Anteontem, depois de ter tido uma manhã atribulada na metrópole lisboeta tornou-se evidente o cansaço que se fazia sentir no meu corpo, quase esgotada mentalmente de tanta pressão acima dos ombros.
Sentada no banco metálico da estação de comboios, uma aragem gélida batia-me o rosto esvoaçando os milhares fios de cabelo e o processador de fala de vez enquanto espreitava o mundo.
Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii. Credo!
Um apito muito agudo, e depois o altifalante anuncia, no entanto percebe-se pessimamente e só consigo apanhar bocados da frase "Senhores Passageiros ........ comboio ...... Setúbal ......." - digo eu, está a chegar.
Mesmo á distância, as rodas chiavam, gosto do som.
As portas abrem automaticamente, entro, desço as escadas para o "rés-do-chão" desesperada por um sossego momentâneo e vejo o jornal deitado na polpa, pego-o para manter a leitura em dia sobre as tendências da actualidade, ainda se fala sobre a vitória e momentos históricos de Barak Obama.
A seguir, a famosa crise financeira, salto a página procurando o soduko - este jogo fascina-me tanto mas tanto e nunca fui boa em números, cada dia me surpreendo. Concentrada lá ia resolvendo o problema existial do quadrado, nem me tinha apercebido a presença do revisor a meu lado, até eu ouvir um tímido "desculpe!", sobressaltei-me!
Um pouco a leste, mexi as mãos apressadas e retirei das calças o passe, no entanto os meus dedos escorriam sempre que tentava tirar o passe do plástico, e novamente o revisor pronunciou "não é preciso" - olhei embasbacada.
Tinha discriminando as palavras sem fazer leitura labial! E eu percebi nítida e claramente - inteira, sem intervalos e paragens no tempo vocal. Soletrou tudo seguindo.