segunda-feira, 23 de março de 2009

Cartaxo


Como havia de ser, mais uma digressão musical desta vez para o interior de Santarém, no concelho de Cartaxo e é mesmo uma vila lindíssima, bastante calma por natureza e soube bem distanciar da confusão metrópole.

Fui ver a minha irmã tocar na combinação da arte e ciência orquestral, um conjunto de melodias sopradas nos instrumentos cativantes, sons divinais mergulharam adentro. Sinfonias. Fiquei completamente extática tendo fechado as pálpebras por instantes na maior parte do tempo até os músicos cessarem de vez e as palmas ecoaram o pavilhão.

Intervalo.

Tenho na mão uma folha A4, estou a ler um pequeno texto e ouço alguém a falar no microfone transparecendo uma voz grave que soa à Pato Donald, e um vislumbre desperta o córtex da memória auditiva em mim "dois mil e seis". Paro e rebobino a questionar, ouvi mesmo?! Ele disse "dois mil e seis?"

Pergunto à minha mãe sentada a meu lado, sussurrando no ouvido "o locutor disse dois mil e seis não foi?" e aqueles olhinhos castanhos cintilantes resplandece ao me citar "dois mil e três, e não seis" com um sorriso encantador.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Dentro do Carro


Sentada na fila de trás do carro, os dois homens conversam, um ao volante e o meu namorado no lugar dianteiro de ocupante. Ouvia as suas vozes ásperas e graves, nasaladas em mim mais concretamente dentro do cérebro no meio agitado da combustão interna, o motor.

Uma vivalma de ruídos exaltados, e sem esperar capto três palavras de claro entendimento nas cordas vocais exprimida oralmente pelo meu namorado: "estás a entender?"

Pisquei os olhos, admirada pois a conversa era entre os dois. Simplesmente discriminei de modo inesperado, mais uma conquista! Yupi.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Diálogo


Hoje esteve um dia esplêndido com alguns atritos, porém não podia deixar isso de lado e conversa puxa conversa numa tarde quente que mais parecia Verão, olhei-o de relance e li os lábios a pergunta que fizera:

"Queres comer gelado?"
"Não"

Virei o olhar, e estendi-o ao horizonte centrada nos meus pensamentos, mas não me impossibilitou de ouvir um fio de palavras invisíveis em tom grave:

"De certeza?"
"Sim"
"Absoluta?"
"Sim, não me apetece e tu queres?"

Ri interiormente por finalmente entender a voz dele, essa voz que tanto buscava e ainda busco até ao fim do mundo. Essa voz que me embala e me faz pulsar cada vez com mais intensidade neste amor sereno.

sexta-feira, 13 de março de 2009

A Paragem do Silêncio



Tenho momentos a sós, aliciando-me a ouvir música através do MP3 ligado ao diapositivo do processador de fala na curta viagem a Lisboa e todos os sons banham o meu ser outrora silencioso, aquele silêncio omisso e perturbante que lentamente emudecia os rasgares da infância e adolescência.

Chorei horas a fio num corpo de meninice, cuja consciência despertara bastante cedo, um sofrimento que superava a qualquer prazer… a de não ouvir. Foram tantas as dores segredadas e confidentes em mim. Tremi por dentro. Queria tanto ouvir as palavras audíveis e brilhantes, acompanhar a música e dançar. Sentir os sons a penetrar no meu cérebro, discriminar cada acorde de uma canção e não colocar as minhas mãos junto às colunas enormes que dali vibravam músicas.

Quis apenas sair desse abominável mundo taciturno. Chega de silêncio, não posso mais, não é meu e não lhe pertenço de maneira nenhuma. Que sinto quando olho para ele? Vazio e sem vida, habita o fim do mundo.

Abano a cabeça ao som da guitarra rockeira, ouço a voz do cantor, a bateria e no ambiente de fundo os passageiros conversam, o troço da linha ferra, o altifalante anuncia as próximas paragens e olhando para isto tudo ESCUTO em permanente redescoberta no meu ouvido implantado. Percebo os sons, identifico os sons, acho os sons em qualquer lugar e a qualquer instante! Saboreio as vozes de quem amo. Os meus olhos agora tocam os olhos dos outros e não a boca, já não preciso das bocas para eu ler as palavras. Para isso a tarefa cabe ao ouvido implantado captar subtilmente sílaba a sílaba as dicções da Língua Portuguesa.

A faixa mudou, depois do Rock segue as teclas do piano, reconheço e é a nona sinfonia de Beethoven, agora fecho os olhos e tímidas cócegas chapinham no meu interior á luz do dia, é uma liberdade imponente. O silêncio já não me prende. Nunca.

domingo, 8 de março de 2009

Explorando Descobertas


Cheguei a casa depois de passar uns dias fantásticos fora, segui o corredor e quando aproximei junto da porta do escritório dei um passo atrás. Ouvi algo. Um som familiar. Um pássaro a cantar desafinado, resolvi abrir a janela e procurar o misterioso cantor de ópera...

Avistei um canário amarelo engaiolado, preso nas grandes grades que lhe dá espaço suficiente para abrir as asas e dar uns pulinhos naqueles cantos, começou logo a abrir o bico produzindo sons cadenciados no raiar da tarde solarenga.

Continuo a ouvi-lo.

Fascinante!

terça-feira, 3 de março de 2009

Asas da Mudança


Hoje de manhã fiquei a pensar, porque raio não existe nenhum site de origem portuguesa referente a Implantes Cocleares se esta técnica implementou na década 80? Em outras palavras, existe até um endereço mas está inacabado e o grafismo muito aquém do desejado...

Em breve reúno um grupo de Cyborg's criativos e começaremos a escalar incentivando os debates/estudos/evolução tecnológica com os profissionais da alta patente médica ligados a esta natureza biónica. Graças a eles estamos aqui a ouvir, tirando-nos da Surdez a milhares de crianças e adultos, o número não engana ninguém: mais de 600 implantados em território nacional.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Coimbra (II)


Ainda planeei apanhar a camioneta em vez do Táxi, houve qualquer coisa e por via das dúvidas não arrisquei, segui no Táxi cambaleando o passeio defeituoso e o sol aureolava o centro de Coimbra.

Consumi e embebi a paisagem como a da primeira vez, e o veículo de repente vira a um atalho incógnito, tenho os sentidos em vigilância e fico a pensar “Queres ver que o taxista percebeu mal?!” não digo nada ainda, não antes de ter a certeza, enxergo o caminho e reconheço a ponte acolá na via-rápida. Está cortada e em obras. Alivio-me na alcatifa dividida em dois sentidos onde passam camiões gigantes carregados de pedras às costas. Pó, muita poeirada ergue á nossa frente. Rotundas. Curvas. Cheguei e os pássaros pipilam dedicando-me uma linda sinfonia.

Na entrada do Edifício, vejo uma família, o pai, a mãe, o irmão e o mais novo de três anos bi-implantado, um processador de fala em cada orelha, fica tão giro assim. Um mimo. Ascendi degraus e deparei na extensão um senhor ouvinte que aguardava a consulta.
Reconheço o grito de criança dentro da sala ao longe, a aprender ouvir no brotar das primeiras palavras ensinadas. E quando as duas mãos se unem á palmatoada é o triunfo da conquista, mãos juntas, um punhado de sons iguais, repetidos em estilo.

Encanta-me.

Apoiada de costas na parede, vejo a terapeuta e um rapazinho loiro, de olhos azuis, parece-me ter 2 anos a sair do recinto terapêutico de mãos dadas com o progenitor, a mãe visivelmente confusa esconde no sorriso o sofrimento, a culpa encravada por o seu filho ter nascido sem audição. Acusa-me com o olhar mais patético que existe, de desprezo e inveja. A frialdade humana levou-a enfrentar as circunstâncias, zangada com a vida, e sobretudo consigo própria.
Não resisti, disse bom dia no esboçar do riso. Mirou-me furiosamente, morta em expressões.

Engoli em seco. Perplexa por ainda não se ter entregado á redenção.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Coimbra (I)


Ainda é noite no cais fluvial, o silêncio reina e a cegueira da madrugada infiltra o grande baile de luzes na margem lisboeta ali ao fundo, sob o meu olhar ensonado que repousava nas águas do Tejo. O barco aproxima ainda longínquo, ouço o seu som motorizado e o vento com o seu odor salgado mergulha nas minhas narinas, o cheiro do mar, das algas ainda submersas e no fim revejo-me. Tudo é diferente.

à bordo, rego a generosidade em cada olhar, pessoas dotadas de enredos simbólicos e uma rapariga senta-se á minha frente encostando a cabeça na sebe do barco que treme. Olha-me e sorri encharcada de inércia, as pálpebras semi-fechadas e os cabelos molhados em água.
Saio do barco no meio de gentes, e depois do Cais Fluvial rumo a Santa Apolónia serenamente, devagar de metro e é então o guardião dos sons renasce amanhecendo os rugires de uma selva citadina.

Sigo o caminho entusiasmada, estou já nas bilheteiras e digo: “Bom dia, um bilhete para Coimbra-B” e a voz soa-me fina e suave ao meu ouvido implantado “È para às 07h30?”, eu escutava distraidamente quando tentava retirar a carteira da mala, “sim é, no InterCidades”.

Bilhete pago. Vou ao café e tomo o pequeno-almoço, olho para as horas, ainda tenho meia hora e mais uma vez contemplo o espaço vazio, despovoado cuja claridade desabrochava o quente do sol embaciado pelo vidro do telhado.

Entrei na carruagem, avistei o número e ali permaneci com lugar cativo á janela rumo a Coimbra, e como sempre mirei sob uma intensa névoa alaranjada o fulgor imponente da Natureza. E todos os sons me invadiram, bastou fechar os olhos por um momento e os ruídos banais eram melodias para mim, a musicalidade do metal a rugir como um beijo dominado, o eco ao passar por um túnel cintilaram as células ciliadas, as portas a reabrir e fechar, o altifalante. Senti bem, aninhada como os bonecos de peluche ao deitar. Sons. Ruídos.

Definitivamente eles pertencem-me.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

No Horizonte

Nucleus Freedom - Ipod

Coimbra à espreita, absorver-te sonoramente em cada segundo o deslumbramento cadenciado pelo despertar do dia. O barulhar das rodas férreas, os apitos das estações, as vozes, os telemóveis a tocarem e eu estarei sentada a ouvir música, canções de todos os géneros de acordo com a minha preferência, no MP3 conectado ao Implante Coclear Nucleus Freedom multi-funcional.

Vou limpar a alma e maravilhar os acordes da canção à beira da janela, a observar os campos agrestes cheios de verdura e o sol ainda por nascer. Estarei ansiosa por pisar o solo de Coimbra, o toque mágico da cidade... esta cidade alegre e desperta que me põe os pés em pico sob o Rio do Mondego.

Até já Coimbra!