sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Grilos


A noite batia um duelo silencioso, a ausência de ruído incomodava ao ponto de chocar contra os meus sentidos sem piedade. O meu silêncio é diferente daqueles que ouvem, para mim é uma privatização sensorial, o abismo absoluto e atribulado numa tempestade sem fim.

Tinha o Implante Coclear ligado, mesmo assim não ouvia nenhum burburinho em redor, apenas escuridão entre as brumas do calor suado, a mistura de odores pairava no ar, um perfume salgado e bronzeador dentro do quarto. A janela aberta. O silêncio era igual ao anterior, demasiado silencioso e quieto.

Não conseguia fechar os olhos, andei às voltas na cama que com o movimento do meu corpo, acariciando suavemente o lençol, os sons incendiaram-se cheios de energia e senti-lo dentro de mim, renasci.

Pouco a pouco, múltiplos ruídos surgiam como formigas, o ronronar pesado e ferrado dos três elementos da minha família mergulhados no sono profundo, uns mais leves e densos no acto de respirar.

Cerrei os olhos, só para escutar melhor, concentrei em tudo que pude, ouvia somente o bafo quente na infinita distância das suas bocas no vai e vem, o mundo lá fora iluminado por um poste de luz e me acordou, as estrelas brilhantes no alto do céu, cintilou a minha visão.

Levantei devagarinho sem acordar ninguém, dei quatro passos em direcção á janela aberta, mirei a bonita paisagem estrelar e o meu ouvido implantado apanhou uma frequência baixa e aguda, o que é? Parecem os grilos a cantar…

Fiquei arrebentada com a melodia, assim fiquei pela noite toda, ouvir esta grandiosidade.

1 comentário:

reb disse...

Sun, o teu amor pelos sons é algo de comovente! Nesta fase da tua vida, parece ser o sentido mais importante. É um renascimento. A aprendizagem de um mundo feito de agudos e graves, melodias e harmonias. É tão bonito!
Qunado te leio fico mais atenta a esse sentido que, quem sempre ouviu, se esquece de valorizar. Só me lembro dele quando tenho prazer em ouvir música. No dia a dia valorizo muito mais o olhar!
É gira a tua noção de silêncio. OS ouvintes costumam falar do silêncio como um bálsamo, por ser tão raro. Muitas vezes os sons são sentidos como ruídos, poluição sonora, agressivos, impeditivos de bem-estar. Mas para ti, são sempre especiais, são sempre melodias.
É por isso que, com estes teus textos, ensinas os ouvintes a ouvir, ou melhor, a saber escutar...

P.S. O som dos grilos é bonito sim, embala-nos antes de adormecer..

Um grande beijinho *