segunda-feira, 18 de maio de 2009

Reajuste III


Enfiada neste gigantesco cilindro de betão, o vagão encurta ruidosamente e há qualquer coisa sensual na melodia que me convida a delirar de olhos semi-cerrados, o som já não me escapa por entre os dedos.

Parou para beber os meus passos imersos, e me sentei no banco com um lenço a assoar o nariz na companhia dos beeps aguçados que infiltrara nas minhas células ciliadas, estou encharcada de timbres que conduzem para o processador de fala e eu domino esta nova cidade a regar frutos maduros.

Santa Apolónia. Escalo degraus infinitos, observo a grandiosidade do espaço clássico, um misto de antiguidade e modernidade emaranhados, e quando dei por mim parada, o sol ainda alteava no firmamento azulado por detrás da cobertura. O cheiro suaviza e encanta o cenário, um aroma de gasóleo nos depósitos cheios vindos dos Comboios, ando e ando directa à muralha da cédula de destinos. Um senhor, simpático diz-me bom dia, retribuo com um sorriso e um bilhete para Coimbra-B no Inter-Cidades.

Um obrigado e uma boa viagem, mais uma vez agradeço. Vejo e escuto caminhando para a linha 2, a via do desembarque que se rasga um vislumbre de criaturas humanas, sujeitos estrangeiros possivelmente ingleses. Ouço as suas vozes, e é engraçado como o “Sh” o “H” e o “W” se pronuncia daquela maneira, ainda mais límpido e transparente no processador de fala.

Penetro a carruagem 23, figuro ali assentada 10 minutos antes da partida.

Sem comentários: