sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Coimbra (II)


Ainda planeei apanhar a camioneta em vez do Táxi, houve qualquer coisa e por via das dúvidas não arrisquei, segui no Táxi cambaleando o passeio defeituoso e o sol aureolava o centro de Coimbra.

Consumi e embebi a paisagem como a da primeira vez, e o veículo de repente vira a um atalho incógnito, tenho os sentidos em vigilância e fico a pensar “Queres ver que o taxista percebeu mal?!” não digo nada ainda, não antes de ter a certeza, enxergo o caminho e reconheço a ponte acolá na via-rápida. Está cortada e em obras. Alivio-me na alcatifa dividida em dois sentidos onde passam camiões gigantes carregados de pedras às costas. Pó, muita poeirada ergue á nossa frente. Rotundas. Curvas. Cheguei e os pássaros pipilam dedicando-me uma linda sinfonia.

Na entrada do Edifício, vejo uma família, o pai, a mãe, o irmão e o mais novo de três anos bi-implantado, um processador de fala em cada orelha, fica tão giro assim. Um mimo. Ascendi degraus e deparei na extensão um senhor ouvinte que aguardava a consulta.
Reconheço o grito de criança dentro da sala ao longe, a aprender ouvir no brotar das primeiras palavras ensinadas. E quando as duas mãos se unem á palmatoada é o triunfo da conquista, mãos juntas, um punhado de sons iguais, repetidos em estilo.

Encanta-me.

Apoiada de costas na parede, vejo a terapeuta e um rapazinho loiro, de olhos azuis, parece-me ter 2 anos a sair do recinto terapêutico de mãos dadas com o progenitor, a mãe visivelmente confusa esconde no sorriso o sofrimento, a culpa encravada por o seu filho ter nascido sem audição. Acusa-me com o olhar mais patético que existe, de desprezo e inveja. A frialdade humana levou-a enfrentar as circunstâncias, zangada com a vida, e sobretudo consigo própria.
Não resisti, disse bom dia no esboçar do riso. Mirou-me furiosamente, morta em expressões.

Engoli em seco. Perplexa por ainda não se ter entregado á redenção.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Coimbra (I)


Ainda é noite no cais fluvial, o silêncio reina e a cegueira da madrugada infiltra o grande baile de luzes na margem lisboeta ali ao fundo, sob o meu olhar ensonado que repousava nas águas do Tejo. O barco aproxima ainda longínquo, ouço o seu som motorizado e o vento com o seu odor salgado mergulha nas minhas narinas, o cheiro do mar, das algas ainda submersas e no fim revejo-me. Tudo é diferente.

à bordo, rego a generosidade em cada olhar, pessoas dotadas de enredos simbólicos e uma rapariga senta-se á minha frente encostando a cabeça na sebe do barco que treme. Olha-me e sorri encharcada de inércia, as pálpebras semi-fechadas e os cabelos molhados em água.
Saio do barco no meio de gentes, e depois do Cais Fluvial rumo a Santa Apolónia serenamente, devagar de metro e é então o guardião dos sons renasce amanhecendo os rugires de uma selva citadina.

Sigo o caminho entusiasmada, estou já nas bilheteiras e digo: “Bom dia, um bilhete para Coimbra-B” e a voz soa-me fina e suave ao meu ouvido implantado “È para às 07h30?”, eu escutava distraidamente quando tentava retirar a carteira da mala, “sim é, no InterCidades”.

Bilhete pago. Vou ao café e tomo o pequeno-almoço, olho para as horas, ainda tenho meia hora e mais uma vez contemplo o espaço vazio, despovoado cuja claridade desabrochava o quente do sol embaciado pelo vidro do telhado.

Entrei na carruagem, avistei o número e ali permaneci com lugar cativo á janela rumo a Coimbra, e como sempre mirei sob uma intensa névoa alaranjada o fulgor imponente da Natureza. E todos os sons me invadiram, bastou fechar os olhos por um momento e os ruídos banais eram melodias para mim, a musicalidade do metal a rugir como um beijo dominado, o eco ao passar por um túnel cintilaram as células ciliadas, as portas a reabrir e fechar, o altifalante. Senti bem, aninhada como os bonecos de peluche ao deitar. Sons. Ruídos.

Definitivamente eles pertencem-me.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

No Horizonte

Nucleus Freedom - Ipod

Coimbra à espreita, absorver-te sonoramente em cada segundo o deslumbramento cadenciado pelo despertar do dia. O barulhar das rodas férreas, os apitos das estações, as vozes, os telemóveis a tocarem e eu estarei sentada a ouvir música, canções de todos os géneros de acordo com a minha preferência, no MP3 conectado ao Implante Coclear Nucleus Freedom multi-funcional.

Vou limpar a alma e maravilhar os acordes da canção à beira da janela, a observar os campos agrestes cheios de verdura e o sol ainda por nascer. Estarei ansiosa por pisar o solo de Coimbra, o toque mágico da cidade... esta cidade alegre e desperta que me põe os pés em pico sob o Rio do Mondego.

Até já Coimbra!

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Transformei a Percepção


Houve mudanças do antes e pós-Implante Coclear muito expressivas, o primeiro detalhe logo depois da activação do aparelho foi o regresso do equilíbrio, desde a perda auditiva andava de forma desajeitada e pior ainda de noite quando havia pouca luz, não evitei algumas quedas. Um suplício!

Houve quem me dissesse, que não tinha sequer hipóteses de melhorar a minha fala humana devido ao tempo de surdez que padecia, qual quê?! Vou a cafés pedir iguarias, converso com amigos que há muito não reencontrava e a maioria deles não sabem de todo a minha actual condição de implantada, foram subitamente apanhados de surpresa quando desenhei as minhas novas cordas vocais diante deles. Vislumbrei rostos impávidos. Sorri apenas.

Sou muitas vezes abordada por desconhecidos que me perguntam as horas, as orientações de um lugar e não tenho problemas em responder. Já não há aquele olhar de estranheza e incredulidade que existia antes. A minha família e o meu namorado também repararam neste pormenor, ambos tentam a qualquer custo incentivar-me a melhorar a linguagem falada.

Nunca fui uma pessoa dotada para os assustadiços, pois na altura a minha visão era como a de um lince com as antenas de defesa em alerta. Hoje tem outro aspecto, já não centro bastante a função sensorial dos olhos pois adquiri outro sentido, a audição que admiravelmente sobressai tudo o resto. Ouvir também é ver e observar, é estar em alerta e viver.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Feitiço Musical


Sábado. Houve um feitiço sedutor na noite intercalada e húmida onde recebi o primeiro beijo musical no ouvido implantado, não um beijo qualquer das músicas compostas por um CD daqueles que tocam na aparelhagem.

Assisti em directo um recital, no auditório da minha cidade e foi assombroso. Emocionei-me ali, num fechar de olhos em que toda a música esplendorosa renascia em cada teclar nos dedos habilidosos do pianista francês. A linguagem das frequências sonantes, harmoniosas e timbradas rodopiaram os meus sentidos, vi todos os continentes nos leves dedos do pianista a dançar naquele instrumento. Suavemente. Com ternura.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Novidades Auditivas


Estou ainda em fase de adaptação do novo reajuste, posso ponderar de que está diferente e desta vez o meu ouvido sorri descansado pois tudo faz parte do processo evolutivo para entender as vozes graves bem como o discurso falado por gentes.

Em cada ligar noto um desenvolvimento moderado ao longo do dia, e ontem não foi alheio às incertezas absolutas, fiquei incrivelmente perplexa por ouvir a minha voz ao falar com uma amiga na carruagem do metropolitano de Lisboa em andamento, o que não sucedia nos dias anteriores, nem sequer nos meses passados devido à profundidade do eco ruidoso.

É impressionante estudar o cérebro a armazenar um reportório de sonoridades diárias, e sentir o aperfeiçoamento constante da memória auditiva. O segredo está no querer de ir mais além, e estou a conseguir, não importa se demore tempo, só sei que sou capaz e sou feliz assim ouvindo o mundo e conseguir acompanhar uma conversa com o maior número de pessoas através das vozes na linguística fonética do Português.

Hoje, o dia amanheceu em grande depois de me espreguiçar pus uma música a tocar baixinho, é indescritível seguir a canção logo ao acordar, entretanto o meu telemóvel fazia ouvir chamando-me atenção e lá atendi, era a minha mãe a avisar que saia por volta das %&# e meia, questionei eu: “sais às cinco e meia?” e do outro lado escuto: “Não. Saio às quatro e meia” … percebi clara e nitidamente a cada palavra que pronunciara!

Este reajuste está a fazer diferença, e de que maneira!

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Primavera à Vista


Depois da chuva, o dia raiou quente e caloroso com os pimpilares dos pássaros que jaziam escondidos nos ninhos de grandes árvores, pude ouvi-los estupidamente e bem longe do sítio em que estava. Foi bom reviver este som como se fosse a primeira vez, e acho que vai ser sempre assim, a sua melodia e encantamento produz em mim uma espécie de injecção.

O dia vai escurecendo, pintando o céu alaranjado e mais tarde será noite sem nuvens e as estrelas irão brilhar no alto do céu abraçando os miares de gatas com cio nas altas horas da madrugada, o miar agudo quase aflitivo parecido a um choro de um bebé.

Ouço isto à distância, dentro de casa com janelas fechadas e estores abaixados e tudo soa perceptível.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Ajudar uma Pré-Candidata


Sexta-feira, fui abordada por um toque no meu ombro enquanto falava ao telemóvel e virei-me de relance onde à minha frente estava uma mulher em miniatura com os seus cabelos compridos despenteados e cuja boca saiu uma frase: “Olá, não te lembras de mim?”

Fiquei especada a olha-la pensativa para ver se a conhecia de algum lugar, ao menos o rosto era-me estranhamente familiar. Um pouco embaraçada, tentei recordar e quando pronunciou o seu nome um flash ocorrido surgiu, mora perto de mim e conversamos uma vez a respeito da Surdez na sua própria diversidade.

Disse que ficara surpreendida por me ver já implantada ao fim de um ano e meio, fez-me todo o género de perguntas que dançavam na sua cabeça a respeito do Ouvido Biónico e sobretudo do modo como eu escuto. Está interessada, bastante mas… há sempre um mas… vive um medo de fazer a operação… o medo de não correr bem… de rapar metade do cabelo e é precisamente por isso que se sente nervosa a folhear as páginas do desconhecido.

Houve muitos momentos que mergulhamos no silêncio, onde as palavras foram preservadas por algo que valia a pena lutar ou até lhe dar vida. Percebi ali, no olhar dela a fixar nos meus a querer ter uma maneira de ficar a sós, mas não sabe como há-de ser e como há-de fazer entre outras séries de coisas pensáveis.

Receosa e confusa, leio a sua mente, necessita ponderar bem e uma vez não poderá voltar atrás se for avante. È preciso acima de tudo um preparo psicológico e a certeza de que não irá efectivamente cair no arrependimento e redenção. Sentira no fundo fascinada sob os pensamentos ocultados atrás de um muro, viu depois outras maneiras de melhorar a audição com a ajuda das próteses digitais, vai tentar auxilia-las e se não gostar da experiência em breve, a sua vida vai dar uma grande reviravolta.

Se precisar de falar comigo, ela que me ligue.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Uma Implantada Atrapalhada


Sai do comboio rumo à Paragem de autocarros, e neste caminho de telemóvel na mão encostado no ouvido implantado, o toque anunciou a chamada permanente, de repente eu com o raio da pastilha elástica engasguei-me e a pessoa em questão assiste o episódio ridículo auditivamente. Tusso sem fim suplicando por oxigénio e no meio desta aflição foi ter compreendido a frase do outro lado :

“(Es)Tou,(Es) tou,(Es) tou, não percebi nada”

Desliguei na hora e quando recuperei o fôlego minutos depois efectuei a mesma ligação. Para variar expliquei o sucedido, e de lá ouvi uma subtil gargalhada. Achou piada, achou. Está bem.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Ouvir e Não Ouvir

Um momento ouvir, e no seguinte não ouvir. Posso escolher quando e onde. Basta retirar a bobina do íman que o prende magneticamente para que fique em silêncio e nenhum som entra em mim. Mas quando realizo esta acção, fico estranha e dificilmente acompanho as conversas das bocas que saem palavras ritmadas. O silêncio é total.

Vão saber porquê, espreitem o vídeo abaixo de como funciona um ouvido normal e a forma dos Implantados que ouvem as borboletas da corrente eléctrica e são capazes de estarem ligados ao mundo dos sons:


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Chuva


Chuva, chuva e chuva, muita chuva com vento. Ouço. Escuto. É maravilhoso fechar os olhos no parapeito da janela e ao de longe à frente do meu prédio as árvores abanam de um lado para o outro como se o vento as sugasse da terra e o som em que elas dançam vem directo a mim, eu procuro e encontro mesmo debaixo do meu ouvido implantado que espreita. A dança das folhas. A dança da mãe Natureza em fúria que suavemente e com engenho no ponto certo enternece-me cá dentro, na minha essência dando-me beijos de boa noite.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Blog de Ouro


Recebi este carinho da Luisa B do Blog "Os Aspergers são Incompreendidos" que luta por uma vida melhor para o seu filho Bruno neste mundo cruel, cuja sociedade não está preparada para lidar com os "diferentes" mas acredito que um dia baseado nas nossas experiências e dos excepcionais esforços dos pais acabaremos por mudar o mundo.

Ela elegeu-me com este selo de Ouro, e assim tenho de seguir á risca as principais regras contidas:

*Exibir a imagem do selo;
*Escolher 6 mulheres diferentes a quem entregar o BLOG DE OURO;
*Deixar um comentário nesses blogues para que saibam que ganharam o prémio.

Destaco como premiados os blogues abaixo indicados, a quem passo o selo "BLOG DE OURO com amizade e carinho, porque merecem e é possível acreditar nas lições de vida dando esperança a outros.

Résteas de Sol

Monologo da Pasta Surda

Anjo da Luz

Luz de Estrelas

Olívia Castro

Mundo Gato