o teu canto agudo que forçosamente me segreda na cóclea
é sublime!"
30 de Julho de 2007


Um idoso, sentado na mesa a bebericar uma cerveja da Super Bock tem os olhos fixos em mim, e a história começa já ali. Vejo o jornal, o correio da manhã pousada sobre a pedra de mármore redonda, avanço gentilmente a perguntar se posso pegar na gazeta.
Eis o barrigudo de barba rija, começa a enxergar para a bolsinha em que seguro o processador de fala no ombro, ao se aperceber da minha quase Surdez, eleva os braços e faz umas mímicas gestuais de morrer a rir, penso, obviamente indignada neste abismo onde impera a desinformação cultural abundante.
Reprimi calada, a espera do momento certo e respondi-lhe sem papas na língua, “Senhor, não o quero ofender, mas por favor fale comigo oralmente e deixe os gestos de lado, pode ser?”
Só me recordo, de o seu rosto ter ficado assombrosamente boquiaberto, incapaz de dizer qualquer palavra, a boca muda e o mundo repousou abatido naquele espaço barulhento, preso pela minha resposta fortuita e a minha satisfação infiltrara como o raio de sol a brilhar interiormente.
O homem continuou abalado, confuso e perdido nos seus pensamentos a questionar de como pode uma pessoa surda a falar, foi preciso pessoas amigas dar palmadas nas costas, e durante a minha permanência no clube não conseguiu desviar a curiosidade vibrante. Seguiu-me sempre com o olhar firme.