quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O Choque. O Luto e a Aceitação - Pais I


 
As primeiras contracções, a malinha recheada de roupa para o recém-nascido, o caminho frenético em direcção ao hospital, e chegou a hora de nascer! Ouve-se o primeiro choro a ecoar na sala! 

Contempla finalmente o ser perfeito que foi criado no interior do seu ventre, dançando no líquido amniótico durante 9 meses com todos os sonhos pela frente, e logo ali começa a contar os dedos perfeitos dos pés e das mãos, o nariz alinhado, os olhos em bico e a boquinha doce a mamar no seu peito. Imaginam como será a vida que dorme no seu colo tranquilamente, uma paz de serenidade invade, e nada prevê o futuro que nela reserva. O inesperado. A imprevisibilidade. A cortina da realidade cai por terra, pois de repente sem pedir licença para entrar, a sua vida acabou de dar uma grande volta ao mundo e a criança sangue do seu sangue é incapaz de ouvir. Toca uma música de fundo, não consegue identificar a canção e muitos menos a letra, sente o escuro a corromper o pânico semeado de revolta, do medo onde acaba por dominar todas as emoções ao ponto de se sentir desconfortável e impotente por ter entrado numa estranha realidade, que a sua criança pode não ouvir. Isso dói. O mar de incertezas arrasta-a na rota do desconhecido.  
  
As lágrimas escorre-lhe pelo rosto, questiona “Porque a mim? Porquê nós? O que fiz para merecer isto?” depois do choque vem o luto da aceitação num acto desesperado de procurar saber como isto aconteceu, há no fundo um conflito mútuo de reflexões em busca de uma resposta concreta ao mesmo tempo que vê a sua criança a dormir profundamente no berço. Estas coisas acontecem, não há como esclarecer o motivo pelo qual a sua criança tenha uma perda auditiva, pode ser de causa desconhecida ou de um vírus/medicamento que tenha apanhado durante a gravidez, ou tem origem genética onde os pais possuem um gene específico portador de Surdez. Só os exames e análises poderão determinar a causa. 

É extremamente importante ser forte visto que agora, neste momento a bebé precisa de si mais do que nunca, pode chorar copiosamente como se não houvesse amanhã, ter uma deficiência auditiva não é catastrófico e nem condiciona o desenvolvimento da própria criança se tiver recursos apropriados para poderem driblar em harmonia hoje em dia com a ajuda de profissionais, da família e da tecnologia, entre os quais, dispositivos de escuta: Próteses Auditivas e Implantes Cocleares, e posteriormente ponderar a escolha de uma comunicação que apenas cabe aos pais avançarem, a Oralidade ou a Língua Gestual Portuguesa. O que pretendo mostrar com este texto, sem gestos visíveis, nem expressões a descoberto, apenas palavras escorregadias no teclado cheio de botões ordenados num quarto semi-iluminado por um candeeiro é, escondo também um segredo. Tenho deficiência auditiva!

Não é nada de outro mundo. Não sou apenas “diferente”, não me considero uma pessoa “diferente” por não ouvir como todos os outros de forma natural, porque no fundo descrever esta sensação é a de ser um indivíduo vulgar cuja timidez não consta no mapa, absolutamente falante e receptiva, dona de um ouvido mágico feito na idade adulta graças ao uso diário das próteses auditivas na infância e adolescência, tenho uns lábios e uma voz que ecoa de acordo com as minhas vontades e necessidades. 

Como pode observar e bem, a Surdez ou Deficiência Auditiva não é nem por sombra limitativa, precisa é que seja alguém próximo da sua criança e possa lhe dar todo o seu conhecimento, que perca tempo nas horas de terapia de fala, nas estimulações diárias, que brinque com ela com os brinquedos didácticos, com os livros baseado em imagens, conte-lhe histórias de embalar antes de lhe dar beijos de boas noites. Fale pausadamente cada palavra correspondente à imagem, dance como nunca mesmo que sinta a vibração da música através das colunas de som. A sua criança é perfeita. Apenas não escuta, e ela poderá um dia ouvir com a ajuda dos aparelhos auditivos e ou implante coclear, poderá falar como qualquer criança cuja audição não esteja danificada. O caminho é longo, difícil mas no fim tudo será recompensado.
         
Vale a pena conhecer casos, conviver com pessoas para uma valiosa troca de experiências com pais de crianças que passaram nas situações semelhantes. Pesquisarem na Internet, fazem inúmeras perguntas e se possível comuniquem com crianças, adolescentes e adultos com surdez de todos os níveis, desde leve a profunda. Não tenha medo, não receia e não ignore pois há sempre alguém pronto para lhe dar uma mão amiga.

Nada está perdido.

1 comentário:

Viviane I F Caldas Schiavenin disse...

olá ! estou muito feliz e emocionada por ter a oportunidade de ler tudo que escreve ! Minha filha ISABELA que completa 02 anos agora dia 31/05/12 está na fila para o implante coclear, ela atraves do uso do aparelhinho ja esta conseguindo pronunciar as vogais, tambem o mmma (Mãe) e bab (papai)realmente depois do choque, o choro de varias noites agora começo a enfrentar e tenho fé em DEUS que ela vai conseguir ouvir e falar seja do modo que DEUS assim nos preparar. MUITO OBRIGADA. Bj Viviane