segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Dia 22 - Parte II

Retirada da Internet

Regressei de novo á estrada, desta vez para a aldeia onde iria passar o Natal junto daqueles que amo, encurtar a distância a um abraço. Bastou duas horas de viagem. Deixamos as malas na residência, metemos-nos no carro com rota estabelecida para o Hipermercado fazer as últimas compras.

A crise fez-se sentir, imaginei que estivesse muito mais cheio mas depois lembrei, que ali perto tinha aberto um novo centro comercial, o Forúm. Todos os ingredientes já posto no carrinho, não nos faltou nada, conduzimos até á caixa e foi a partir desse momento que as coisas desenrolaram em câmara lenta, um baile de encontros e desencontros dos felizes acasos. Havia ali magia, talvez o deslumbramento do Natal embrulhada de Solidariedade no meu olhar que reteve a uma criança, uma só entre muitas outras, chamou-me logo a atenção num pormenor que para muitos passariam despercebidos...

Um casal e o filho, os seus caracóis travavam uma batalha com a mãe, a discórdia de pôr o gorro antes da saída, reparei logo no processador de fala quase escondido e igualzinho ao meu, foi por mim descoberto e o mundo floriu. Encanta-me sobretudo de a criança puder usufruir toda a audição em vez do silêncio. Saíram e perdi-os de vista.

A seguir fomos nós, já era noite e o frio intensificara. Podia sentir a aragem gelada a roçar os nossos corpos. Caminhámos até ao carro, deparei o mesmo casal e o filho implantado cuja viatura estava imobilizada á frente do meu. Mais uma coincidência? Não os quis incomodar, a ténue cumplicidade pairava o espírito do amor. Uma desculpa inventada por mim, timidez? Talvez.

Valeu a minha mãe dar-me uma cotovelada e pronunciar "Vai lá, estás a espera do quê?". Pensei, "porque não?" Mal dei o primeiro passo esquerdo, o casal elevou os braços e nas mãos existia um idioma, linguagem esta que os une, a dos gestos. São deficientes auditivos! Que surpresa! Fiquei admirada e inerte de ambos terem decidido implantar o próprio filho e fora uma situação da aparente anormalidade. Uma bofetada, uma verdadeira lição de vida!

Cumprimentei-os inopinadamente, confesso que me olharam empanados e uma pintada de indiferença, percebi logo a postura deles. Pus as divergências linguísticas da oralidade de lado, vistos de eles não falarem, entrei em gestos pré-concebidos e simultaneamente a fala intacta.

Conversei com o pequenino Ser dos cabelos encaracolados, perguntando como se chamava e que idade tinha, espantosamente mostrou os quatro dedos minúsculos, bem esticados e disse o seu nome na perfeição, de N. Ele fala! Quis dar-me um beijo, abaixei-me assim á sua pequena estatura, dando um em troca, no entanto a minha mãe preparava-se declinar mas o N revirou o rosto junto ao pai contrariado a abanar um não evidente.

A sua conduta apanhou-me desprevenida. Não esperava aquilo. Talvez porque comigo sentira a proximidade, por possuir este portentoso aparelho que me faz ouvir? Esta questão ainda me inquieta os pensamentos. Depois deste pequeno episódio, o pai de N. disse-me uma coisa, mesmo com dificuldades sentidas de articular correctamente as palavras na mistura acromática dos gestos de forma tornar o diálogo mais rico e vasto, conseguiu transmitir uma mensagem que me pôs a pensar e muito, talvez em grande abono da verdade tenha razão. Que nós, surdos oralistas devíamos ajuda-los.

Não só a um grupo restritivo mas no geral, em sociedade. Minimizar as dificuldades, derrubar barreiras, é o que tenho feito em toda a vida, porém existe uma grande diversidade dentro da própria Surdez.

A negação da oralidade, o confronto eterno da Língua Gestual Portuguesa. Os surdos oralistas versus gestualistas, não nos entendemos, não conseguimos agrupar conceitos em um só, melhorar, evoluir e dar a nossa voz. O contraste perfeito, uma ilusão momentânea do que se passou. Utopia? Não. São vivências. Mentalidades. Formas de pensar, o de querer saciar conhecimentos, a de viver em integridade, a aceitação do outro, o respeito do próprio perante alguém, valores. Foram educados. O segredo está na educação que os pais ensinam posturas nas crianças.

2 comentários:

oliviacastrocranwell disse...

Antes que tudo te desejo um ótimo ano novo. Eu espero que neste 2009 continuem as tuas conquistas sonoras e tambem espero poder disfrutar da tua forma de comparti-lhas. Tuas descriçoes sao arte pura.

Teu relato é emocionante, justamente, ontem de noite eu estava falando com meu namorado tudo o que se precisa fazer ainda para unir os discapacitados na vida dos "normais". Da palavra ao fato ainda tem um longo tramo.

Te mando um beijo grande e muitas felicidades

ideiasdelirantes disse...

ola, estou a ler um livro sobre isso de q falas e é extremamente interessante: "o grito da gaivota",de emmanuelle laborit. se puderes le também!obrigado por relatares tão bem as tuas experiências!