quarta-feira, 23 de julho de 2008

Melhoria do Reajuste

Chip Interno- Nucleus Freedom - Contour Advacend Electrode

Depois de meia hora a espera, avistei sentada o Técnico J.H no balcão da Widex, fardado, de bata branca por cima da sua roupa e aparentava um ar bem disposto. Mirei-o de relance, e o telemóvel começou a vibrar insistentemente dentro da minha mala esverdeada.

Desabotoei o bolso, peguei nele e atendi ao meu ouvido implantado, uma voz doce e tremula que circunda como uma corrente de ar nas células ciliadas, reconheço essa voz familiar, que me agrada e dá-me festas. Estrelas sonoras.

"Tou?"
"Está tudo bem?"
"Sim, ainda não fui chamada."
"Ok, quando saires avisa-me."
"Está, beijo."

Todos me observam, caras desconhecidas, e uma senhora de idade sentada a meu lado fita-me cheia de curiosidade, admirada e sabe que uso Implante Coclear, tenho ele á vista ao mundo a brincar com os fios do meu cabelo. Belo e digno de atenção e nem por isso fico incomodada. Esboço um riso vaidoso.

Ali, o Técnico J.H faz-me um gesto natural como que dizer para aguardar uns minutos, sacudi a cabeça de afirmação. O tempo voou, e a grande porta de madeira é entreaberta de mansinho sem o habitual ruído desgastado na ausência de óleo. Levanto-me, acelero os passos na sua direcção, demos um aperto de mão e os olhares entraram em contacto, brilhantes e afectuosos.

Reparo a mudança da sua personalidade, as maças do rosto ficaram ligeiramente coradas, questiono, que se passa? Ele não é assim, nunca o foi para comigo, onde está o seu ar arrogante e reservado, um cubo de gelo nas emoções inexpressivas? Alguma coisa aconteceu para deixá-lo tão desperto e sociável, mais humano com o calor de bondade e compaixão nunca antes vista.

Percorremos o corredor, estranhamente encantados, quando finalmente foi directo ao assunto e procurou entender a minha situação auditiva, no começo esquivou. Entretanto, as suas palavras acalmaram-me, e a sala permanecia silenciosa, as paredes eram á prova de som, o cheiro á perfume dos detergentes de limpeza.

Estabelece a conexão do processador de fala a um cabo que partia do computador, e tinha razão... alguma coisa não estava bem no programa do Implante Coclear, foi preciso ajustar quatro vezes e levantar o dedo na revisão dos apitos agudos, todos eles altos, intermédios e baixos.

Ele liga o aparelho biônico, escuto, está muito baixo, peço para que diga uma frase, não, não está bem. O aparelho é desligado, regresso ao silêncio e o J.H fica atento no software, aumenta os agudos e baixa os graves. Fui novamente activada, e agora? Não noto diferenças, está muito parecido… de repente surge-me uma lógica, solicito-o para voltar á programação anterior e que aumente a velocidade dos impulsos eléctricos na extremidade dos eléctrodos.

De volta ao adorado mundo dos sons, ena que diferença! Está óptimo, perfeito, vozes mais nítidas que chegam a mim, a velha melodia da minha infância, sou novamente uma borboleta, e flutuo no ar da vida, invisível.

Tão meu, tão único.

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