quinta-feira, 17 de setembro de 2009

3º Dia de Reabilitação

(Photo - todos os direitos reservados Sun Melody)

Encaminhei a olhar para os dois edifícios independentes, porém só um deles me interessava cuja rampa tinha a forma em L e no meio do passeio estava uma mulher de cigarro na mão, um rosto belo e repousado com os olhos vidrados no pequeno jardim. Pensativa e distante perante a claridade da manhã, desviei-me sem a incomodar e os barulhos invadiam o meu ouvido implantado através dos pequenos vinte e dois eléctrodos cintilando o nervo auditivo, pude assim escutar tudo que era ruído.

Perceptíveis. Carregados de significado, jamais cessados.

O pipilar dos pássaros de caudas azuis e vermelhas, as vozes dos bons dias, dos está tudo bem?, dos como está?. Graves e agudos de mãos dadas a serem processados com tamanha rapidez permitindo-me ouvir neste caminho, tão meu e impagável. Não trocaria por nada neste mundo, se pudesse fá-lo-ia de novo pois escolhi OUVIR.

Subi as escadas, vi uma menina pequenita loira, de olhos azuis com um turbante na cabeça nos braços do pai. Aquela visão trouxe-me à memória o ano 2007, na segunda semana ia finalmente tirar os pontos e a angustiante ligadura avelhentada de sujidade, o cabelo imundo por lavar. Depois de a Enfermeira ter pegado numa tesoura cortando cuidadosamente a atadura de algodão, vi-me ao espelho pronunciando: que metade carecada! A linha dos pontos bem visíveis, de um castanho escuro fez-me abrir um sorriso.

Sentei de novo no banco, quieta, não podia mexer sequer e é então com as mãos delicadas que a Enfermeira coloca o spray anestésico antes de aparar os pontos. Quando o fez, senti a linha sair entre a pele, foi esquisito. Agora, livre de pontos quis observar o aspecto da cicatriz, ela ali tão lisa e perfeita. Parecia um simples aranhão.

O mesmo que irá suceder à menina dos olhos azuis, tão cor do mar. E a vida, ai que vida longe de todas as dificuldades, invejo-a.

A T.H ao telefone, aceno, vejo a sua barriga redonda que transporta vida no líquido amniótico e ao lado está o mesmo rapaz de ontem, e de anteontem. Sou a sua cobaia de aprendizagem, um de muitos estudos reais que ditará a nota final do estágio. Tem o caderno na mesa. A Caneta pendurada na algibeira da bata com as inicias da Universidade da Beira-Interior.
Olhar atento e sereno, meticuloso no pormenor, seguiu todos os exercícios propostos e colaborou interessado na ausência da T.H pondo-me à prova a sua voz grave, gravíssima fazendo a mim um grande duplo esforço de entender palavras superando-as milagrosamente e cada vez mais, acertando e não acertando.

No final, a sessão acabou com a T.H ditar frases de 5 ou 6 palavras, já estava de rastos, cansada mentalmente acabei em beleza decifrando: "O ladrão bateu na Sofia". Passou uma espécie de T.P.C. de forma continuar a progredir incansável na discriminação de palavras que começam por P e D.

Amanhã é o último dia. A última sessão.

1 comentário:

imisal disse...

Boa! Bom "trabalho"!!! E quando é um trabalho que se faz com prazer e com bons resultados, a alma enche-se de alegria!
Beijinhos à «minha» Coimbra de estudante!
beijocas,
Misal