terça-feira, 30 de setembro de 2008

Electricidade Estática


Apanhei um choque de electricidade estática ao pegar no telemóvel à bordo do catamarã, uma faísca energética do meu próprio corpo suado em movimento.

Cargas eléctricas acumuladas por causa da humidade e tempo seco. Menos mal, o processador de fala podia ter ficado com a programação danificada ou corrompida, não quero imaginar o desespero de regressar novamente ao apático e terrivelmente mundo silencioso.

Não pretendo voltar tão cedo. Fujo dele, mesmo quando as pilhas de botão emitem tímidos avisos anunciando o desgaste dessas. O silêncio é como uma verdadeira tempestade tropical, fortes rajadas de pedras atingem sucessivamente, uma a uma, cada vez maiores de peso diante da minha muralha de ouro. Esta nunca irá quebrar.

Ainda bem que não se sucedeu, uffa.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Estação


Chegou o OUTONO, as gotas de chuva e os gritos das trovoadas - estar na cama e ouvir de lá fora o cair da chuva pela madrugada, a beber leitinho achocolatado - saboroso, quentinho e acolhedor com o meu novo portátil brilhante acima das minhas pernas cruzadas.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Hoje


Foi tudo cheio de sons. A canção de uma música, o murmurar do Rio Tejo com gaivotas a grasnar, o uon uon uon de uma ambulância, os apitos agudos dos semáforos para peões, as buzinas dos automobilistas stressados. Barulhos gravados.

Sons agradáveis e desagradáveis cada vez mais selectivos com o que quero ou não escutar, entre o aceitar e ignorar determinado som.

Um desconhecido toca guitarra. Gosto da melodia. Um carrinho de supermercado a forçar as rodas, e faz um estrépito metal acutilante. Vozes misturadas. Latidos caninos. O eléctrico abraçado a um susto desprevenido. Um mamã de criança, aguda e agudissima. Ténis arrastados e o toc toc toc dos sapatos de salto altos.

Papel amassado, caneta a deslizar no papel. Gargalhadas exaltadas e mais, claro que são muitos os sons, biliões? Não... Triliões? Humm... infinitos e eternos.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Som Reconhecido


Ouvi o barulho da panela de pressão, um chiado severo a entupir a habitação coberto de vapor, balançado no eco das vozes apagadas. Fiquei em êxtase, de olhos fechados para que pudesse absorver o máximo aquele ruído banal...

Quase toco nas nuvens de algodão, o infinito túnel das melodias sem fim, abraço as gotinhas de prata na captação de um chamamento adolescente, forte e seco devidamente estruturado que com personalidade foi capaz em abafar o pio cravado da panela de pressão... e eu ouvi, ou melhor discriminei auditivamente:

"Mãeeeee!! Anda cá rápido!!"

Pulei e fui logo a correr assustada... deparo-a sentada na secretária a rir tanto, SAFADA a miúda! (irmã)

domingo, 21 de setembro de 2008

Descobertas nas Férias II


Depois de ter acabado de lavar a loiça, ainda arrumava os entulhos dentro do armário, neste preciso instante uma voz invadiu-me, alojou-se uma espécie de eco continuado e ritmado porém identifiquei a palavra.

O meu namorado tinha-me chamado do primeiro andar, e eu estava situada no rés-do-chão.

"Sun!"

Fiquei em pulgas, eu que tenho um pouco mais dificuldade de entender as vozes graves, paralisei durante um tempo até responder.

"Siiim?"

Julguei até, que a partir de agora não iria perceber patavina, puro engano! Como pude ser tão desajeitada?

"Sun, anda cá!"

Divaguei perplexa, "ouvi realmente? Não estarei a sonhar, não pode ser!" Meu deus, consegui perceber nitidamente palavra a palavra e silaba a silaba.

"Já vou!"

Fiquei com os olhos esbugalhados de emoção no feito conquistado. Um diálogo de duas pessoas separadas na distância de um andar.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Descobertas nas Férias I

Deixei os dias passar, faltou aprontar certos registos durante o percurso das férias: as descobertas sonoras. Pois é, desleixei-me com o Sou uma Cyborg - Ouvido Implantado, ou melhor estive para borrifar. Tinha o exame ainda à porta apliquei como nunca, e fui merecedora em ter ganho um belo papo de olheiras na longa estadia deprimente. (supostamente para nada) - direi no próximo post.

Ainda por cima, enquanto descansava no paraíso verde recebi um telefonema de alguém, a propor um convite de honra irrecusável - onde já se viu uma coisa dessas, um doutor cujo rosto desconhecia por completo, soube a minha situação "pós-laboral" do antes e pós-Implante Coclear.

Claro, aceitei a pensar "bonito, bonito! Que mais pode vir abalar o meu mundo?" Escusado afirmar, andei numa pilha de nervos... 10, 20 ou mais pessoas a olhar e ouvir-me a falar pelo microfone com aquela barulhada colossal na Festa do Avante, em especial no Debate sobre as Tecnologias de Saúde ao serviço da Deficiência.

Bola para a frente, divulgação directa no Espaço da Ciência com diapositivos a serem exibidos no power point baseados no meu depoimento em todo o processo. Nessa altura, quis desligar-me de tudo, afastar dos livros e das canetas semi-vazias, mal sai da vazenda ouvia os sinos da igreja tocando. Era um som metálico, deu para diferenciar melhor, ali perto um ruído extenso aproximava da barreira-som a uns 2km, escutei a auto-estrada recheado de motores a sair disparatados, em alta velocidade.

Esteve por lá, também a fazer-me companhia em todos os entardeceres, andorinhas a cantar melodiosamente. Entretanto passei noites com o Implante Coclear activado, foi maravilhoso.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Pormenor do Pisca-Pisca


No suave e sedutor mês de Setembro, que mais parece Verão despede-nos com a ternura acriançada, os seus últimos raios solares na chegada do vizinho Outono. As tardes tornaram-se curtas e já escurece mais cedo, traz consigo correntes de ar aos moinhos, varrendo o chão as folhas tombadas por terra.

Presenciei esta tarde, dentro do carro em marcha e Setembro deveria ser imortalizado pela sua beleza natural. E é então que ouço o pisca-pisca, um som vulgar e analógico "pic pic pic" e apercebi desta vez a intensidade do som, ouço agora muito mais alto em relação ao ano anterior.

Será?

Provavelmente, é capaz.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Momento Histórico - Implante Coclear


Para mais tarde recordar, e gritar: "sim consegui, e vou conquistar ainda mais o impossível". Era tudo uma questão de tempo, de vontade e persistência, hoje abraçei finalmente as palavras sozinha frente ao computador com o Implante ligado ás colunas.

Lentamente elas foram-se revelando a identidade, o conteúdo linguistico e significante ao ponto de querer tocar o sublime, de tamanha foi a emoção por vezes inexplicável em decifrar cada palavra reconhecida.

E o momento histórico do Implante Coclear foi esse, acertei 57 palavras. São palavras que nunca antes ouvi ou não me lembro desde a perda auditiva.

YEAH!!!

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Discriminação de Palavras



Toco a campainha do meu apartamento.

A porta abre-se, entro e escuto um sonoro "QUEM È?" e repeli com o "SOU EU!"

: )