terça-feira, 5 de março de 2013

Hoje

Terça-feira e a tarde escurecia ao som da chuva que tombava pingos aquosos, é música para os ouvidos! Estás concentrada em criar tabelas organizadas a pedido de uma pessoa muito querida e a impressora resolve dar-te um treco porque o computador não reconhece o ficheiro do programa. Tentas outra abordagem. Não estás sozinha na sala, tens companhia de um senhor de idade, mais novo que o teu avô a revirar tantas vezes o rosto na direcção. Esboças um tímido sorriso forçado depois de o ajudares na trapalhada do e-mail erradamente escrito, bate a mão na testa e exclama “sou mesmo dah!”. E é então que o diz “a tua cara não me é estranha, já te vi em algum lado numa fotografia tirada de um clube com farda branca e cinto negro, és tu?” – pensas dialogando nos botões da alma “aleluia não me conhece como sendo Cyborg, afinal a Sun Melody tem outras definições enquanto pessoa polivalente”. – Entretanto à medida que iam conversando ele repara numa coisa estranha que brilha reflectido pela luz das compridas lâmpadas o circulo magnético transportado no meio dos fios de cabelo, reconheces a expressão facial de estranheza - “oh não, lá vou ter de contar novamente mais quinhentas vezes o significado desse tal objecto magnético.” – e para ser mais fácil, simples e rápido em desvendar este milagre de tecnologia ainda insondada neste país desloquei o íman, depois o processador e por fim grudei-o em mim numa explicação leve como se fosse dada a uma criança “sem ele sou incapaz de ouvir, não ouço a sua voz nem o timbre com todas as tonalidades que emana na língua portuguesa já que a minha surdez é profunda, assim quando ligo o Implante Coclear é como se o mundo, a vida me devolvesse ao lugar de sempre, vivo de verdade em sentido de pertença” - o senhor ouvia surpreso seguida de inúmeras perguntas bombardeadas que fui respondendo saciando o conhecimento biónico nesta ávida mente por uma curiosidade. E sim, sou aquela de farda branca e de cinto negro.

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