Não trocaria a minha vida por nada neste mundo com todas as suas cores e sorrisos, Portugal de norte a sul em apuramentos para os Nacionais, Espanha de Barcelona e Madrid - a minha primeira experiência internacional made in Portugal.
França de Paris, em que corajosamente subimos as escadas da Torre Eiffel para perder os 2 quilos de peso acumulado durante a viagem de autocarro que durou um dia e meio, de termos chegado ao topo completamente suados e ver a cidade parisiense tão brilhante, cercada de luzes, de ver o mundo um pouco arredondado no horizonte. De atravessar a ponte com a capitã e pararmos frente a uma reloutte pedir duas deliciosas panquecas de banana e chocolate. De ter decidido comprar um lindo casaco para a minha irmã como recordação. De apanhar o metro a caminho do hotel, e ao jantar detestarmos comida francesa... de no fim reunimos no corredor do do edifício com o mister para a noite da praxe dos caloiros pré-internacionais e de rirmos às gargalhadas com mãos na barriga deitados no chão.
De no dia seguinte levantarmos bastante cedo, para a prova de fogo do Campeonato Internacional, de termos chegado ao pavilhão e deparar com os gigantes de outros países, de tanto gritar "forçaaaaaaa", "na cabeça, na cabeça!", "acorda!!! Badal! Badal!", "Olé Portugal, Portugal, Portugal", de sermos constantemente observados de soslaio pelos outros e ver rostos reprovados, de um estrangeirolas a gritar no meu ouvido e eu a ameaça-lo com "mas o que tu queres pá? Estás a espera que te grite ao teu ouvido é??”
De estarmos roucos de tanto gritar, e cada um de nós vai-se preparando em vestir o equipamento, o colete, o capacete, a conquilha, as braçadeiras e canelas quando o número de combate começa a aproximar-se lentamente. Nervos em franja, coração acelerado e ansiedade. Os gritos continuam incansáveis, mas eu não ouço, tirei as próteses auditivas no entanto vejo a equipa a torcer por mim enquanto caminho descalça para o tatami "é para ganhares, se perderes nem sei o que te faço!! ouviste??". Sorri.
Ali, tudo parece estar em suspenso, o tempo, eu, a minha adversária e denoto-lhe uma expressão de indiferença... tudo a postos, posição de combate, troco de calcanhar a conhece-la e logo no primeiro momento em que ela avança para a minha direcção numa fracção de segundos dobro a perna elevando para cima e a estico acertando em cheio na cabeça e BBBOOOOOMMMMM. Perde equilíbrio e cai, o árbitro faz contagem crescente de 1 a 7, e é KO. Ganho, passo à fase seguinte. Venço mais uma vez, sigo para as meias-finais, depois a finalíssima cada vez mais renhida, os meus pés ressentem e incham, gelo, muito gelo e as outras começam a temer e eu a elas, estou no ringue novamente e ela ri-se, penso "porque raios ela sorri? estás a tentar jogar comigo, é? pois, não vais conseguir" - renhido, competitivo, marco ponto e ela a seguir, aproveito fazer rotação no ar e raspo-lhe o capacete, ela agarra no meu pé e é falta de menos meio ponto, foi por pouco... desvio em contra-ataque e dou-lhe no peito dois pontapés duplos, bah e bah, defendo-me desviando nos flancos, ela cerca-me e não sei como escapar, preparo-me e Bahhhhh, ela contorce, sei que a magoei é agora ou nunca. Todos gritam, fazem gestos, acenam os braços. Badal duplo, pontapé na cabeça, olho para o placard de pontuação e é suficiente para andar à roda fazendo com que os segundos da final do 3º round se escasseassem porque os meus pés não aguentam... Acabou, venci.
É a vez dos outros, grito sentada num dos bancos, empolgada a assistir um combate de outro mundo dum colega meu contra um espanhol, os enfermeiros pedem-me para ficar quieta, mas não consigo!!! Um aí aí aí ali, porraaaaa acolá, dói para caraças. Tenho as próteses nos ouvidos, cabelo rabo-de-cavalo, o seleccionador espanhol com uma rapariga senta-se a meu lado, olham os dois para mim surpreendidos e diz: “Ustend, no oye bien?”.
Esbocei um riso tímido, “sí, ey no oyen bien, há algum problema?”, “No, es que estoy sorprendido de ver a una personna sorda en esta competención de classe A” e enquanto, o seleccionador olhava para o belíssimo estado dos meus pés, respondi: “ah, ainda bem para vocês, no es mi primera vez. He estado en Madrid y Barcelona”. Incredulidade e admiração naqueles quatro pares de olhos, dois verdes e dois castanhos, como se a minha vida fosse um belo conto de fadas. Pensei para mim: “Até cá fora, sou sensação!”.
Arrebentamos com o primeiro lugar em equipas. O regresso foi doloroso, mas satisfeitos pelos resultados. Portugal sempre em destaque.