quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Palavras e Telemóvel


Digitalizo essas palavras ao som da música “Amanda – Aisha Duo” de Jazz, onde por sinal gosto da melodia, da entoação e percebo como me acalma bastante enquanto trabalho estimulando o nervo auditivo sem qualquer mínimo de esforço.

Estou há mais de um ano neste caminho interminável, sem fim e espero continuar nesta empreitada cavalgando estradas e lugares diferentes, dia após dia ao volante do processador de fala em busca de sons e discriminações auditivas atravessando o mundo á pé.

Procuro. Encontro. Descubro. Vibro em cada conquista. Guardo para dentro de mim, que percorrem como borboletas procurando quem sou através das mudanças sonoras, o meu silêncio já não é silêncio de oiro. Mudou como as pessoas que mudam a maneira de pensar e sentir das coisas em que o mundo lhes oferece.

Conduzo de olhos fechados. O processador de fala guia-me, ruído a ruído, palavra a palavra, melodia a melodia e tudo em mim é música, apenas música crua e verdadeira, capazes de me devolver o calor da vida, o seu sentido e significado em tempestades de gelo que fazem doer os ossos.

No entanto, o amor das palavras existem, reconhecer a voz de alguém familiar por detrás do telemóvel que toca desenfreado e cheio de pressa de ser atendido, ouvir um “olá” alegre aliado a uma preocupação crescente do “está tudo bem?”.

E a minha resposta entregue do “sim, está tudo em ordem e por aí”, novamente a voz do outro lado sussurra ao meu ouvido implantado ténue e aguda do “também está tudo bem”, e então fala-me uma frase comprida mas eu não percebi desta vez porque havia muito ruído de fundo naquele lugar. Mas que lugar era esse? Desconheço. Não cheguei a saber.

A frase é repetida, continuo a não entender e desanimo um pouco, não devia ser difícil de aprender a ouvir, questionei. À terceira com mais calma, noto que ela saiu do ambiente ruidoso e consigo escutar claramente o “passa ao acorrentado”, fez-se luz e reafirmo o que ouvi “passo ao acorrentado?”, a voz sobressai o “sim”. Wow!

Cheguei á conclusão, que mesmo lentamente chegarei ao destino - vitoriosa.

Foi o que aconteceu ontem, no entardecer em que a chuva se avizinhava na espreita do céu cinzento-escuro, triste e deprimido. As nuvens pareciam ter um mapa escondido, a dos sons e palavras soletradas.

2 comentários:

olinda disse...

Olá Sun, eu gosto muito de ler como vc descreve a aventura de ouvir através do implante. Nem imagina o que isso ajuda-me a ter esperanças. Eu sei que meu caso é diferente, eu ja escutei no passado e tambem escuto bem pouquinho, mas alguma coisa escuto, com um aparelho no outro ouvido...

Eu tenho medo de nao gostar do som do implante, mas quando você descreve os sons eu vejo muita beleza e alegría na comunicação.

Você descreve os sons com muita beleza, é muito agradavel...

Obrigada

Te mando un beso

Sofia Paço disse...

FANTÁSTICO...
é bom saber que existem pessoas que partilham.... ando esperança a outras.

Abraço forte,

kiss
Sofia Paço