terça-feira, 29 de setembro de 2009

Bilateral


Sim ou Não? Eis a questão, não sei se o meu segundo ouvido (o direito) reúne condições adequadas para a implementação intra-coclear. Para já aguardo que chegue sexta-feira, depois saberei se é possível... agora estou sem expectativas.

domingo, 27 de setembro de 2009

Eleições - 27 de Setembro de 2009


Já votei e cumpri o meu dever. Democracia precisa-se urgentemente, mudança ainda mais... no agora e hoje.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Book - Audio


Para continuar o treino auditivo, decidi recorrer a áudio-livros, confesso que nunca antes tinha experimentado. Assim sendo, o primeiro objectivo foi iniciar a busca no Google e imediatamente saltou-me à vista um áudio de "A Fórmula de Deus", inquietante no factor-chave a respeito da qualidade sonora intercalada numa possível voz de uma mulher ou de homem.

Já não tinha com o que me preocupar, pois os graves tiveram uma revolução programável facilitando assim a discriminação verbal, estava contudo mais que determinada em superar esta prova de fogo. Descarreguei. Agrupei os três capítulos dentro de cada pasta. Experimentei abrindo o Media Player, e a fita electrónica deu andamento sem eu dar conta do facto... uma voz de homem pronunciando claramente: "A Fórmula de Deus (pausa) de José Rodrigues dos Santos..." não queria acreditar no que tinha escutado!

Percebi ali, que valeria a pena pois assim não corro o risco de interromper os progressos conquistados em Coimbra. Aqui vou eu ouvindo e lendo o livro em simultâneo, memorizando as palavras recitadas. Que bom!

sábado, 19 de setembro de 2009

4º Dia de Reabilitação I

(Photo - todos os direitos reservados Sun Melody)

Coimbra lacrimejou a gemer de tristeza aquando antes da minha partida, os pingos de chuva embatiam o solo raso do corredor predial incapaz de me abraçar e proteger da tempestade selvagem. Não tinha o guarda-chuva comigo. Resolvi aguardar um pouco no hall de entrada para que a tempestade diminuísse de intensidade, mas nada valeu.

Decidi abrir a bagagem, demovi o casaco branco no fundo da mala e o vesti agasalhada, depois retirei o processador de fala e o íman da minha cabeça colocando-o dentro do estojo à prova de aguaceiros. Silêncio. Que estranho silêncio, do timbre chuvoso para o nada. A renúncia da ocasião levou-me a querer auxiliar-te carinhosamente, pôr-te longe da embriaguez incessante e assim foi. Meti-te dentro da mochila do Monte Campo, estarias ali seguro. De mochila às costas, e a bagagem pesada apreendida no meu ombro esquerdo, sai a correr debaixo de uma carga de água molhando-me em segundos, não na totalidade. Saltei. Declinei na passadeira directa à paragem de autocarros.

Observando-te Coimbra, continuavas a ter um aspecto limpo em que a chuva tirava toda a imundície, nunca me apercebi do quão a formosura de excelência te fazia brilhar mesmo nos dias mais amargos do ano. As avenidas inundadas de gabardinas coloridas, a praça enchia de figuras humanas, de todas as idades encantara-me!

(continuidade)

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

3º Dia de Reabilitação

(Photo - todos os direitos reservados Sun Melody)

Encaminhei a olhar para os dois edifícios independentes, porém só um deles me interessava cuja rampa tinha a forma em L e no meio do passeio estava uma mulher de cigarro na mão, um rosto belo e repousado com os olhos vidrados no pequeno jardim. Pensativa e distante perante a claridade da manhã, desviei-me sem a incomodar e os barulhos invadiam o meu ouvido implantado através dos pequenos vinte e dois eléctrodos cintilando o nervo auditivo, pude assim escutar tudo que era ruído.

Perceptíveis. Carregados de significado, jamais cessados.

O pipilar dos pássaros de caudas azuis e vermelhas, as vozes dos bons dias, dos está tudo bem?, dos como está?. Graves e agudos de mãos dadas a serem processados com tamanha rapidez permitindo-me ouvir neste caminho, tão meu e impagável. Não trocaria por nada neste mundo, se pudesse fá-lo-ia de novo pois escolhi OUVIR.

Subi as escadas, vi uma menina pequenita loira, de olhos azuis com um turbante na cabeça nos braços do pai. Aquela visão trouxe-me à memória o ano 2007, na segunda semana ia finalmente tirar os pontos e a angustiante ligadura avelhentada de sujidade, o cabelo imundo por lavar. Depois de a Enfermeira ter pegado numa tesoura cortando cuidadosamente a atadura de algodão, vi-me ao espelho pronunciando: que metade carecada! A linha dos pontos bem visíveis, de um castanho escuro fez-me abrir um sorriso.

Sentei de novo no banco, quieta, não podia mexer sequer e é então com as mãos delicadas que a Enfermeira coloca o spray anestésico antes de aparar os pontos. Quando o fez, senti a linha sair entre a pele, foi esquisito. Agora, livre de pontos quis observar o aspecto da cicatriz, ela ali tão lisa e perfeita. Parecia um simples aranhão.

O mesmo que irá suceder à menina dos olhos azuis, tão cor do mar. E a vida, ai que vida longe de todas as dificuldades, invejo-a.

A T.H ao telefone, aceno, vejo a sua barriga redonda que transporta vida no líquido amniótico e ao lado está o mesmo rapaz de ontem, e de anteontem. Sou a sua cobaia de aprendizagem, um de muitos estudos reais que ditará a nota final do estágio. Tem o caderno na mesa. A Caneta pendurada na algibeira da bata com as inicias da Universidade da Beira-Interior.
Olhar atento e sereno, meticuloso no pormenor, seguiu todos os exercícios propostos e colaborou interessado na ausência da T.H pondo-me à prova a sua voz grave, gravíssima fazendo a mim um grande duplo esforço de entender palavras superando-as milagrosamente e cada vez mais, acertando e não acertando.

No final, a sessão acabou com a T.H ditar frases de 5 ou 6 palavras, já estava de rastos, cansada mentalmente acabei em beleza decifrando: "O ladrão bateu na Sofia". Passou uma espécie de T.P.C. de forma continuar a progredir incansável na discriminação de palavras que começam por P e D.

Amanhã é o último dia. A última sessão.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

2º Dia de Reabilitação

(Photo -todos os direitos reservados Sun Melody)

Ocorreu o segundo dia consecutivo, desta vez num cenário diferente de ontem, os transportes urbanos de Coimbra resolveram entrar em greve hoje. Santo dia! Nunca vi tantos táxis a circularem, pareciam peças de dominó uns atrás de outros.

Receosa de chegar atrasada, apanhei um táxi mas mesmo assim estava um frio tremendo, o calor vai ensaiando a despedida pouco a pouco, lentamente, no seu ritmo tão próprio e característico de Setembro onde a luz e cores emitem uma harmonia suave que comove os sentidos em qualquer lugar.

Depois de receber o dinheiro trocado do motorista, sai a correr para dentro do edifício principal de Otorrinolaringologia - Implantes Cocleares onde a T. H. estava a minha espera, avistou-me ofegante para entrarmos adentro do minúsculo e imaculado espaço, com fotografias de crianças implantadas afixadas na parede, reparei a presença de mais uma pessoa sentada na cadeira, um estagiário e futuro terapeuta.

Iria assistir novamente a minha reabilitação, tomando nota de todos os processos, assim começou o tiro de partida com as vogais, tento acertado com apenas duas falhas, depois em palavras à escolha, mais tarde frases de 5 ou 6 palavras, uau que progressos! Que avanço!

Perplexa, em tão pouco tempo dei um pulo, claro a T.H estava de tal maneira maravilhada e basta tão somente continuar nesta sequência. Amanhã há mais. Que venham quebras-cabeças, divirto-me tanto. Este reajuste fez toda a diferença. Para já, durante um ano não penso em reprogramar, vou deixa-lo firme.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

1º Dia de Reabilitação.


(retirada da internet)

Ontem não conseguia adormecer, já passava da uma de manhã, dei voltas e curvas na cama só para puder fechar os olhos e finalmente cerrar as cortinas da realidade. Nervosismo? Ansiedade? Esta mistura composta de sentimentos deu cabo de mim, só conseguia ouvir carros a passar na auto-estrada mesmo à frente do prédio onde estou hospedada.

Passando um tempo rendi-me ao sono, embora desperta para sentir o telemóvel vibrar debaixo da almofada. Já não tinha o processador de fala ligado, optei por o retirar de modo descansar o cérebro perante o treinamento intenso do dia seguinte.
Acordei a tremer, não de mim, mas da cama com ajuda de um telemóvel hiperactivo a espreguiçar amanhecendo, levantei-me e o sol ainda se encontrava por nascer absorto no meio de uma aragem indisciplinada em que os ramos das árvores oscilavam tremeluzentes.

Despachei-me a tomar banho, vesti-me e tomei o pequeno-almoço. Rodei a fechadura com as chaves que soou metálico ao meu ouvido implantado, fui descendo piso a piso até chegar à porta de entrada do prédio, no preciso instante em que puxei a passagem fui surpreendida pelo vento húmido. Cerrei os olhos, passando a mão nos cabelos, penteando-os.

Eram já sete e meia, segui em direcção a paragem para apanhar o nº7, que me levaria ao centro da cidade, encaixada no banco de trás teria de sair do autocarro próximo da Ponte de Santa Clara. Coimbra é linda aos meus olhos, toda a frescura e leveza enfeitiça a qualquer um!
Retornei a procura de outra paragem, a que me transportará para o Hospital dos Covões, bastou atravessar a estrada e andar um pouco mais para norte avistando uma placa com esses números, lá está o nº 14. A camioneta parada. A rugir pacientemente na chegada de novos passageiros, validei o bilhete e sentei no meio, ao lado da janela.

Cheguei ao sítio, bem tramada no terreno dos Cyborg's mas sobretudo corajosa de abraçar desafios permanentes e perturbados em relação a mim, custava acreditar que seria o primeiro dia do resto da semana.

(continuidade)

domingo, 13 de setembro de 2009

Portugal, de norte a centro-sul.

Uma semana, sete dias no sossego do interior, no tão Portugal profundo em brasa perto da fronteira Espanhola, onde o calor mantivera inalterável e constante. As idas à piscina têm sido um sonho imerso de caprichos, e logo em todos os entardeceres o sol foi tapado por nuvens tempestivas pintadas no cinzento-escuro que trovejaram como nunca antes se viu. É bonito o som, a chuva que cai vigorosamente, digna de uma borrasca tropical, alonguei o braço à cabeça retirando o processador de fala e o telemóvel nos bolsos dos calções para dentro de um estojo maleável, lancei-me sem pensar de braços esticados à chuvarada com fortes rajadas de vento, fazendo com que o meu cabelo molhado esvoaçasse descontrolado no meu rosto tapando a vista. As gotas. A chuva fria e densa banhara a superfície criando enormes quantidades de poças de água na alcatifa, as pessoas ficaram encharcadas da cabeça aos pés sentindo a leve brisa bater-lhes nas suas faces e as roupas coladas nos corpos bronzeados, li o alívio depois de semanas sufocantes e cálidas nesta aldeia do interior, longe da civilização e do mar.

A noite caiu, com ele o vento limpou o céu nublado para dar lugar a uma vista imponente, de estrelas onde estive deitada respirando a frescura campestre sob relva observando o firmamento e é impressionante o silêncio que se fez perscrutar, senão ervas daninhas a abanar, os grilos cantar e murmúrios bizarros. O Sino. Os ladrares noctívagos, a respiração canina a meu lado, o som das lambedelas e o glup glup glup da ponta lingueta e coberta de baba enfiada no interior da tigela metálica. O comboio passar no sopé da montanha, a melodia das rolas brancas, e os meus simples movimentos de colher a areia da terra na palma da mão...

Passei tardes e horas a tirar fotografias através da máquina digital, semi-profissional. No dia seguinte acaba-se o descanso, hoje portanto, atirei-me para a estrada da IC8 rumo a Coimbra. E assim, estou eu, instalada confortavelmente neste pequeno e moderno apartamento do meu primo que se encontra fora profissionalmente. Almocei. Vi metade da cidade. Continua a ter o mesmo encanto!

Amanhã, é o dia.

sábado, 5 de setembro de 2009

Momento IC



Não sei se deva rir ou chorar de euforia, mas existem alturas que parece um autêntico conto de fadas, pelo menos julgo ser esta, a palavra apropriada para quem não tinha nenhuma discriminação verbal no uso das próteses auditivas.

Ainda hoje, no agora, custa-me acreditar. Estou a rir-me, lembrando da conversa de ontem sobre o "se eu construísse uma máquina do tempo..." no silêncio da noite com a fraca luz do candeeiro acesa que se encontrava ao canto junto à parede e os dois deitados por cima do velho e antiquado colchão, dialogamos palavras corridas com alguns atropelos meus. Já não tinha o processador de fala ligado. Foi uma tortura estimular a leitura labial, e olhar para a boca dele custou, habituei-me ao sons do discurso com o Implante e a minha forma de comunicar também mudou.

Se houvesse uma máquina do tempo, digitaria o dia 25 de Agosto, uma manhã adorável nos arredores de Braga deambulamos na estrada no meio da paisagem verdejante, o sol acariciava as folhas iluminando-as e junto a brisa punha-as dançar. O carro tinha-se encostado na berma, vejo casas antigas e umas remodeladas, os pássaros cantam, depois o silêncio domina até ao momento em que se quebra a linha com o "não se lembra de mim?" distante a um desconhecido.

Ouço uma porta a fechar-se, e a peça metálica rodar. Fico paralisada, conto as palavras, são 5 palavras, mais que uma frase trata-se de uma pergunta. Tive a plena certeza de que a entendera nitidamente. E gostava, acima de tudo vivenciar esse dia, a maneira de como reagi, as expressões, a linguagem corporal e o inesperado registado em câmara lenta através da máquina do tempo. Um filme do meu "eu".

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Grande Mega-Glup

Photo By Sun Melody

Vejo o processador de fala embrulhado de seda acima da cómoda, e a minha desastrada irmã com a cabeça na lua agarrou no telemóvel, e também, crer no cabo do processador duma só vez sem olhar para o dito… avisto-o a dar uma monumental queda acrobática de 140 cm, o meu coração pára!

A A. cheia de medo olhou para o chão apavorada, o meu lindo processador de fala no pavimento, pegou nele dando uns passos devagarinho à minha frente pronunciando um “desculpa mana, não reparei…” só fui capaz de respirar fundo… 1… 2… 3… 4… respira, expira e respira novamente, cuspi o ar lentamente e voltei a contar pois a minha vontade era gritar em cima dela “Porra, vê se abres os olhos e tenhas mais cuidado!!!”

Liguei o processador de fala em mim, nada partido, sem anomalias, está perfeito. Uffa! Tenho de arranjar um cofre seguro, está visto.

Momento IC

Photo By Sun Melody

Está escuro. Faz calor e estou deitada na minha cama, cansada de carregar móveis nos braços de um compartimento para o outro, deixei cair acidentalmente um objecto ao chão sem saber, reajo virando o rosto em direcção ao som e é um prego abatido que se soltou da gaveta.
++

Alugares um telemóvel toca estridente, e ninguém parece o atender, dou um grito: "Telemóvel!" ouço passos que correm rasteados, onde não há gestos visíveis, nem expressões vivas só meras palavras agarradas por um fio transparente em que o ouvido humano consegue captar, menos aqueles que não ouvem.
++

Anoiteceu, há uma corrente de ar, escuto o vento de lá fora e é lindo o som que produz, não tenho palavras para descrever o quão bom é OUVIR e num impulso nada vacilante resolvi ligar o portátil para transferir as músicas ao Touch Screen LG-Ligoo através do Bluetooth, lembrei-me agora que poderia contudo enviar um áudio-livro, acho que o farei em breve antes de rumar a Coimbra.

Aproveito também para sacar assuntos pertinentes sobre o Implante Coclear Bilateral, e o porque de Portugal não aderir neste estudo como o resto da Europa, excepto para quem tem Síndrome de Uscher e Surdo-Cegueira.