
Não posso acreditar no milagre que é a de ouvir interpretando o grande quebra-cabeças de palavras exprimidas na acção do pensamento no próximo, de pessoas familiares e percebe-las quando não me mostram as bocas falantes, lábios que dançam ensaiados de simetrias e tudo que lhes ocupa espaço são traços para os olhos de quem não ouve.
Dentro da casa as vozes permanecem mágicas, e escuta-las é ainda fascinante, ouvir atentamente movendo a cabeça sozinha pela estrada dos sons que com ou sem esforço decifro chiares, barulhos e o cantarolar de um pássaro engaiolado na varanda. Está frio, muito vento vem de lá fora e com as folhas a dançar incessante em mês de Abril.
Estou na cozinha a preparar o jantar, uma mariscada e coube-nos, a mim e ao meu namorado tratar da sapateira onde por sinal somos mestres exímios de um segredo que adoça um sabor bombástico. Ele, cortava pedaços e disse algo, não percebi nada devido ao grande ruído que existia à volta, pedi para repetir e determinado repreendeu-me com um: "tenta perceber no que te vou dizer, ok?"
Assenti empolgada, timidamente o timbre da sua voz entra em mim, e apanho o "Vamos pôr ...&%$#=#!%..." não entendi a última silaba, só apanhei o A no final da letra, respondo: "repete só a última palavra"... escuto e bolas! é difícil saber que palavra se trata, não conheço, talvez seja um termo restrito no meu vocabulário quotidiano. É cerveja! Ora aí está! Não bebo, sabe tão mal... horripilantemente.
No dia seguinte, viajo para Lisboa de comboio e ligo o MP3 ao Implante Coclear, fico a ouvir as faixas todinhas sem queixar e sorrio observando o Tejo. No regresso a mesma rotina desligando-me do mundo, não existo ali... estou a mimar o meu ouvido implantado de canções.
Preciso de ir a um sítio, raio de tempo, o meu cabelo voa aos milhares e os fios castanhos rebeldes viram e reviram do avesso, fazem uma festa danada enquanto acelero os passos para fugir das gotas de chuva, pequenas e leves gotas de prata. Refugiei-me para dentro do edifício, está abafado e cheira à máquina, vejo montes de computadores em segunda mão estendidos nas prateleiras por ordem alfabética.
Antes de entrar no departamento, uma música ritmada de um telemóvel começa a tocar impaciente e alguém atende, reconheço a pronúncia vocal e é a da minha figura materna, fala demasiado depressa, enrolando as palavras todas. Questiono se um dia irei entender tudo o que as pessoas dizem, e nesse momento um golpe de sorte percorreu de uma ponta à outra a minha angústia amontoada que numa distracção apanhei uma frase de forma perceptível: "não há problema" no meio de tantos diálogos. Revirei os olhos estupefacta!
Fui encarregue, ainda absorta em pensamentos perante o fortuito acaso de que um dia lá chego, com o tempo... na altura certa. Ouvir já faz de mim FELIZ.