As nuvens cinzentas anunciavam a queda de leves aguaceiros e quando aproximei da viatura os pingos de água caiam levemente no pára-brisas. A rua tão vazia e silenciosa com as pessoas a dormitarem protegidas dentro dos casulos e só estariam de pé daqui a algum tempo para votarem.
Tinha chegado ao sítio, percorri o pavilhão a fim de encontrar a sala nº X para exercer a minha função com lisura e honestidade no cargo em que me foi confiado, já de frente no recito interior antevejo duas figuras femininas, uma conhecida e a outra nem por isso, de nariz empinado na casa dos 20.
Retirei o envelope da mala e abri, por momentos senti-me a ser observada como antevêem as grandes estreias, em particular por aquela rapariga e rezei para que esse instante passasse, pois não é nada confortável ter olhinhos excitantes e curiosos postos acima de mim nalguma razão depois do grande escândalo de há três anos, cujo presidente da mesa duvidou das minhas capacidades sensoriais, cognitivas e motoras sem me conhecer minimamente e muito antes de abrirmos as portas aos eleitores atingindo dimensões tempestivas que violam os direitos de Abril.
É evidente, não me renunciei e o caso foi encaminhado, discutido e arquivado pelo que posso dizer não me passo despercebida e daí ser alvo de bisbilhotice. Não me importo. O sucedido serviu-se de lição perante a democracia provida de uma fragilidade dominada de preconceitos débeis.
Ouvi uma pessoa bater a porta, e era a G da velha guarda um pouco ensonada a sorrir, lamentando o atraso e o relógio ainda não apontava as sete horas. Rasgamos os sacos que continham embrulhos lá dentro, papéis para afixar na parede logo à entrada da sala nºX. Assinámos os dados dos respectivos documentos, entretanto fui buscar o rolo de fita-cola escondida no saco de plástico pousada acima da cadeira e colar as folhas preenchidas de textos e outra em Braille.
Falta pouco para a abertura.







