quinta-feira, 16 de abril de 2009

Evoluções Auditivas


Não posso acreditar no milagre que é a de ouvir interpretando o grande quebra-cabeças de palavras exprimidas na acção do pensamento no próximo, de pessoas familiares e percebe-las quando não me mostram as bocas falantes, lábios que dançam ensaiados de simetrias e tudo que lhes ocupa espaço são traços para os olhos de quem não ouve.

Dentro da casa as vozes permanecem mágicas, e escuta-las é ainda fascinante, ouvir atentamente movendo a cabeça sozinha pela estrada dos sons que com ou sem esforço decifro chiares, barulhos e o cantarolar de um pássaro engaiolado na varanda. Está frio, muito vento vem de lá fora e com as folhas a dançar incessante em mês de Abril.

Estou na cozinha a preparar o jantar, uma mariscada e coube-nos, a mim e ao meu namorado tratar da sapateira onde por sinal somos mestres exímios de um segredo que adoça um sabor bombástico. Ele, cortava pedaços e disse algo, não percebi nada devido ao grande ruído que existia à volta, pedi para repetir e determinado repreendeu-me com um: "tenta perceber no que te vou dizer, ok?"

Assenti empolgada, timidamente o timbre da sua voz entra em mim, e apanho o "Vamos pôr ...&%$#=#!%..." não entendi a última silaba, só apanhei o A no final da letra, respondo: "repete só a última palavra"... escuto e bolas! é difícil saber que palavra se trata, não conheço, talvez seja um termo restrito no meu vocabulário quotidiano. É cerveja! Ora aí está! Não bebo, sabe tão mal... horripilantemente.

No dia seguinte, viajo para Lisboa de comboio e ligo o MP3 ao Implante Coclear, fico a ouvir as faixas todinhas sem queixar e sorrio observando o Tejo. No regresso a mesma rotina desligando-me do mundo, não existo ali... estou a mimar o meu ouvido implantado de canções.

Preciso de ir a um sítio, raio de tempo, o meu cabelo voa aos milhares e os fios castanhos rebeldes viram e reviram do avesso, fazem uma festa danada enquanto acelero os passos para fugir das gotas de chuva, pequenas e leves gotas de prata. Refugiei-me para dentro do edifício, está abafado e cheira à máquina, vejo montes de computadores em segunda mão estendidos nas prateleiras por ordem alfabética.

Antes de entrar no departamento, uma música ritmada de um telemóvel começa a tocar impaciente e alguém atende, reconheço a pronúncia vocal e é a da minha figura materna, fala demasiado depressa, enrolando as palavras todas. Questiono se um dia irei entender tudo o que as pessoas dizem, e nesse momento um golpe de sorte percorreu de uma ponta à outra a minha angústia amontoada que numa distracção apanhei uma frase de forma perceptível: "não há problema" no meio de tantos diálogos. Revirei os olhos estupefacta!

Fui encarregue, ainda absorta em pensamentos perante o fortuito acaso de que um dia lá chego, com o tempo... na altura certa. Ouvir já faz de mim FELIZ.

5 comentários:

Laura disse...

Exactamente..Não há problema nina, ehhhh, porque os problemas existem no implante, porque tem de ser . Não é fácil para todos, não é fácil para alguns, mas, ELEs estão do outro lado a dar a sua ajuda e daqui a uns anitos já conseguiremos entender quase, quase tudo..tem FÉ!... mesmo só assim, é tão bom ouvir todos os sons...Um jinho d alaura..

Laura disse...

Ajhhh, o meu pai punha cerveja nessa mistela da sapateira, era bom pra caraças...maionese, cebola muito picadinha a carne da sapateira, ou seja, a merda que tem lá dentro, ehhh, dá cá um petisco...ehhhhh é mesmo assim que lhe chamam...ora que bom.
Não gostas de cerveja? credo, eu adoro uma de vez em quando à refeição...
Beijinhos.

Gaivota disse...

Aos poucos, vais aprender a ouvir tudo :)

Maria Izabel Viégas disse...

Minha doce e linda Sun Melody,
Vim te agradecer o depoimento no meu blogue. Quanta beleza e força naquela alma da pequenina menina.
É assim, uma vez meu marido me perguntou se eu já havia percebido como os pais de crianças com Síndrome de Down saem felizes de mãos dadas com seus rebentos.Não os escondem. Sim, respondi. E creio por ser uma Viajante na Linha do Tempo que é justamente porque todos nós lá nos céus já escolhemos aquilo que nesta vida seríamos capazes de suportar.
Estamos todos nos lugares certos, nos papéis certos. Mas...nossa memória se confunde. E não são todos os que ganham as batalhas. Vc sabe lutar a boa guerra, a guerra-luz-melodia!
Mas, ri-me muito da tua aventura culinária. Quero a receita sem o @*&%$+<# ! rsrsrs
Realmente , quantos de nós q escutamos não entendemos o que o outro fala. tem pessoas, linda Melody, que falam tantos blá-blá-blá q nos deixam tontas e até sonolentas.
Bem, vim falar de ti, do meu carinho por estares no meu espaço. Fico honrada de tê-la comigo!
De ouvi-la, imagino teu sorriso, como deve ser belo teu sorriso, minha linda Guerreira do Amor!
Obrigada pela visita , pelo comentário, enriqueceste meu blogue.
Beijos no teu coração!

Pedro Lopes disse...

belo belo belo belo