segunda-feira, 29 de junho de 2009

29 de Junho - 2007


Na cidade de Coimbra, a manhã brotou sorridente no dia em que mudou por completo a minha vida. Recordo de me preparar, e estar já deitada na marquise dentro do bloco operatório, vi todos os utensílios de prata. Não tive medo. Estava anormalmente calma, cercada por um grupo de indivíduos altamente qualificados e o Dr.F. pronunciou uma frase que me transmitiu uma serenidade inabalável.

“Olá, dormiu bem A? Vamos a isso, está preparada para o regresso ao mundo dos sons?”

Saiu-me um SIM bastante confiante, subitamente a escuridão começou a pesar-me pelo corpo, adormeci sob o efeito da anestesia.

Duas horas mais tarde…

Acordei no recobro, olhei em redor e a primeira coisa que me lembrei foi levitar o braço, pus a mão e senti a textura da ligadura envolta na cabeça, apertada. Sim! Foi um sucesso!

"Caem estrelas sonoras em Coimbra, sopro este
que irei ouvir pela primeira vez e partir à
redescoberta no mundo dos sons."

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Hoje sou Baby


Nada melhor comemorar com a família inteira e amigos. Mais um ano passa, mais cota fico como diz a minha eterna adolescente: irmã.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

LG-Ligoo


Andei a namorar durante ano e meio, sussurrando baixinho pelo novíssimo Sony Ericsson W715 mas depois apareceu o elegante LG - touch screen - em preço de saldo que dantes custava 400€, queria um telemóvel que se adaptasse à minha necessidade coclear, sem ser preciso recorrer a uma loja de electrónica para comprar peças específicas de maneira ligar o cabo do Implante Coclear ao telemóvel. Dispenso estar carregada de acessórios.

Uma vez que o LG - touch screen - traz auricular estéreo, eu posso tanto retirar o auricular e conectar o cabo áudio pessoal do implante directamente no telemóvel, além disso a qualidade sonora agrada-me e a voz do locutor é super nítida. Não notei nenhuma interferência ao contrário do veterano Nokia. Vou ali explora-lo, o meu Ligoo.

Observação:
Segundo o site da Cochlear, a LG é compatível com o IC - Implante Coclear, por isso, o motivo da minha escolha por esta marca.

sábado, 20 de junho de 2009

19 de Junho



A claridade transparece uma tela colorida, da cor do índigo ao anoitecer e a música rodopia dentro de mim, uma orquestra. Conheço aqueles sons, mais que meras partituras de notas vindo dos músicos adolescentes quase-quase-muito-próximo-de-se-tornarem-profissionais, esses mesmos adolescentes que há quatro anos eram crianças. E hoje tocam com bastante desenvoltura, está calor aqui dentro, no hall de entrada e transpiro imenso.

Caminho pela rua barulhenta, e sim ainda ouço a orquestra e a música da festa popular, elas abraçam em uníssono e consigo diferencia-la, e olho para o chão pensativa a tentar perceber porque é que as pessoas têm tanto medo do Implante Coclear.

Não fazem ideia. Absolutamente nada. Como seria bom, ver o riso espantado e os olhos a brilhar de incredulidade perante um novo som como o cair da chuva nas noites frias e estar junto da janela a contemplar o vento que abana as folhas das árvores produzindo a mais bela melodia, e assustar-se com os gritos dos trovões. Deslumbrar o marulhar das ondas, e embevecer na música dos pássaros cantantes! Não esquecer o som da vida a ser desabrochada no balbuciar de um bebé, as primeiras palavras desajeitadas e engraçadas, os muitos choros de diferentes significados. Reconhecer as vozes, entendendo-as de olhos fechados.

Meu deus! Quantas possibilidades… infinitas. Cheguei à conclusão: as pessoas podem escolher entre ouvir e não ouvir mas há ainda o medo pelo desconhecido, de se aventurar e reconhecer o “eu” interior. O que é feio, e pateticamente claustrofóbico é denunciar informações infundadas, mal interpretadas e distorcidas a qual não corresponde à verdade, porque estes sim no meu entender jamais vão conhecer o som do Implante Coclear, a sua música interior nos pequenos 22 eléctrodos. Eu tenho uma grande ternura pelo meu Implante, agradeço por o ter de volta, tal e qual como o tinha dentro do ventre intacto antes de perder toda a audição.”

Virei as costas, ao som das sirenes de ambulância que fustigou a reacção de me desviar do sítio, mas ainda está longe do meu campo de visão. Continuo a ouvi-la intermitente, cada vez mais próximo e mais agudo. Passou noutro lado da estrada. Estou no Parque Infantil, tanta acriançada aos berros, uma a gritar “mamã mamã” quase a soltar lágrimas, de medo e pânico para descer no escorrega. Outras a gritar de prazer, uma bela mistura de vozes deliciosas.

Dei meia volta, segui a rota rumo ao pavilhão para ir buscar a minha irmã.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Para os Leitores


Que vou escrever hoje? O nada ou o tudo daquilo que me resta, não importa, nem quero sequer saber, mas pergunto curiosa sobre o que os leitores pensam de mim no sentido dos rabiscos que aqui deixo, um mar de doutrinas vivenciadas à minha maneira, única e imperdível. Um legado para a posteridade.

Quando finalmente olho para a barra lateral direita, o número de visitantes ultrapassa os 6.300 que aos meus olhos são algarismos redondos a percorrer vários mundos em busca de informações sobre o Implante Coclear. A maior fatia do bolo vem de cá, dos portugueses e a segunda os nossos irmãos brasileiros que muito me ajudou nas interpretações técnicas antes de ter decidido colocar o portentoso aparelho.

Atrás segue a doce e suave Argentina carregada de um español vivo e maduro, onde costumo acompanhar o blog de uma pintora implantada, a Olívia Castro, e este de conjunto de circunstâncias acabou por nos aproximar da nossa recente condição de sermos “Cyborg’s” e graças a este intercâmbio a corrente estendeu até às terras do Tio Sam.

Que tal conhecer um pouco de vós, leitores silenciosos e ávidos? Não sejam tímidos, nada tem a recear senão abrir e dar a conhecer um pouco do vosso mundo, cá me aguardo.

domingo, 14 de junho de 2009

Galinhas


Fiz uma pausa à minha vida frenética, rumei para norte e que bem soube. Acordar todas as manhãs, cheirar o verde da natureza e o mensageiro dos ventos a deambular pela estrada dos campos agrestes debaixo de um calor abrasador onde ouvia os cantares longínquos das galinhas.

Podia jurar em delírio, que o canto era igual aos que ouvem e cuja audição não tenha sido prejudicada, uma ária aguda e flauteada ainda de uma maneira estouvada em dódóódódó e crócorócócó. Um cântico sonante. Embrulhei-me neste manto de som, que através do implante coclear permitia a mim, uma Surda Profunda ouvir.


terça-feira, 9 de junho de 2009

Eleições do Parlamento Europeu - I


As nuvens cinzentas anunciavam a queda de leves aguaceiros e quando aproximei da viatura os pingos de água caiam levemente no pára-brisas. A rua tão vazia e silenciosa com as pessoas a dormitarem protegidas dentro dos casulos e só estariam de pé daqui a algum tempo para votarem.

Tinha chegado ao sítio, percorri o pavilhão a fim de encontrar a sala nº X para exercer a minha função com lisura e honestidade no cargo em que me foi confiado, já de frente no recito interior antevejo duas figuras femininas, uma conhecida e a outra nem por isso, de nariz empinado na casa dos 20.

Retirei o envelope da mala e abri, por momentos senti-me a ser observada como antevêem as grandes estreias, em particular por aquela rapariga e rezei para que esse instante passasse, pois não é nada confortável ter olhinhos excitantes e curiosos postos acima de mim nalguma razão depois do grande escândalo de há três anos, cujo presidente da mesa duvidou das minhas capacidades sensoriais, cognitivas e motoras sem me conhecer minimamente e muito antes de abrirmos as portas aos eleitores atingindo dimensões tempestivas que violam os direitos de Abril.

É evidente, não me renunciei e o caso foi encaminhado, discutido e arquivado pelo que posso dizer não me passo despercebida e daí ser alvo de bisbilhotice. Não me importo. O sucedido serviu-se de lição perante a democracia provida de uma fragilidade dominada de preconceitos débeis.

Ouvi uma pessoa bater a porta, e era a G da velha guarda um pouco ensonada a sorrir, lamentando o atraso e o relógio ainda não apontava as sete horas. Rasgamos os sacos que continham embrulhos lá dentro, papéis para afixar na parede logo à entrada da sala nºX. Assinámos os dados dos respectivos documentos, entretanto fui buscar o rolo de fita-cola escondida no saco de plástico pousada acima da cadeira e colar as folhas preenchidas de textos e outra em Braille.

Falta pouco para a abertura.

sábado, 6 de junho de 2009

7 Junho 2009


É amanhã que Portugal vai parar para votar o Parlamento Europeu, o Povo sairá à rua elegendo o voto que é seu por direito próprio e mais uma vez fui nomeada como membro da mesa, desta vez estarei presente como implantada.

Uma experiência para mais tarde recordar. É como se estivesse a reviver tudo de novo e novamente na tão almejada normalidade. Surdez? Ela não é impeditiva, pelo contrário impulsa os ideais e a força, sobretudo a VOZ interior e eu tenho-a embutida.

As minhas acções falam por si mesmas.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Suave Serenidade


Estou sentada no meu gabinete particular, o sol acaricia o pequeno espaço móvel e a janela está fechada, o que me surpreende é estar a ouvir os pipilares dos pássaros e as folhas de árvores a abanar com o vento.

São tantos. É tão bonito. Melódico.