
A noite batia um duelo silencioso, a ausência de ruído incomodava ao ponto de chocar contra os meus sentidos sem piedade. O meu silêncio é diferente daqueles que ouvem, para mim é uma privatização sensorial, o abismo absoluto e atribulado numa tempestade sem fim.
Tinha o Implante Coclear ligado, mesmo assim não ouvia nenhum burburinho em redor, apenas escuridão entre as brumas do calor suado, a mistura de odores pairava no ar, um perfume salgado e bronzeador dentro do quarto. A janela aberta. O silêncio era igual ao anterior, demasiado silencioso e quieto.
Não conseguia fechar os olhos, andei às voltas na cama que com o movimento do meu corpo, acariciando suavemente o lençol, os sons incendiaram-se cheios de energia e senti-lo dentro de mim, renasci.
Pouco a pouco, múltiplos ruídos surgiam como formigas, o ronronar pesado e ferrado dos três elementos da minha família mergulhados no sono profundo, uns mais leves e densos no acto de respirar.
Cerrei os olhos, só para escutar melhor, concentrei em tudo que pude, ouvia somente o bafo quente na infinita distância das suas bocas no vai e vem, o mundo lá fora iluminado por um poste de luz e me acordou, as estrelas brilhantes no alto do céu, cintilou a minha visão.
Levantei devagarinho sem acordar ninguém, dei quatro passos em direcção á janela aberta, mirei a bonita paisagem estrelar e o meu ouvido implantado apanhou uma frequência baixa e aguda, o que é? Parecem os grilos a cantar…
Fiquei arrebentada com a melodia, assim fiquei pela noite toda, ouvir esta grandiosidade.
