quinta-feira, 6 de maio de 2010

Infância - 8 anos



Dizem que nunca na vida irias voltar ouvir, os nervos dos ouvidos mantinham-se irreversíveis para a eternidade pois o problema situaria no córtex auditivo cerebral, uma sentença seca sem margem para dúvidas a uma criança com oito anos de idade turbulentos.
Furei a caixa da Pandora, com uma dor amarga no peito e nos meus olhos desaba um pranto descontrolado debaixo dos lençóis, mordo a folha da almofada com medo que os meus pais me ouçam lacrimejar.
Não iria ouvir, estes pensamentos dilatavam instantaneamente e quando perguntava à minha Mãe, via-lhe o rosto abatido como tantas outras vezes, subjugado perante o meu impulso de antecipação prematura e ainda lhe custa relembrar o infortúnio do destino em que a Surdez ocupara o lugar com a rapidez de uma raposa frenética. Dias cinzentos. Filha, se pudesse dava-te agora os meus ouvidos para que pudesses ouvir o mundo, seria preciso uma farinha mágica como as que tem as fadas, mas não tenho.

Eu sei que não tens, já não acredito em fadas que estalam os dedos para mudar as coisas mãe. Não acredito em fadas, porque não me puseram ouvir quando continuava arrebentar os dedos, vês, olha, consegues presenciar? Acabei de estalar os dedos e nada, continuo sem ouvir, é apenas o mesmo silêncio.

Ó mãe, como seria bom redescobrir o cantarolar dos pássaros, como é o som? Diz-me mãe. E o som do mar? È bonito? Retraída no encadeamento giratório das minhas questões, não queria acreditar que o momento mais temível chegara provavelmente demasiado cedo. Ao mirar a sua própria filha e saber pouco a pouco, que essa criança gerada no seu ventre estaria a chegar ao fim do túnel da infância, perdendo a inocência à medida que crescia.

3 comentários:

Olivia disse...

Hola Sun! Estive lendo teu blog. É muito bom saber de vc.

Te quiero mucho y te mando un beso grandote. :****

Ynnêz disse...

Que lindo post!
Começo por dizer que foi a melhor experiência conhecer crianças assim. Ela é muito inteligente e super simpática. Gostei muito de a conhecer (aprendi um pouco linguagem gestual). E assim, quando a conheci não me senti sozinha no mundo.
Sou surda moderada, uso aparelho auditivo, e faço tudo para que ninguém saiba. E antes nunca estive ao pé de uma pessoa com problemas de surdez.
Um dia espero aprender linguagem gestual.
Beijinhos!

Marcelo em busca do mundo dos sons. disse...

Olá querida Sun....
Lindo, lindo de ler cada relato seu de suas experiências sonoras, meu MARCELO UM DIA CHEGA LÁ...
Abraços....
MÔnica...