terça-feira, 30 de março de 2010

A Sonoridade Primaveril

 Imagem retirada daqu

Ouço os passarinhos a cantar lá fora suaves e ritmados, uma verdadeira orquestra dos pequenos seres voadores que acariciam o meu ouvido implantado neste dia alegre e solarengo porém há os sussurros vendavais por detrás do pano embelezando ainda mais a melodia da Primavera. 

É tão bom ouvir assim...

Curiosidade: segundo a observação na audiometria normal, reparei que o canto dos pássaros encontra-se na frequência 6.000K e logo nos 10 decibéis, será assim que ouço com o IC?

segunda-feira, 15 de março de 2010

Episódios Insólitos com o IC


 Todos os Direitos Reservados de Sun Melody
Nestes quase três anos de implantada, houve de tudo desde olhares a burburinhos sobre o objecto magnético que transportava na minha cabeça. A bobina achocolatada, da mesma cor do cabelo não passava despercebida quando o tinha prendido no Verão, pois a luz do sol fazia um toque lampejo chamando a atenção a este mero circulo magnete. 
Não permitir que nos olhem, seria o mesmo negar a nossa essência então mais vale deixar que a contemplação das pessoas execute e apalpe visualmente o estranho corpo magnético grudado a dois dedos acima do meu ouvido esquerdo com total delicadeza enigmática.
Assim por diante, há quase três anos, com poucas semanas de activada fui alvo de uma atracção turística cyborgnética (esta palavra não existe eu sei!) made in InterRegional dos caminhos-de-ferro como se fosse uma ave rara em vias de extinção. Ora, eu e mais o amor da minha vida assentados no lugar do vagão modificado em enfeites decorativos, encontramos uma família de seis elementos a me espiar vigilantes, e perante este facto descomunal chegámos à conclusão que a curiosidade foi tanta naqueles rostos cegos de espanto! A mulher, mãe das crianças virou e revirou a face tantas vezes chegando a levantar-se do banco só para visualizar melhor o IC, lembro das suas sobrancelhas finas um pouco delineadas e em segundos desenhou uma expressão sarcástica do género: “O que é aquilo na cabeça dela!!?” –  A gente, ambos indiferentes rimos às gargalhadas… confesso que não me afectou, pois o amor louco pelo meu Implante Coclear é tanto!
Outra, um adolescente de cabelo espetado na plataforma de Sete Rios com os fones nos ouvidos e a dançar consoante o ritmo aproximou-se a meu lado sussurrando poderoso: “Que MP3 muito fixe!!! Onde compraste?!” – STOP – “Onde comprei? Não está à venda e não é um leitor de música”. O rapaz ficou tresmalhado e confuso, e perguntou-me: “Então o que tens na cabeça?” – ri-me da sua enorme perplexidade e lá disse: “É o meu ouvido biónico, e só assim posso ouvir. Chama-se Implante Coclear.” – depois de lhe ter explicado, deteve-se absolutamente envergonhado e pediu-me desculpas… passando uns minutos diz-me: “Que me dera ter um igual, assim podia ligar e desligar quando quisesse e me apetecesse!”.
Outra, uma pessoa conhecida com uma certa idade, olha embasbacado para mim, contido e a tentar não ferir susceptibilidades… não conseguiu comprimir e o medo de me perturbar foi avassalador mas eu sei ler os rostos e soube no fundo que ele queria me dizer qualquer coisa, portanto incentivei-o. Então, educadamente lançou aquela frase um tanto repetida: “A. tens um buraco na cabeça?” – esgazeei os olhos – “Um buraco na cabeça?! Ah, não, não tenho orifício nenhum! Ah Ah Ah… Olha vou te mostrar…” o meu braço em movimento, os dedos tocam afectuosamente a bobina e retiro-a sorrindo, colo-a de novo e desgrudo.
Vejo-o sorrir, e digo: “é a minha dança magnética que uma e outra se tocam e beijam a maior parte do tempo. Um segundo ouvir e noutro já não”.
Há mais para contar, mas isso redijo noutra altura.   

sexta-feira, 12 de março de 2010

Bininhas, o mais novo Cyborg Bloguista


Qual pai ou mãe decide criar um blogue extremamente comovente relatando as peripécias e experiências imediatas de um/a filho/a surda/o nesta linda caminhada do antes e pós-activação do Implante Coclear? O que é muito raro hoje em dia, haver pais portugueses como a do Bininhas terem tomado iniciativa em deixar este precioso legado para um dia quando ele for mais rapaz-adolescente conhecer a sua história, estando também assente a oportunidade de ajudar muitas crianças e pais espalhados pelo país plantado à beira-mar em situações idênticas, sentirem que ainda existe esperança de as crianças que nasceram sem ouvir ou perderam audição pudessem escutar com ajuda desse aparelho chamado de Ouvido Biónico… e eu gostava que os meus pais me tivessem criado um diário depois da minha perca auditiva.
O que me estarrece é a ternura manifestada na escrita que me espanta de forma pulsante, e neste aspecto ele, o papá do Bininhas deveria escrever um livro, não eu, como muitos andam a pedir, mas arranjo a mesma desculpa, e é sempre esta: não tenho tempo!... e um dia destes quem sabe!?
E como diz a canção: Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida, Bininhas! Apesar de a activação não ter surtido o efeito desejado, a fase de adaptação do aparelho requer tempo e aposto que em apenas três dias já irás reagir aos sons, sorrisos!
Queria ter colocado uma fotografia do Bininhas, mas como não o faço por motivos pessoais deixo o link:

terça-feira, 9 de março de 2010

Sou implantada. Sou surda.


Sou implantada. Sou surda. Sou uma surda implantada ou Cyborg. Ok, sou uma Cyborg porque assim não tenho ninguém que me defina a pessoa que sou, não pertenço de modo algum a uma comunidade em particular. Não possuo identidade Surda. Não falo Língua Gestual Portuguesa. Não percebo o que dizem os gestos falantes, é para mim pura e simplesmente incompreensível de conceitos e significação. Sou eu e pronto!
Sou implantada. Sou surda. Sou uma surda implantada ou Cyborg. Ok, sou uma Cyborg falante, a minha boca mexe, a minha língua enrola com mestria pois têm uma ginástica do caraças para produzir a fonologia das palavras, posso cantar a letra de qualquer música fluentemente e não depender de ninguém. Posso pensar por mim mesma nas estrelas e ser leve como uma brisa de Verão, não deixo que os outros me influenciem o julgamento racional, não deixo que tentem a todo o custo consertar-me, não podem mudar a minha vida e visões encharcadas de emoções distintas profundamente enraizadas.  
Sou implantada. Sou surda. Sou uma surda implantada ou Cyborg. Ok, sou uma Cyborg ouvinte, os meus ouvidos ensurdeceram o mundo que me rodeava em criança aos 18 meses de idade como se nada me tivesse acontecido, cresci sem escutar ou pouco com as próteses auditivas. Continuei adolescer na esperança de um dia puder ouvir todas as canções da vida e retirar-me dos lugares silenciosos. Não me limitei por ter Surdez. Fiz da deficiência auditiva a maior prova de superação, dupliquei as forças na base dos desejos e sonhos. Cresci em sociedade! Sou uma Cyborg ouvinte!
Não preciso que um especialista ou docente doutorado em Surdez com todas as suas nabas idealidades utópicas me fornecem explicações tão asnáticas e minuciosas cheias de cavalgaduras de que uma criança surda ou surdos profundos devam ter como primeira língua materna, a Língua Gestual Portuguesa. ERRADO. Existe também outra forma de comunicar com o mundo, a oralidade. Não podem é privar a liberdade de escolha aquando à opção de uma determinada língua aos pais dessas crianças surdas, estão a ocultar a autenticidade dos factos… um verdadeiro atentado à deliberação civil neste malabarismo circundante. 
Tudo anda agitado e tudo anda louco.        

segunda-feira, 8 de março de 2010

Chuva!

Esta chuva que cai lá fora, a que apelido de gotinhas de prata embebe a minha alma ensopada de melodias, pingos abundantes quedam serenamente para além da janela, fecho os olhos e escuto elas a dançar... sim a canção existe, da chuva, do vento no interior da minha cóclea que através dos eléctrodos fornecem-me a tão desejada sonoridade. Sou uma sortuda!

E isto ninguém pode imaginar ou sentir. Unicamente meu. Unicamente eu.     

sexta-feira, 5 de março de 2010

Shiuu, voltei!


Um mês recheado de ausência, a vida agora exige muito mais de mim porque quero e também porque gosto de sentir a adrenalina imediata dos novos desafios que surgiram e convites incluídos. Aceitei com prazer! Sou a mais nova benjamim de um projecto que aos poucos está a se tornar realidade, construiu-se a matriz ganhando uma nova sustentabilidade e alento, foram implementadas novas ideias e convicções que agora saíram do papel.

Tudo vai mudar e já nada voltará a ser o mesmo. Nada. 

Sobre a minha condição de Cyborg, sei que muitos estão curiosos... ansiosos por novidades e não só, mais do que isto sei o quão importante é este Blogue para algumas pessoas  que me seguem religiosamente o devaneio bionicamente tecnológico. Portanto este mês as conquistas sonoras foram tremendamente grandes no que se diz respeito à discriminação de palavras e ambientes ruidosos.

Estava num restaurante, almoçar em jeito de comemoração dos 50º anos de casados dos meus avós paternos, e à nossa frente  encontrava-se na mesa um casal com 3 filhos, bem, faziam cá um barulho acriançado e as vozes deliciosamente agudas. Ouvia-se uma música de fundo, eram os acordes de guitarra intercalado com fado português... e quando me preparava para mais uma garfada em direcção à minha boca ouvi o rapaz atrás de mim a dizer: "como está o seu prato? Está bom?" - olhei-o, e fiquei agradavelmente surpreendida, sem saber bem o que fazer ou dizer...

Outra situação, passou-se no café perto da minha casa, nessa noite começaria o famoso jogo minhoto e havia vocalizações em toda a parte incessantes, espaço lotado, eu bastante longe ouvi dois copos de vidro que se chocaram em uníssono  emitindo vibrações sonoras prolongadas... fiquei super impressionada de ver como o Implante Coclear consegue captar sons tão invisíveis a uma distância soberba!

O mais engraçado, é sem dúvida assistir o desenvolvimento da linguagem do T. com apenas um ano de idade, a etapa do crescimento, o desabrochar linguístico e a forma como ele pronuncia as palavras correctamente os nomes dos animais, do corpo humano, das pessoas, dos bonecos, dos programas de animação do Panda e Noddy. A interacção estarrece-me!  

Tenho conversando ao telemóvel com a minha família, agora mais que nunca, se não entendo à primeira peço para repetirem devagar e aí posso compreender o teor da conversa, então conversamos e rimos com a minha atrapalhação auditiva. A minha leitura labial está uma verdadeira desgraça, perdendo cada vez mais a qualidade.... sou oficialmente uma coclear-dependente. 

Sou orgulhosamente CYBORG!