quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Coimbra (I)


Ainda é noite no cais fluvial, o silêncio reina e a cegueira da madrugada infiltra o grande baile de luzes na margem lisboeta ali ao fundo, sob o meu olhar ensonado que repousava nas águas do Tejo. O barco aproxima ainda longínquo, ouço o seu som motorizado e o vento com o seu odor salgado mergulha nas minhas narinas, o cheiro do mar, das algas ainda submersas e no fim revejo-me. Tudo é diferente.

à bordo, rego a generosidade em cada olhar, pessoas dotadas de enredos simbólicos e uma rapariga senta-se á minha frente encostando a cabeça na sebe do barco que treme. Olha-me e sorri encharcada de inércia, as pálpebras semi-fechadas e os cabelos molhados em água.
Saio do barco no meio de gentes, e depois do Cais Fluvial rumo a Santa Apolónia serenamente, devagar de metro e é então o guardião dos sons renasce amanhecendo os rugires de uma selva citadina.

Sigo o caminho entusiasmada, estou já nas bilheteiras e digo: “Bom dia, um bilhete para Coimbra-B” e a voz soa-me fina e suave ao meu ouvido implantado “È para às 07h30?”, eu escutava distraidamente quando tentava retirar a carteira da mala, “sim é, no InterCidades”.

Bilhete pago. Vou ao café e tomo o pequeno-almoço, olho para as horas, ainda tenho meia hora e mais uma vez contemplo o espaço vazio, despovoado cuja claridade desabrochava o quente do sol embaciado pelo vidro do telhado.

Entrei na carruagem, avistei o número e ali permaneci com lugar cativo á janela rumo a Coimbra, e como sempre mirei sob uma intensa névoa alaranjada o fulgor imponente da Natureza. E todos os sons me invadiram, bastou fechar os olhos por um momento e os ruídos banais eram melodias para mim, a musicalidade do metal a rugir como um beijo dominado, o eco ao passar por um túnel cintilaram as células ciliadas, as portas a reabrir e fechar, o altifalante. Senti bem, aninhada como os bonecos de peluche ao deitar. Sons. Ruídos.

Definitivamente eles pertencem-me.

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