sábado, 29 de maio de 2010

Momento IC

Saí e fui dar uma pequena volta, de uma ponta à outra, da casa para o clube e soube bem apanhar ar fresco. Não estava assim um vento agitado como das outras ocasiões e conforme ia caminhando ouvia os meus passos a pisar as minúsculas pedras redondas. Os chilreares dos passarinhos no início do anoitecer embalava na combinação deslumbrante o entoar melódico da natureza, um poder sem igual extraordinariamente apreciado.

Limitei-me sorrir e pensar como é belo escutar. 

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Dia Insólito

É impressão minha ou o Verão ainda sequer começou? Tenho sido frequentemente abordada nos pontos turísticos da cidade, é:

"Pode me dizer que horas são, por favor?"
"Qual é a linha para Sintra?" 
"Desculpe, estou um pouco perdida, sabe onde fica Entrecampos?"
"O autocarro chega às 21h e 10?"

Nada me escapa, eu não escapo por muito que esteja num sítio bastante discreto e concentrada a ler o Destak ou a caminhar nas ruas da cidade sou sempre o alvo a abater! O mais cómico, é de entende-los à primeira e por vezes sem leitura labial... vou ali dançar, quem quer vir comigo para a pista e comemorar mais do que uma vez?!

Afinal, o dia vai sorrir nesta madrugada!

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Nota 2

Já é o sexto avião que ouço sobrevoar acima de mim - os gigantes da madrugada rompem na escuridão. Não tenho sono nenhum, estou com o IC ainda ligado a ouvir os chiados de gatos e ladrares de lá fora. 

Sons agora selectivos.

Nota 1


Passei do retro-auricular para o bodyworn, isto porque, não tenho mais pilhas de 675 Zinc-Air e também sabe bem de vez enquanto mudar.  

Entrave no Telemóvel


Apercebeste de que quando atendes o telemóvel no ouvido esquerdo, a voz do outro lado pode soar como a de um megafone BlÁ BLÁ éeeejaskabns BKÒS QGS vociferando o cérebro, ou seja não percebes nadinha e vêm-te logo à cabeça, que a pessoa do outro lado pode estar demasiadamente cansada para se lembrar que contigo tem se falar baixinho de forma puderes compreender com transparência e qualidade a composição das duas vozes dialogantes.

Engoles em seco, mais do que uma vez... interpões calmamente para que essa pessoa diga de novo, só que desta vez exprimindo mais baixo. Até aí, as coisas  começam a tornar-se diferentes pois palavra a palavra foi-se construindo frases  carregadas de significado.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

O Fim do Deslumbramento Sonoro





Quando estás a ouvir através desse diapositivo coclear, sei que a vida te vai continuar cantar incessante e apaixonadamente. As sms no telemóvel cada vez mais reduzidas em troca de conversas duradouras beijadas ao ouvido, e as músicas entoadas em Língua Portuguesa que abundam no Youtube fazem com que passes a escutar melhor… foste descobrindo como o mundo pode ser demasiado grande para o que ainda está por vir.

Já te passou a fase do deslumbramento sonoro, é garantido. Os sons são agora meros ruídos banais do dia-a-dia, e conhece-lo bem a forma como elas te soam… contudo as evoluções continuam bem patentes em cada esquina no centro da tua cidade interior, cujas estradas que percorres sempre incansável preenchem uma felicidade indescritível neste caminho só teu e os que te amam acompanham nesta deliciosa viagem porque no fundo vibram contigo de uma maneira nunca antes encarada.

É tão bom ver-te assim e afinal implantar foi a melhor coisa que te aconteceu na vida, se em algum momento voltasses atrás fá-lo-ias de novo.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Site - APRENDER OUVIR


Uma amiga e colega da Jornada Coclear descobriu um site à maneira, a meu ver foi um achado de ouro! O tesouro encontra-se na página web do Instituto Camões Portugal, naveguei por ali como um barco sem leme o menu principal do APRENDER, fui descendo a seta na categoria do A OUVIR. Mais uma vez abriu-se outra secção com inúmeros exercícios didácticos online, escolhi o TEM BOM OUVIDO?

Era agora, mas antes de iniciar o exercício das PALAVRAS II verifiquei o volume das colunas do Portátil em espaço livre, visto que já não necessito fazer ligação  directa do cabo ao processador de fala. A tarefa era muito simples, consistia em arrastar as palavras por ordem em que se ouvia no outro lado da coluna direita.

Por aí, tudo bem...

Fui discriminando e colocando as palavras no sítio adequado, o som das vozes tem uma qualidade impressionante, límpida e percebia-se todas as sílabas parecidas umas com outras, ora falava depressa ou devagar. O resultado foi de espanto e surpresa! 



Mais um motivo para sorrir. 

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Infância - 8 anos



Dizem que nunca na vida irias voltar ouvir, os nervos dos ouvidos mantinham-se irreversíveis para a eternidade pois o problema situaria no córtex auditivo cerebral, uma sentença seca sem margem para dúvidas a uma criança com oito anos de idade turbulentos.
Furei a caixa da Pandora, com uma dor amarga no peito e nos meus olhos desaba um pranto descontrolado debaixo dos lençóis, mordo a folha da almofada com medo que os meus pais me ouçam lacrimejar.
Não iria ouvir, estes pensamentos dilatavam instantaneamente e quando perguntava à minha Mãe, via-lhe o rosto abatido como tantas outras vezes, subjugado perante o meu impulso de antecipação prematura e ainda lhe custa relembrar o infortúnio do destino em que a Surdez ocupara o lugar com a rapidez de uma raposa frenética. Dias cinzentos. Filha, se pudesse dava-te agora os meus ouvidos para que pudesses ouvir o mundo, seria preciso uma farinha mágica como as que tem as fadas, mas não tenho.

Eu sei que não tens, já não acredito em fadas que estalam os dedos para mudar as coisas mãe. Não acredito em fadas, porque não me puseram ouvir quando continuava arrebentar os dedos, vês, olha, consegues presenciar? Acabei de estalar os dedos e nada, continuo sem ouvir, é apenas o mesmo silêncio.

Ó mãe, como seria bom redescobrir o cantarolar dos pássaros, como é o som? Diz-me mãe. E o som do mar? È bonito? Retraída no encadeamento giratório das minhas questões, não queria acreditar que o momento mais temível chegara provavelmente demasiado cedo. Ao mirar a sua própria filha e saber pouco a pouco, que essa criança gerada no seu ventre estaria a chegar ao fim do túnel da infância, perdendo a inocência à medida que crescia.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Como o meu Cérebro Ouve?


Já não é a primeira vez que isso acontece, posso ouvir uma palavra ou frase correctamente mas existe alturas que o meu cérebro actua como um desconfiado na incerteza da palavra por mim compreendida e tento domestica-lo a acreditar no que ouve. Isto é, tenho de arriscar mais vezes e deixar de lado os receios sem necessitar de me socorrer na base de dados (a leitura labial para confirmação).

Ah! Parece que sofro de oscilações auditivas com o processador de fala. Acho engraçado isso suceder, ora há meses para cá sofria tanto em ambientes ruidosos, chegava a não perceber nem um pouco ou nada o que as pessoas diziam. Não sei como e porquê de o processo auditivo ter-se alterado.
[ Já no interior da viatura em andamento com uma música a tocar, no banco de trás contemplava para o azul salpicado de nuvens, consegui ouvir a conversa entre os dois e percebi que estava atenta a tudo o que me rodeava sem me recorrer à visão. Normalidade. Ali, naquele momento tudo rolava tranquilamente, esqueci a minha Surdez e os silêncios ensurdecedores neste entardecer ventoso.

“Queres ir para onde?”
“Vamos passar pelo Seixal, assim procuramos a A.” ]

É impossível não ficar indiferente a esta deliciosa conquista.

sábado, 1 de maio de 2010

Embate Cyborgnético


Foto: todos os Direitos Reservados Sun Melody

Há exactamente quase um ano, no desfecho da estação de Verão levei um encontrão do rapaz que se meteu no meu lado esquerdo sem olhar, originou uma pancada consistente na zona onde a bobina magnética se encontrava alojada a um íman interno. Lembro-me de ter visto estrelas e sinos. Lembro-me de ter sentido o formato caracol do ouvido a tremer, e ter perdido por completo o sentido de orientação durante 3 minutos. Depois de algum tempo comecei a ouvir o temido zumbido, insistente, teimoso e absolutamente irritante!

Uma dor ecoou daqui até à lua. Doeu, sim e a ele também, marcado por uma grande bola cor-de-rosa no meio da sua testa e que não se esquecerá facilmente o olhar bizarro do estranho objecto magnético pousado na palma da minha mão enquanto amimava a cabeça. 
 
Foi então, a minha primeira pancada com o Implante Coclear.