domingo, 6 de dezembro de 2009

Momentos Biônicos


Um frio que teimava alojar pela noite adentro, seguimos de carro na auto-estrada a caminho de Setúbal para buscar a minha irmã numa Escola de Música. Só de relembrar o som do vento que batia nos vidros do carro, a comoção de reter esse instante. A alegria de ouvir. Os sentimentos contraditórios do tempo em que o silêncio foi rei destemido durante duas longas décadas na minha vida, desde a infância até à adolescência.

O sol desce, escondendo por detrás daquelas montanhas agrestes no horizonte. Barulho continuado, do motor, do clique dos pedais de mudança e travagem. Das canções portuguesas, das vozes embaladas pela sonoridade da guitarra. Vem-me à memória a distinção do primeiro ligar e o quão diferente estou hoje a nível de audição, se naquela altura depois de ter saído da sala de activação ouvia apenas as frequências agudas, o bálsamo das vozes e os graves teimavam em não penetrar o meu cérebro. Aliás sempre estiveram presentes, mesmo naquele momento, e ele, o meu cérebro não reconhecia essas tonalidades graves. Parecia um zumbido a ecoar intrinsecamente.

Fomos para casa de autocarro, dei-me conta de que não conseguia ouvir com clareza através do processador de fala as vozes, devido em grande parte ao zumbido chato e contínuo, que na verdade era som. Os graves. O ruído motorizado. Martelava dentro de mim, só no final do dia o zumbido passou a ser som, alentado de nitidez. Era capaz diferenciar o timbre de vários transportes rodoviários. Só necessitei de um dia para o cérebro habituar aos sons eléctricos do processador de fala, assim fui melhorando com o tempo, cada vez mais.

Todo o implantado, necessita de um processo de adaptação e aprendizagem, é preciso ter consciência que os sons não chegam tudo ao mesmo tempo. Primeiro sentem-se sensações auditivas, mais tarde são considerados como sons. Convém, no entanto abreviar: cada caso é um caso.

Estou na Escola de Música, naquele curto espaço de tempo alguém toca piano. Esse som tão familiar, esse som que reconheci logo sem nunca antes ter ouvido com a prótese, esse som amado que guardei antes de ensurdecer estava em evidência num piscar e fechar os olhos. Uma suspeita tornara na certeza, que lentamente iria transformar a minha vida plena de redescobertas constantes.

A vida tirara-me um sentido, e mais tarde a tecnologia devolveu-ma graciosamente, de braços estendidos perante a possibilidade, bastou escolher e isso é bonito de se ver. Decifrar os sons, no corpo de adulta mas criança ao mesmo tempo. É magia. O deslumbramento de um novo renascer.

Em casa, a fazer o jantar. O som do gás bombear a chama do fogão, a carne fritar, o tilintar agudo dos copos a chocarem uns nos outros. A chuva cair lá fora. As folhas dançar. As vozes dos repórteres do Telejornal na televisão. Os passos nas escadas do prédio. O choro de criança alugares no andar de cima. A música renascida do computador no quarto do lado. A minha irmã tocar Saxofone. O barulho dos talheres que pouso na mesa. O puxar do autoclismo. Cada som reconhecível numa espiral que não cessa e se encontra misturado.

Sentados na mesa, conversamos distraidamente como qualquer família unida. Políticas. Educação. Vidas alheias. Coisas pessoais. Acontecimentos. Novidades. Um telemóvel toca na hora de jantar, a A. levanta-se para atender e a gente vai comendo, petiscando... ela demora-se, e uma voz constrói palavras enquanto vejo o jogo do Benfica.

- "Bicho?"
- "Anda cá Bicho"
- "Espera, já vou!"
- "Então estamos todos a tua espera"

Virei de relance, matutei e procurei a confirmação do que tinha acabado de descriminar. Ouvi! Percebi! Mais uma vez com todo aquele barulho circundante da cozinha. Sim. Estou lá! Construindo a maravilhosa capacidade de ouvir.

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