
Ainda é noite no cais fluvial, o silêncio reina e a cegueira da madrugada infiltra o grande baile de luzes na margem lisboeta ali ao fundo, sob o meu olhar ensonado que repousava nas águas do Tejo. O barco aproxima ainda longínquo, ouço o seu som motorizado e o vento com o seu odor salgado mergulha nas minhas narinas, o cheiro do mar, das algas ainda submersas e no fim revejo-me. Tudo é diferente.
Já à bordo, rego a generosidade em cada olhar, pessoas dotadas de enredos simbólicos e uma rapariga senta-se á minha frente encostando a cabeça na sebe do barco que treme. Olha-me e sorri encharcada de inércia, as pálpebras semi-fechadas e os cabelos molhados em água.
Saio do barco no meio de gentes, e depois do Cais Fluvial rumo a Santa Apolónia serenamente, devagar de metro e é então o guardião dos sons renasce amanhecendo os rugires de uma selva citadina.
Sigo o caminho entusiasmada, estou já nas bilheteiras e digo: “Bom dia, um bilhete para Coimbra-B” e a voz soa-me fina e suave ao meu ouvido implantado “È para às 07h30?”, eu escutava distraidamente quando tentava retirar a carteira da mala, “sim é, no InterCidades”.
Bilhete pago. Vou ao café e tomo o pequeno-almoço, olho para as horas, ainda tenho meia hora e mais uma vez contemplo o espaço vazio, despovoado cuja claridade desabrochava o quente do sol embaciado pelo vidro do telhado.
Definitivamente eles pertencem-me.
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