domingo, 28 de dezembro de 2008

Dia 22 - Coimbra - Parte I


Segunda-feira de manhã abalamos rumo a norte, seguimos a auto-estrada da A1 e logo a 60 km de Coimbra avistamos um camião abalroado em sentido contrário, deitado por terra, destruído e amordaçado. Assustador. Um pouco mais á frente ouvi sirenes da BT, passou a galope seis viatures possivelmente para socorrer as vítimas do acidente e manter ordem o tráfego inundado de fileira.

Entretanto, seguia a viagem lendo um livro fascinante envolto de mistério e foi então um outro som atropelara-me de novo, aquele cintilar agudo de ambulância, passou por nós com celeridade, uma carinha da INEM. Mais um acidente? Pensei eu. Adiante, vi a dimensão do acontecimento, como aquilo se sucedera, impressionante... marcas de travagens visíveis no piso de alcatrão, o carro derrapou após a curva e saiu da via aterrando no meio do mato.

Anda tudo maluco! Que perigo! Selei pela segurança dos meus familiares, fechei o livro e mirei o horizonte serpenteando. Uma placa verde anuncia-nos a virada para Coimbra-Sul, beijamos a cidade dos estudantes enfeitiçadas pelas luminárias de Natal, e jazia uma feira junto ao rio do Mondego, um mar de cores agradáveis.

Os meus pensamentos dançavam dentro da cabeça durante a curta aproximação ao Hospital dos Covões para mais uma terapia extensa, a dos sons, a de descriminar palavras. Ansiosa, desejosa de subir mais um degrau, de desafiar as capacidades auditivas, de ir mais além onde nunca antes fui. Tudo em mim movia uma força imensa, de vontade em superar cada triunfo.

Subi para a ala de Implantes Cocleares, avistei quatro pessoas sentadas, pais de crianças que se encontravam a reabilitar. A terapeuta dos famosos olhos azuis aparece, esboçando um riso carinhoso e junto dela, uma menina esconde-se no meio das pernas da M, envergolhada.

Penetrei o interior da sala, a mesa imaculada de brinquedos, e ao lado uma secretária a segurar o computador. Sentei-me ali, de frente á terapeuta e com o papel a tapar a sua boca soletrado as vogais. Correu bem. Seguiu então as consoantes, avisando que era ainda cedo para mim, no entanto iriamos tentar e aparentamente entendo o m/s/p/t.

Ainda me custa perceber as vozes ásperas e graves, é o caso da terapeuta. Devagarinho chegarei, quer melódica ou não. Abraçamos um outro exercício, distinguir o Pá do Tá, o Pé do Té, mas o Pi do Ti mostrou uma clara desordem auditiva, a corda vocal atravessada no interior do ouvido implantado balançava o rumor das incertezas, não sabia se era o Pi ou o Ti, soou-me estranhamente idênticos!

Nem quis acreditar... ao pronunciar apenas as consoantes de m/s/p/t sou capaz de separar o som, especificando-as o timbre, a marca linguística, o sinal que as distingue de uma outra excepto o L - o meu eterno vilão.

A reabilitação correu dentro do esperado, superando as expectativas onde por norma a terapeuta também ficara surpreendida, tenho a capacidade de reconhecer determinada consoante e dissê-la de forma rápida. Trouxe trabalho, desta vez mais esticado para o longo mês de Janeiro.

1 comentário:

Olivia disse...

Vc é uma pessoa muito especial mesmo. Um exemplo. Conhecí uma mulher que ficou surda com dois anos e agora é candidata ao implante.

Ela tem minha idade, 50 anos :( e fica com medo de nao der certo. Eu ja falei muito do seu caso más ela nao lé em portugues. Ela e eu ficamos amigas, eu espero que tenha a coragem de virar cyborg.

beijinho