As
primeiras contracções, a malinha recheada de roupa para o recém-nascido, o
caminho frenético em direcção ao hospital, e chegou a hora de nascer! Ouve-se o
primeiro choro a ecoar na sala!
Contempla
finalmente o ser perfeito que foi criado no interior do seu ventre, dançando no
líquido amniótico durante 9 meses com todos os sonhos pela frente, e logo ali
começa a contar os dedos perfeitos dos pés e das mãos, o nariz alinhado, os
olhos em bico e a boquinha doce a mamar no seu peito. Imaginam como será a vida
que dorme no seu colo tranquilamente, uma paz de serenidade invade, e nada
prevê o futuro que nela reserva. O inesperado. A imprevisibilidade. A cortina
da realidade cai por terra, pois de repente sem pedir licença para entrar, a
sua vida acabou de dar uma grande volta ao mundo e a criança sangue do seu
sangue é incapaz de ouvir. Toca uma música de fundo, não consegue identificar a
canção e muitos menos a letra, sente o escuro a corromper o pânico semeado de
revolta, do medo onde acaba por dominar todas as emoções ao ponto de se sentir
desconfortável e impotente por ter entrado numa estranha realidade, que a sua
criança pode não ouvir. Isso dói. O mar de incertezas arrasta-a na rota do
desconhecido.
As
lágrimas escorre-lhe pelo rosto, questiona “Porque a mim? Porquê nós? O que fiz
para merecer isto?” depois do choque vem o luto da aceitação num acto
desesperado de procurar saber como isto aconteceu, há no fundo um conflito
mútuo de reflexões em busca de uma resposta concreta ao mesmo tempo que vê a
sua criança a dormir profundamente no berço. Estas coisas acontecem, não há
como esclarecer o motivo pelo qual a sua criança tenha uma perda auditiva, pode
ser de causa desconhecida ou de um vírus/medicamento que tenha apanhado durante
a gravidez, ou tem origem genética onde os pais possuem um gene específico
portador de Surdez. Só os exames e análises poderão determinar a causa.
É
extremamente importante ser forte visto que agora, neste momento a bebé precisa
de si mais do que nunca, pode chorar copiosamente como se não houvesse amanhã,
ter uma deficiência auditiva não é catastrófico e nem condiciona o
desenvolvimento da própria criança se tiver recursos apropriados para poderem
driblar em harmonia hoje em dia com a ajuda de profissionais, da família e da
tecnologia, entre os quais, dispositivos de escuta: Próteses Auditivas e
Implantes Cocleares, e posteriormente ponderar a escolha de uma comunicação que
apenas cabe aos pais avançarem, a Oralidade ou a Língua Gestual Portuguesa. O
que pretendo mostrar com este texto, sem gestos visíveis, nem expressões a
descoberto, apenas palavras escorregadias no teclado cheio de botões ordenados
num quarto semi-iluminado por um candeeiro é, escondo também um segredo. Tenho
deficiência auditiva!
Não é nada de outro mundo. Não sou apenas “diferente”,
não me considero uma pessoa “diferente” por não ouvir como todos os outros de
forma natural, porque no fundo descrever esta sensação é a de ser um indivíduo
vulgar cuja timidez não consta no mapa, absolutamente falante e receptiva, dona
de um ouvido mágico feito na idade adulta graças ao uso diário das próteses
auditivas na infância e adolescência, tenho uns lábios e uma voz que ecoa de
acordo com as minhas vontades e necessidades.
Como pode observar e bem, a
Surdez ou Deficiência Auditiva não é nem por sombra limitativa, precisa é que
seja alguém próximo da sua criança e possa lhe dar todo o seu conhecimento, que
perca tempo nas horas de terapia de fala, nas estimulações diárias, que brinque com
ela com os brinquedos didácticos, com os livros baseado em imagens, conte-lhe
histórias de embalar antes de lhe dar beijos de boas noites. Fale pausadamente cada palavra
correspondente à imagem, dance como nunca mesmo que sinta a vibração da música através das colunas de som. A sua criança é perfeita. Apenas não
escuta, e ela poderá um dia ouvir com a ajuda dos aparelhos auditivos e ou
implante coclear, poderá falar como qualquer criança cuja audição não esteja
danificada. O caminho é longo, difícil mas no fim tudo será recompensado.
Vale
a pena conhecer casos, conviver com pessoas para uma valiosa troca de
experiências com pais de crianças que passaram nas situações semelhantes. Pesquisarem
na Internet, fazem inúmeras perguntas e se possível comuniquem com crianças,
adolescentes e adultos com surdez de todos os níveis, desde leve a profunda. Não
tenha medo, não receia e não ignore pois há sempre alguém pronto para lhe dar
uma mão amiga.
Nada está perdido.