quinta-feira, 4 de abril de 2013

O Desporto e o Esquecimento

O impensável aconteceu, o mais indicado é retirar o processador de fala antes de começar qualquer tipo de actividade desportiva devido ao risco de a transpiração prejudicar seriamente o funcionamento do mesmo, o material pode ser resistente mas em qualquer caso convém jogar pelo seguro pois se estraga não há volta a dar. Ora... estava demasiado empolgada em treinar de novo o meu Taekwondo de paixão, só me lembrei tirar os óculos menos o processador, nem dei conta do seu peso pendurado na orelha, ouvia e depois?

Habituei-me escutar o dia inteiro desde sempre, indiferente lá fiz o aquecimento em corrida ao redor do pavilhão, alongamentos e corridas de sprint sem descurar ou preocupar com as possíveis quedas devido à minha falta de equilíbrio, se cai-se, levantava-me e pronto. A seguir iniciou-se as técnicas aliciantes de corpo a pontapear nos Plastons, por aí vai, o processador de fala continuou ali bem sossegado a fornecer-me todos os sons e discriminação de palavras em tempo real, bem podia estranhar o facto de o meu equilíbrio estar incrivelmente estável... o susto surgiu depois quando os pingos de suor ficaram mais abundantes a deslizar no meu rosto!

Conclusão? Recordei em segundos já perto do fim do treino, que o processador continuava ali intacto, retirei-o encharcado de suor para o limpar com auxílio do tecido no meu dobok - socorro, como desesperei tanto coloca-lo no interior do desumidificador para tirar esta humidade toda - e foi o que acabei por fazer mal cheguei a casa.

De repente, fiquei a pensar de como este pequeno milagre biónico faz parte do nosso corpo sem darmos conta, do mesmo modo como dependemos da respiração para viver.   

Todo o cuidado é pouco. Aí, como suspiro a chegada do Nucleus6 e se for aprovado para a comercialização para lá em Outubro depois dos ensaios finais de Junho com performances boas em termos de resistência ao suor, à chuva e ao choque poderei ser mais feliz treinar a ouvir sem as limitações impostas.

Resta-me esperar. 

     

quarta-feira, 3 de abril de 2013

O Efeito do Último Reajuste

Tudo me soa tremendamente alto depois do último reajuste feito, as vozes ficaram diferentes ou melhor estão super nasaladas como se estivessem roucas o tempo todo e desconfio com toda a certeza ser mais uma fase de adaptação - aquela fase muito chata para o meu cérebro acostumar de vez à recém-programação. 

Hoje no metro reparei numa cena para lá de espectacular, ouvia o altifalante a anunciar baixinho as paragens de cada estação mais os acessos naquele alvoroço ecoado das linhas a rangerem estrépito no metal como se beijassem mutuamente. O barulho que se faz é impressionante, e reparo nas reacções de certas pessoas a taparem os ouvidos, penso se isso lhes faz doer?

A mim não faz nenhuma diferença, não me incomoda seja agradável ou desagradável, não me fere e aranha o ouvido pois eu escuto a partir do cérebro e não no próprio ouvido com as células ciliadas a produzir energia. É engraçado esta nova forma de ouvir. Tudo soa como disse, estranhamente alto, portanto estou a gostar menos aquelas vozes constipadas. 

 

terça-feira, 2 de abril de 2013

O Adeus a Coimbra - Parte 1 - O Início



Há 6 anos atrás, no mesmo mês e semana de Março a jornada iniciou-se a desaguar antes do amanhecer cavalgando nas agitadas correntes marítimas do Tejo rumo a Lisboa, no embarque da saída o céu cinzento gotejava ininterrompidamente debaixo do meu guarda-chuva aberto, era assim que o mundo dava banho de água fria sem ver a luz do dia, fomos caminhando em direção à paragem de Táxis.

”Para Santa Apolónia, com urgência.”

Uma vez chegadas no carrossel dos destinos, os bilhetes de viagem procediam com o simples toque do funcionário clicando no botão e o papel começara a imprensar na caixa registadora. Duas notas entregues e uns trocos devolvidos, só restou portanto guardar os bilhetes no interior de uma bolsa evitando que a corrente de ar os apanhasse no voo diabólico, andámos apressadas para a Linha 1 e faltava apenas 6 minutos para a partida.

Enterramos na carruagem cujas janelas do alfa-pendular se encontravam embaciadas pelos pingos de chuva vistos de dentro no conforto do calor e os passageiros enchiam os lugares vagos por ordem de chegada. Lisboa a fundo ainda dormia sem sobressaltos no meio das luzes amareladas, havia aquele brilho mundano de escape serpenteando nas linhas férreas associado à expectativa no aproximar da consulta. Algo ia mudar para sempre. Sentia isso.

E foi então que te conheci Coimbra tão encantadoramente mágica, uma cidade que embalava como uma canção de pontes e rios de estudantes inundados nos milhares guardas chuvas e gabardinas coloridas, entrevia uma canção que iria começar construindo pequenos versos que fala só de um lugar meu ainda incerto mas certo. Logo ali envolveste-me nos teus abraços de Primavera povoando uma neblina de um sol ofuscante a espreitar radiante no meio daquelas nuvens de algodão.

Coimbra contigo foi sentir de novo criança, a necessidade de sonhar trouxe em mim um impulso inexplicável que fulanizou o conceito que tinha da própria vida, quando se deseja algo somos capazes de ir até ao fim do mundo, eu por ti fui mesmo até ao fim fizesse sol ou chuva não descansei com um remanso emocional a circundar nos anseios de uma resposta definitiva após todos os exames feitos. Foi então que a contestação irrompeu na minha vida, pois por fim ia ter-te dentro de mim! Já não precisava de lutar mais contra as marés e ventos de tempestades, não necessitava lutar mais frente a fantasmas do meu passado de infância e contra as negações dadas como garantidas, sobretudo após a sentença de que nunca na vida poderia voltar ouvir porque a verdade é, iria finalmente poder escutar através de um Implante Coclear.

Ser uma Cyborg de verdade e não apenas ficção!

A Certeza

E a última consulta em Coimbra aconteceu com direito a tudo.