sábado, 9 de maio de 2009

Reajuste II


As pessoas iniciaram a retirada da embarcação, e as gaivotas batiam asas com gritinhos de prazer, levantei os olhos para o sítio onde o som fora projectado antes de subir a rampa tingida no vermelho – acastanhado da estação fluvial.
Retiro o telemóvel do bolso, são 8h53 e tenho de me despachar apressadamente, desço as escadas rolantes que me conduz ao metro, avisto iludida uma multidão de formigas organizadas e alinhados uns atrás de outros nas quatro filas abrindo o caminho para picar o passe magnético.

O mundo barulhento, não preciso de lhe tocar basta tão-somente ouvir os berros em ebulição, a batuca das vozes, os passos rasteados e os beeps inalteráveis abraçaram as células ciliadas fazendo-as a bailar dentro do meu cérebro auditivo. Visivelmente feliz no acto de escutar, e é maravilhoso!

Por vezes faltam-me palavras para descrever com exactidão. O meu universo mudou tanto em apenas 21 meses, transformando-o numa grande abundância de ruídos, e tal como agora que ouço á distância fascinada, um suave eco forçado e estrépito da carruagem a se aproximar ainda longe.

Quando as portas abriram, entrei adentro aos empurrões para que todos pudessem caber neste minúsculo espaço, apertada e de mão agarrada na argola de metal segurava o peso do meu corpo ágil e magro sempre que o metro fazia travagens bruscas.

Mudei de linha, da verde para a azul, e mais uma vez aguardo a chegada do meio de transporte que me levará a Santa Apolónia.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Reajuste


Tenho diante dos olhos um doce amanhecer, o astro-rei radia o rio sereno de onde observava através das janelas envidraçadas do Catamarã, a Lisboa inteira. Contemplo com tranquilidade e tudo que ouço são vozes vindas de todas as direcções a serem derrubadas pelo barulho ensurdecedor do motor e isto estremeceu-me instantaneamente.

De coração envolvido, escutei fascinada a circulação de múltiplas sonoridades, existia em mim uma sensação de segurança e felicidade arrebentada. Um desconhecido encorpado, de barba rija sentado atrás de mim folheava o Correio da Manhã, podia ouvir o sopro das páginas a virar-se ásperas.

Um apito do barco começou a soar, trata-se de aviso, o Catamarã do Barreiro fura de relance em alta velocidade na fachada ultrapassando-me gigante e monstruoso na robustez intrigante com vibrações de ondas, balançando ligeiramente.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Coimbra de Novo


O dia aproxima e com ele o calor embarca sem cortinas senão sombras atenuadas pela protecção das árvores brotadas de Coimbra. Agrada-me o escape, o silêncio murmurante das vozes intercaladas e com a luz dos teus olhos castanhos escuros continuas a andar, a viver e redescobrir cada pedaço de alma nesta majestosa e elegante Cidade.

No regresso hás-de notar a diferença do reajuste, não vais gostar de inicio e mais uma vez será fase de readaptação. Se te custar imenso, podes sempre voltar ao programa antigo e assim facilitares a transição sem grandes percalços desesperantes.

Coimbra!
Cá vou eu.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Aeroporto em Lágrimas


Hoje o dia foi bastante emotivo, um misto de melancolia e comoção numa tarde agradável, a tristeza esteve sempre presente e afundadas em lágrimas da partida de alguém, da filha, da namorada e amiga. Foram tantos os abraços, choros corridos e dois beijos dados na face aliado a mais dois pares de braços unidos, e um sorriso esboçado com os olhos esbugalhados antes de entrar no check in do aeroporto de Portela. Segui-a com o olhar acenando até desaparecer-nos da vista.

Separadas para todo o sempre na distância dos continentes, as saudades reinam agora nas recordações as muitas conversas adultas segredadas, os amores e paixões, das aventuras cocleares, das doces e idiotas gargalhadas nas viagens que percorremos acidentalmente e o engraçado foi termos conseguido sempre chegar ao sítio nas horas certas.

Lá vai ela, rumo à vida nova e um dia será a minha vez.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Registo


Desci uma série de degraus, e em seguida virei à direita percorrendo um vasto corredor que dá acesso ao Bar, penetrei o interior do templo artístico trivial e caminho até ao balcão, a empregada olha-me e sorri. Digo, boa tarde queria uma sandes mista, e um... vira-me de costas muito antes de terminar o pedido. Observo-a, de luvas calçadas nas mãos, cabelo apanhado e pele morena.

Num ápice repousa a sandes num prato quadrangular, e ali disparo com o queria também o néctar de pêssego, e do meu bolso uma moeda cai tilintante, neste mesmo instante em que viro o rosto abaixando-me abruptamente de modo conseguir apanha-la antes de rolar e esconder-se debaixo da mesa de vidro. Ouço uma palavra, uma pergunta audível destapada suavemente no córtex da minha memória auditiva: "fresco?"

Recito: "não, é natural".

quarta-feira, 22 de abril de 2009

SUCESSO


Os olhos da pequena e corajosa M. cruzaram nos meus ainda um pouco distante da anestesia, uma expressão de concentração absoluta do que se estava a passar em redor mas no fundo ela sabia que eu estava ali diante do seu novo estado, orgulhosamente recém-implantada, e sempre a me perguntar se tinha ele (o Implante Coclear) lá dentro.

Um simples "sim" iluminou o seu sorriso. Finalmente ela têm-no, e daqui um mês vai activar e pôr as células ciliadas a dançar e enviar impulsos eléctricos para o cérebro e interpreta-los como som, o seu sorriso será intenso muito mais que agora, movida pela curiosidade agitada e o seu mundo vai ser GRANDE e tremandamente mágico!

Feliz.
Maravilhosamente Feliz.
Todos.
Os Pais.
A Família inteira.
Os amigos.
Os colegas.
O J.P surdocego e bi-implantado.
Eu.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Evoluções Auditivas


Não posso acreditar no milagre que é a de ouvir interpretando o grande quebra-cabeças de palavras exprimidas na acção do pensamento no próximo, de pessoas familiares e percebe-las quando não me mostram as bocas falantes, lábios que dançam ensaiados de simetrias e tudo que lhes ocupa espaço são traços para os olhos de quem não ouve.

Dentro da casa as vozes permanecem mágicas, e escuta-las é ainda fascinante, ouvir atentamente movendo a cabeça sozinha pela estrada dos sons que com ou sem esforço decifro chiares, barulhos e o cantarolar de um pássaro engaiolado na varanda. Está frio, muito vento vem de lá fora e com as folhas a dançar incessante em mês de Abril.

Estou na cozinha a preparar o jantar, uma mariscada e coube-nos, a mim e ao meu namorado tratar da sapateira onde por sinal somos mestres exímios de um segredo que adoça um sabor bombástico. Ele, cortava pedaços e disse algo, não percebi nada devido ao grande ruído que existia à volta, pedi para repetir e determinado repreendeu-me com um: "tenta perceber no que te vou dizer, ok?"

Assenti empolgada, timidamente o timbre da sua voz entra em mim, e apanho o "Vamos pôr ...&%$#=#!%..." não entendi a última silaba, só apanhei o A no final da letra, respondo: "repete só a última palavra"... escuto e bolas! é difícil saber que palavra se trata, não conheço, talvez seja um termo restrito no meu vocabulário quotidiano. É cerveja! Ora aí está! Não bebo, sabe tão mal... horripilantemente.

No dia seguinte, viajo para Lisboa de comboio e ligo o MP3 ao Implante Coclear, fico a ouvir as faixas todinhas sem queixar e sorrio observando o Tejo. No regresso a mesma rotina desligando-me do mundo, não existo ali... estou a mimar o meu ouvido implantado de canções.

Preciso de ir a um sítio, raio de tempo, o meu cabelo voa aos milhares e os fios castanhos rebeldes viram e reviram do avesso, fazem uma festa danada enquanto acelero os passos para fugir das gotas de chuva, pequenas e leves gotas de prata. Refugiei-me para dentro do edifício, está abafado e cheira à máquina, vejo montes de computadores em segunda mão estendidos nas prateleiras por ordem alfabética.

Antes de entrar no departamento, uma música ritmada de um telemóvel começa a tocar impaciente e alguém atende, reconheço a pronúncia vocal e é a da minha figura materna, fala demasiado depressa, enrolando as palavras todas. Questiono se um dia irei entender tudo o que as pessoas dizem, e nesse momento um golpe de sorte percorreu de uma ponta à outra a minha angústia amontoada que numa distracção apanhei uma frase de forma perceptível: "não há problema" no meio de tantos diálogos. Revirei os olhos estupefacta!

Fui encarregue, ainda absorta em pensamentos perante o fortuito acaso de que um dia lá chego, com o tempo... na altura certa. Ouvir já faz de mim FELIZ.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Implante Bilateral


Estou para aqui pensar, há meses de como seria ouvir nos dois ouvidos em simultâneo, ambos implantados, existiria diferenças? Ouviria melhor as origens dos sons específicos? Será que no meu ouvido direito, considerado o pior morfologicamente obteria tanto sucesso como a da esquerda?

Sinto falta de ouvir no direito, estranhamente ausente e surdo. Desestimulado e submerso, despovoado de sons. Não ouço nada desse lado com ajuda da prótese auditiva, e é verdade que o ganho que recebo por intermédio do Implante Coclear na esquerda é ligeiramente superior. Não tem comparação possível.

Estou indecisa... resta-me sonhar, porém há uma coisa que me está a pôr insegura, sob um verídico cujo sabor amargo é impetuoso, clinicamente o direito não está em condições de implantar... seria necessário um estudo aprofundado e meticuloso, de modo saber se o nervo auditivo responderia aos estímulos prévios dos eléctrodos inseridos cirurgicamente dentro da cóclea.

domingo, 12 de abril de 2009

Curta Duração


Soube bem escutar o irrequieto mar, das ondas a rebentar ondulantemente abraçando o areal temperado em sal e com ele a brisa indomesticável encheu de espanto o meu ouvido implantado, é tão bom ouvir... deliciosamente... a todo o instante.