terça-feira, 9 de junho de 2009

Eleições do Parlamento Europeu - I


As nuvens cinzentas anunciavam a queda de leves aguaceiros e quando aproximei da viatura os pingos de água caiam levemente no pára-brisas. A rua tão vazia e silenciosa com as pessoas a dormitarem protegidas dentro dos casulos e só estariam de pé daqui a algum tempo para votarem.

Tinha chegado ao sítio, percorri o pavilhão a fim de encontrar a sala nº X para exercer a minha função com lisura e honestidade no cargo em que me foi confiado, já de frente no recito interior antevejo duas figuras femininas, uma conhecida e a outra nem por isso, de nariz empinado na casa dos 20.

Retirei o envelope da mala e abri, por momentos senti-me a ser observada como antevêem as grandes estreias, em particular por aquela rapariga e rezei para que esse instante passasse, pois não é nada confortável ter olhinhos excitantes e curiosos postos acima de mim nalguma razão depois do grande escândalo de há três anos, cujo presidente da mesa duvidou das minhas capacidades sensoriais, cognitivas e motoras sem me conhecer minimamente e muito antes de abrirmos as portas aos eleitores atingindo dimensões tempestivas que violam os direitos de Abril.

É evidente, não me renunciei e o caso foi encaminhado, discutido e arquivado pelo que posso dizer não me passo despercebida e daí ser alvo de bisbilhotice. Não me importo. O sucedido serviu-se de lição perante a democracia provida de uma fragilidade dominada de preconceitos débeis.

Ouvi uma pessoa bater a porta, e era a G da velha guarda um pouco ensonada a sorrir, lamentando o atraso e o relógio ainda não apontava as sete horas. Rasgamos os sacos que continham embrulhos lá dentro, papéis para afixar na parede logo à entrada da sala nºX. Assinámos os dados dos respectivos documentos, entretanto fui buscar o rolo de fita-cola escondida no saco de plástico pousada acima da cadeira e colar as folhas preenchidas de textos e outra em Braille.

Falta pouco para a abertura.

sábado, 6 de junho de 2009

7 Junho 2009


É amanhã que Portugal vai parar para votar o Parlamento Europeu, o Povo sairá à rua elegendo o voto que é seu por direito próprio e mais uma vez fui nomeada como membro da mesa, desta vez estarei presente como implantada.

Uma experiência para mais tarde recordar. É como se estivesse a reviver tudo de novo e novamente na tão almejada normalidade. Surdez? Ela não é impeditiva, pelo contrário impulsa os ideais e a força, sobretudo a VOZ interior e eu tenho-a embutida.

As minhas acções falam por si mesmas.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Suave Serenidade


Estou sentada no meu gabinete particular, o sol acaricia o pequeno espaço móvel e a janela está fechada, o que me surpreende é estar a ouvir os pipilares dos pássaros e as folhas de árvores a abanar com o vento.

São tantos. É tão bonito. Melódico.

domingo, 31 de maio de 2009

Festival Nacional de Bandas


Este fim-de-semana que passou foi tão cheio de sons, de músicas dançadas e tocadas com baquetas de madeira nos grandes cilindros cuja pele dura e esticada fez nascer inúmeras técnicas coreográficas de cada banda. Pulsos firmes em movimento. A sonoridade ecoou aos ouvidos de muita gente e no meu de forma ofuscante, fiquei deveras impressionada de escutar a um nível bastante elevado!

Rendi-me sob um calor intenso e solarengo!

domingo, 24 de maio de 2009

2º Encontro Nacional de Implantados


A ultimar os preparativos para o encontro que se aproxima, o segundo depois do sucesso aplicado no ano anterior em Coimbra. Decidimos mais uma vez, estender a territorialidade nos grandes centros urbanos do País e está a correr conforme o planeado.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Reajuste III


Enfiada neste gigantesco cilindro de betão, o vagão encurta ruidosamente e há qualquer coisa sensual na melodia que me convida a delirar de olhos semi-cerrados, o som já não me escapa por entre os dedos.

Parou para beber os meus passos imersos, e me sentei no banco com um lenço a assoar o nariz na companhia dos beeps aguçados que infiltrara nas minhas células ciliadas, estou encharcada de timbres que conduzem para o processador de fala e eu domino esta nova cidade a regar frutos maduros.

Santa Apolónia. Escalo degraus infinitos, observo a grandiosidade do espaço clássico, um misto de antiguidade e modernidade emaranhados, e quando dei por mim parada, o sol ainda alteava no firmamento azulado por detrás da cobertura. O cheiro suaviza e encanta o cenário, um aroma de gasóleo nos depósitos cheios vindos dos Comboios, ando e ando directa à muralha da cédula de destinos. Um senhor, simpático diz-me bom dia, retribuo com um sorriso e um bilhete para Coimbra-B no Inter-Cidades.

Um obrigado e uma boa viagem, mais uma vez agradeço. Vejo e escuto caminhando para a linha 2, a via do desembarque que se rasga um vislumbre de criaturas humanas, sujeitos estrangeiros possivelmente ingleses. Ouço as suas vozes, e é engraçado como o “Sh” o “H” e o “W” se pronuncia daquela maneira, ainda mais límpido e transparente no processador de fala.

Penetro a carruagem 23, figuro ali assentada 10 minutos antes da partida.

sábado, 9 de maio de 2009

Reajuste II


As pessoas iniciaram a retirada da embarcação, e as gaivotas batiam asas com gritinhos de prazer, levantei os olhos para o sítio onde o som fora projectado antes de subir a rampa tingida no vermelho – acastanhado da estação fluvial.
Retiro o telemóvel do bolso, são 8h53 e tenho de me despachar apressadamente, desço as escadas rolantes que me conduz ao metro, avisto iludida uma multidão de formigas organizadas e alinhados uns atrás de outros nas quatro filas abrindo o caminho para picar o passe magnético.

O mundo barulhento, não preciso de lhe tocar basta tão-somente ouvir os berros em ebulição, a batuca das vozes, os passos rasteados e os beeps inalteráveis abraçaram as células ciliadas fazendo-as a bailar dentro do meu cérebro auditivo. Visivelmente feliz no acto de escutar, e é maravilhoso!

Por vezes faltam-me palavras para descrever com exactidão. O meu universo mudou tanto em apenas 21 meses, transformando-o numa grande abundância de ruídos, e tal como agora que ouço á distância fascinada, um suave eco forçado e estrépito da carruagem a se aproximar ainda longe.

Quando as portas abriram, entrei adentro aos empurrões para que todos pudessem caber neste minúsculo espaço, apertada e de mão agarrada na argola de metal segurava o peso do meu corpo ágil e magro sempre que o metro fazia travagens bruscas.

Mudei de linha, da verde para a azul, e mais uma vez aguardo a chegada do meio de transporte que me levará a Santa Apolónia.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Reajuste


Tenho diante dos olhos um doce amanhecer, o astro-rei radia o rio sereno de onde observava através das janelas envidraçadas do Catamarã, a Lisboa inteira. Contemplo com tranquilidade e tudo que ouço são vozes vindas de todas as direcções a serem derrubadas pelo barulho ensurdecedor do motor e isto estremeceu-me instantaneamente.

De coração envolvido, escutei fascinada a circulação de múltiplas sonoridades, existia em mim uma sensação de segurança e felicidade arrebentada. Um desconhecido encorpado, de barba rija sentado atrás de mim folheava o Correio da Manhã, podia ouvir o sopro das páginas a virar-se ásperas.

Um apito do barco começou a soar, trata-se de aviso, o Catamarã do Barreiro fura de relance em alta velocidade na fachada ultrapassando-me gigante e monstruoso na robustez intrigante com vibrações de ondas, balançando ligeiramente.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Coimbra de Novo


O dia aproxima e com ele o calor embarca sem cortinas senão sombras atenuadas pela protecção das árvores brotadas de Coimbra. Agrada-me o escape, o silêncio murmurante das vozes intercaladas e com a luz dos teus olhos castanhos escuros continuas a andar, a viver e redescobrir cada pedaço de alma nesta majestosa e elegante Cidade.

No regresso hás-de notar a diferença do reajuste, não vais gostar de inicio e mais uma vez será fase de readaptação. Se te custar imenso, podes sempre voltar ao programa antigo e assim facilitares a transição sem grandes percalços desesperantes.

Coimbra!
Cá vou eu.