Portanto, é isto, a vida tem destas coisas assumidamente inexplicáveis e apesar de tudo, continuarem ligadas no mesmo fio condutor da história.  

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O meu Setembro em Coimbra II


Quando cheguei à paragem junto do rio próximo da ponte de Santa Clara, havia um placard electrónico que informava os minutos de chegada do autocarro e me iria transportar ao Hospital dos Covões, faltava cerca um quarto de hora e a manhã da cidade espreguiçara docemente depois do sono vigilante, as águas do Mondego abrigada de vapor na quietude que me pareceu haver mais do que qualquer coisa, um mimo de tranquilidade emaranhado no murmúrio do sopro a roçar no meu ouvido implantado.

O estalar da bolacha a ser partida em duas partes, os meus dentes a chocalhar de frio, o esfregar das mãos, meu deus já não me lembrava disto desde o Inverno passado, é assim que pequenas coisas que a gente ouve passam a ser despercebidas?! Cada som tem um cheiro diferente, e eles tem também personalidade própria que vão mudando de humor, tanto podem soar harmónico como de repente ser desprezível, isto não podemos mudar, tal como a vida os sons chegam a nós de forma inesperada e é no inesperado que renasce a beleza da magia sonora.
Vi a camioneta aproximar-se, ao entrar retiro do bolso do casaco o bilhete magnético e pico-o no ponto que engole e cospe o passe temporário das três viagens, e é então que fecho os olhos durante não sei quanto tempo, perdi a noção dos minutos, mas ninguém sabe que não posso ver de pálpebras desabotoadas nem a estrada através da janela de vidro mas estou no fundo bem desperta a ouvir o barulho ensurdecedor da viatura, o arrastamento dos travões enferrujados, os passos pisados dos saltos altos, as portas a abrir e fechar e os desculpes com licenças dos idosos.  
  
Era evidente, que já reconhecia de longe estes ruídos, mas chega sempre aquele que mesmo à distância e de passagem surge um timbre misterioso, diferente e por isso irreconhecível como foi daquela vez quando descobri o tilintar da chuva e a dança dos talheres na cozinha da fazenda do norte. A porta estará para mim sempre aberta, vou imaginando como uma criança que escuta e vê à sua frente uma grande odisseia de descobertas permanentes, e isto é emocionante! 

Cheguei pensativa ao local do edifício de ORL, preocupada com a otite persistente do ouvido direito e que continuava a deitar líquido, e da explicação a dar acerca do reajuste muito mal feitinho e ajustado. Dirigi à recepção de maneira confirmar a minha presença e pagar a taxa moderadora da consulta, lá se foi mais 3€ e tal… ainda faltava um bocado para ser chamada, diria que vim bastante cedo, antes da hora prevista.  

Antes de ir para a sala de espera, espreitei a saída e reconheci ao longe dois rostos, a mãe V com o R, o bebé mais novo implantado em Portugal, decidi então aguardar lá fora com um sorriso aberto e dialogar para dentro dos meus botões “será que vai reconhecer-me?”.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O meu Setembro em Coimbra

Eram 04h40 da manhã quando senti o telemóvel a vibrar sibilante, estava escuro como breu lá fora e o sol não germinara por enquanto, fui tomar um banho quente relaxante à pressa pois às cinco tinha de me pôr a caminho de Lisboa sem demoras. O Alfa-Pendular velava a minha chegada na estação das partidas, dos destinos cujo mapa traçado estaria naquela estrada, não um caminho de alcatrão, mas sim de linhas férreas em que muitas histórias começam a ser escritas. São inícios, recomeços e por vezes o fim.

Estas linhas aromatizam a continuidade da minha jornada, já passaram mais de três anos desde aquele dia em que fiz a cirurgia, a famosa implantação do diapositivo coclear, mais tarde embutido em mim durante um mês até ao dia da activação e não estou nem desejosa de o ver chegar ao desfecho. Ainda me falta muito, preciso de renascer a cada reajuste realizado, a cada conquista soberba e por isso a trajectória progride infatigável.


É sempre um prazer avistar colinas cobertas de gelo no horizonte amarelo acinzentado e ouvir o vento a chocar na monstruosa máquina de velocidade, as vozes dos ocupantes agarrados aos telemóveis, o retinir dos vidros duplos, o altifalante a anunciar estações, o ressonar afadigado dos que dormem, as músicas de jazz que ouço no meu telemóvel fechando os olhos, apreciando cada melodia, timbre com intervalos. Sons. Amo ouvir estes sons tão próprios e específicos, envolventes na minha vida e não consigo imaginar agora sem viver com este renovado sentido. Tão cheio de ternura!

Finalmente, pisei Coimbra debaixo de uma túnica de nuvens frias, o disfarce perfeito da cidade, parecia o fim do mundo com o céu sombrio e ensopado de humidade, Coimbra só é assim pela manhã sempre inconstante nas várias estações do dia, lenta a despertar do sono entorpecido na cachoeira dos transportes públicos.   

(continua)          

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

6 Dias Antes


O anterior reajuste feito foi em Julho de 2009, porém meses mais tarde apercebi-me que não tinha sido bem afinado pois deixei de ouvir alguns sons de longa distância, e tudo soava abafado mas a nível de vozes mantinham-se razoáveis, havia progressos mas demasiadamente lentos. Conforme os dias iam passando, a dificuldade de conversar ou ouvir em grupo foi agravante, daí ter sentido necessidade em ajustar melhor a programação do processador de fala, enviei e-mail ao Técnico de Coimbra em Dezembro, no último mês do ano de 2009.

Pouco depois, recebi como resposta: Tem de aguardar pela carta do Hospital com a respectiva marcação. OK. Não pensei que demorasse tanto tempo devido à urgência em deliberar este pequeno obstáculo, e as dores de cabeça eram uma constante.

Janeiro, Fevereiro, Março, Abril, Maio, Junho, Julho e nada… literalmente comecei a perder tolerância… Agosto, Setembro… otite no ouvido direito, enxaquecas amiudadas e frequentes, ouvido implantado inadaptado. STOP. Não aguento! Ligámos para Coimbra de raspada emergente e o Dr. Fantástico bastante atencioso conseguiu arranjar um buraco na agenda, apenas tinha de lá estar antes das 08h.