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segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

A Era dos Ciborgues


O aperfeiçoamento de uma realidade, a tecnologia biónica ao serviço do corpo humano e muitas surpresas vão surgir dentro de pouco tempo e eu espero vê-lo completamente imerso, para já deixo no ar uma certa aura misteriosa.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Janeiro


E só ao 5º dia do ano 2010 decidi marcar os progressos auditivos ainda que similares no meu caso em particular, ontem a embriaguez descampou o passeio em água e de guarda-chuva aberto na mão ouvia os pingos a abraçar quase incontrolável no tecido impermeável.

Sentir o vento frio a tocar no meu rosto e fechar os olhos momentaneamente, as folhas balançavam, os pingos beijavam o solo e tudo isto foi para mim inesquecível ao ponto de aperceber que a cada dia a audição está mais aguçada e tão presente como nunca.

Subo as grandes escadas do edifício, enfiando-me numa sala amarfanhada de humidade e revejo os meus colegas ainda a curar da ressaca. Alguém lê em voz alta um papel qualquer, aproveito juntar-me à M. que segura a folha e dificilmente sei em que parágrafo o locutor procede na leitura.

Mas tudo muda, quando inexplicavelmente o meu ouvido implantado toma o lugar destacado a par da minha visão na literacia, que através de um conjunto de palavras reconhecidas esclareço o que entendo por estrutura literante auditiva. Tem sido bastante frequente, não cabe em mim tanto contentamento.

Mais um passo foi dado, que venham outros mas sempre cercada de estrelas sonoras.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Preciso de Re-Programar


Anteontem enviei um email para o técnico J.H, pois senti a necessidade de dissipar algumas dúvidas acerca da programação do processador de fala apesar de estar a ouvir bem com o IC. Mas tenho a sensação de os sons estarem um pouco abafados como se as vozes estivessem a falar debaixo de um cobertor e gostaria que os sons fossem um pouco mais abertos e não filtrados, mais soltos e não aprisionados.

Não sei se é por ter feito o reajuste em Setembro, e após 3 meses o meu cérebro querer mais do que aquele mero interface, encontrar um ajuste perfeito em termos de volume e sensibilidade, bem como a profundidade de campo à minha actual condição auditiva.

Alguma coisa mudou também a nível de percepção e discriminação em ambientes ruidosos, que sufoco! A leitura labial não combina com a fonética verbal em tempo real, nem o inverso. São nestas alturas, ponho-me a pensar se toda esta poeira barulhenta resolveria com a implementação bilateral no meu ouvido direito?

Todavia, no dia seguinte (ontem) recebi resposta dele com pré marcação para Janeiro, espero guardar o programa actual no P1, e o recente no P2 caso não conseguir acostumar nele. Pretendo também melhorar a qualidade sonora do IC em ambientes ruidosos no P4.


domingo, 6 de dezembro de 2009

Momentos Biônicos


Um frio que teimava alojar pela noite adentro, seguimos de carro na auto-estrada a caminho de Setúbal para buscar a minha irmã numa Escola de Música. Só de relembrar o som do vento que batia nos vidros do carro, a comoção de reter esse instante. A alegria de ouvir. Os sentimentos contraditórios do tempo em que o silêncio foi rei destemido durante duas longas décadas na minha vida, desde a infância até à adolescência.

O sol desce, escondendo por detrás daquelas montanhas agrestes no horizonte. Barulho continuado, do motor, do clique dos pedais de mudança e travagem. Das canções portuguesas, das vozes embaladas pela sonoridade da guitarra. Vem-me à memória a distinção do primeiro ligar e o quão diferente estou hoje a nível de audição, se naquela altura depois de ter saído da sala de activação ouvia apenas as frequências agudas, o bálsamo das vozes e os graves teimavam em não penetrar o meu cérebro. Aliás sempre estiveram presentes, mesmo naquele momento, e ele, o meu cérebro não reconhecia essas tonalidades graves. Parecia um zumbido a ecoar intrinsecamente.

Fomos para casa de autocarro, dei-me conta de que não conseguia ouvir com clareza através do processador de fala as vozes, devido em grande parte ao zumbido chato e contínuo, que na verdade era som. Os graves. O ruído motorizado. Martelava dentro de mim, só no final do dia o zumbido passou a ser som, alentado de nitidez. Era capaz diferenciar o timbre de vários transportes rodoviários. Só necessitei de um dia para o cérebro habituar aos sons eléctricos do processador de fala, assim fui melhorando com o tempo, cada vez mais.

Todo o implantado, necessita de um processo de adaptação e aprendizagem, é preciso ter consciência que os sons não chegam tudo ao mesmo tempo. Primeiro sentem-se sensações auditivas, mais tarde são considerados como sons. Convém, no entanto abreviar: cada caso é um caso.

Estou na Escola de Música, naquele curto espaço de tempo alguém toca piano. Esse som tão familiar, esse som que reconheci logo sem nunca antes ter ouvido com a prótese, esse som amado que guardei antes de ensurdecer estava em evidência num piscar e fechar os olhos. Uma suspeita tornara na certeza, que lentamente iria transformar a minha vida plena de redescobertas constantes.

A vida tirara-me um sentido, e mais tarde a tecnologia devolveu-ma graciosamente, de braços estendidos perante a possibilidade, bastou escolher e isso é bonito de se ver. Decifrar os sons, no corpo de adulta mas criança ao mesmo tempo. É magia. O deslumbramento de um novo renascer.

Em casa, a fazer o jantar. O som do gás bombear a chama do fogão, a carne fritar, o tilintar agudo dos copos a chocarem uns nos outros. A chuva cair lá fora. As folhas dançar. As vozes dos repórteres do Telejornal na televisão. Os passos nas escadas do prédio. O choro de criança alugares no andar de cima. A música renascida do computador no quarto do lado. A minha irmã tocar Saxofone. O barulho dos talheres que pouso na mesa. O puxar do autoclismo. Cada som reconhecível numa espiral que não cessa e se encontra misturado.

Sentados na mesa, conversamos distraidamente como qualquer família unida. Políticas. Educação. Vidas alheias. Coisas pessoais. Acontecimentos. Novidades. Um telemóvel toca na hora de jantar, a A. levanta-se para atender e a gente vai comendo, petiscando... ela demora-se, e uma voz constrói palavras enquanto vejo o jogo do Benfica.

- "Bicho?"
- "Anda cá Bicho"
- "Espera, já vou!"
- "Então estamos todos a tua espera"

Virei de relance, matutei e procurei a confirmação do que tinha acabado de descriminar. Ouvi! Percebi! Mais uma vez com todo aquele barulho circundante da cozinha. Sim. Estou lá! Construindo a maravilhosa capacidade de ouvir.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Diálogos

(Photo de Adriane)

Na segunda-feira à tardinha, dentro do carro ruidoso embalavam quatro vozes, conseguia distingui-los, e pelo contexto da conversa pescando palavras soltas falavam de lombas na estrada, até decifrar um "ahhh, é verdade" paterno.

Anoitecera, já dentro do apartamento vestia um blusão e quando ouvi a minha irmã e mãe a conversarem entre si:

Irmã - Mãe!
Mãe - O que é?
Irmã - os meus fooooones???
Mãe - Não sei!

Ri-me baixinho, de sorriso atrás da orelha, fui ao quarto dela buscar os fones brancos pousados na secretária e lhe dei, vi dois olhos admirados a beijar nos meus. Deitei a língua fora, cúmplice e em jeito de brincadeira recebi abraços exaltados, abanões...


quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O meu Novembro em Coimbra

(Photo de Rudolfo Lopes)

Espreitei-te Coimbra, dentro da locomotiva antes de atravessar a ponte e debaixo da haste de metal corriam as águas do Mondego. O céu pardo proclamava um sopro gelado como breu, os sons reconhecidos e familiares sussurravam no microfone do meu processador de fala, apanhando a voz meio robótica do altifalante: “Coimbra-B”.

Um desconhecido próximo de mim abre a porta do comboio, a seguir desço apoiando o cotovelo ao corrimão, de casaco apertado e cachecol envolto no pescoço, duas mãos ocupadas a segurar o guarda de chuva e noutra a bagagem. Começou soprar o intempestivo vento, queimando as maças do meu rosto. Os dedos entorpecidos e expostos ao frio. A queda repentina das pequenas e leves gotas de chuva, via Coimbra totalmente coberta por um manto de névoa humedecida.

Enviei-me num táxi, os gestos precisos e delicados de quem ali passavam, pessoas de carne e osso, bem agasalhadas e umas com máscaras verdes estampadas na face devido à propagação da Gripe A, a histeria e o pânico entrelaçados perante os olhares temerosos… eu ali indiferente a este cenário autêntico. Na vanguarda um trilho serpenteado em obras, furamos com os meus olhos colados na paisagem envolvente, mais uma mudança! A construção de um pilar para a sustentação da nova ponte ainda invisível e inexistente.

Abeirei, e os uon uon uon das ambulâncias irrompem fugaz e cintilantes no meu cérebro, vejo as horas e recordo-me da A.C, uma jovem deficiente auditiva desde nascença e oralista, finalista da Universidade. Conheci-a no 2º Encontro Nacional de Implantados em Aveiro, na qual decidira tentar o Implante Coclear e a ajudei obter o endereço do Hospital. Tem vontade e fome de ouvir! Coincidência, quis o destino juntar-nos de novo na sina da vida e como o mundo é pequeno, compareci na sala de espera. Onde ela está? Não a vejo. Deve estar já na consulta.

Tenho tempo, pego numa revista e folheio-a uma a uma devorando os textos digitalizados, o tempo escorre ao som da chuva que tomba lá fora. A A.C surge ganhando vida no corredor cândido, transparecendo outro ar, de esperança e sei-o naquele preciso momento que a euforia cora, e o olhar são estrelas a brilhar perante a possibilidade de ingressar no mundo dos sons. Fora aceite. Agora recomecem os exames para um sim definitivo.

Conheci os pais dela. Simpáticos. Esplendorosos. Curiosos. Diálogos edificantes, perguntas sobre o meu ouvir.

São quase 14h, está na hora, subo para cima, escalando os ilustres degraus, crianças a gritar, outras a falar. A inocência. Os processadores com bobina fixada através do íman. Correm cheios de energia. Chamaram-me. Lá está, a Terapeuta dos grandes olhos azuis e a barriga mais redonda que a da última vez, diz-me está quase para a ter nos braços.

Pergunta como estou, se tenho estado a ouvir bem e se precisava de um reajuste, incrivelmente não quis arriscar em remampear o processador. Não. Nem pensar tendo em conta os avanços dos progressos obtidos nos últimos dois meses. Assim ficou, tal como está. O ajuste perfeito.

Iniciamos as vogais, como é habitual para aquecer. Passamos a palavras, e uuuaaauuu tinha acertado praticamente aquelas que nunca tinha ouvido pela primeira vez, o meu cérebro auditivo estava absolutamente embalado, mesmo assim falhei outras por pouco devido às parecenças na sonoridade. A seguir foram as frases, neste aspecto foi o ponto mais alto da terapia, a M. estava encantada! Delirante!

Eu… feliz por acreditar que aprender ouvir tudo é POSSÍVEL e VALE A PENA independentemente dos resultados a curto ou longo prazo, a intenção é progredir com o tempo e estou a fazê-lo de forma surpreendente.

domingo, 22 de novembro de 2009

Español


Resolvi aventurar-me no mundo das línguas estrangeiras, adoptei carinhosamente o espanhol como o meu primeiro desafio na era do pós-activação do Implante Coclear.

Conversei com a formadora, e incrivelmente só mesmo no final é que lhe contei acerca do meu problema, ficou surpresa pois segundo as palavras dela, nem eu lhe parecia ser deficiente auditiva, mas que estaria engripada. Ou seja a minha voz deixou de ser típica de uma pessoa surda.

No decorrer das aulas, a experiência está a revelar-se impressionante tanto a nível da fonética espanhola, consigo captar melhor as dicções do discurso, as palavras são mais abertas e melódicas cujos intervalos intensificam, portanto completamente diferente do Português.

E pretendo ser fluente nesta língua, nas duas modalidades: falada e escrita, ainda tenho mais 43 horas de aprendizagem.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Coimbra à Espreita

(Photo de Jacraq)

Cheguei a casa, e avistei acima da cómoda um envelope azul esverdeado escuro, do Centro Hospitalar de Coimbra, abri e li a antecipação da ORL do dia 27 para 25 deste mês. Já?! YES!

Coimbra cá vou eu, espera por mim no sítio habitual para te beijar e abraçar.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Momentos IC

(Photo de Jansen Oliveira)

Deixei o blog "Sou uma Cyborg - Ouvido Implantado" cair no esquecimento, é apenas temporário mas não iria deixar de registar alguns episódios ridiculamente risíveis debaixo de um dilúvio inesperado, o céu tristonho, a chuva cair na noite anterior neste Novembro atípico e invulgar.

Estava sentada, de pernas cruzadas frente à secretária onde dialogava no portátil com a R. e o R., uma reunião de 3 Cyborg's, ainda houve um pormenor evidente pois a R. apesar de já ter o chip e eléctrodos bem colocados não foi ainda activada. Conversamos sobre o tempo, de que na zona portuense não chuviscava e fez-me uma pergunta, de como ouvia a tempestade com o IC, se os sons dos trovões me assustavam, se conseguia ouvir todos os ruídos... claro, como qualquer implantado que se preze apenas pude descrever a minha própria experiência auditiva.

O céu começara a formar nuvens pesadas, então respondi-lhe que os sons não me atemorizavam facilmente, basta estar atenta às gotinhas de prata que batem no vidro da janela e no solo, as árvores dançar com o vento inquieto, o trovejar, os estores a abanar. Não preciso de olhar, nem abrir a janela, conheço o som detalhadamente no meio da vivalma, um a um todos juntos mas ao mesmo tempo desunidos.

Depois de enviar esta mensagem no rodapé, um raio caiu ao lado do meu prédio, fez-se um clarão súbito e brilhante, segundos depois veio o som, assustei-me repentinamente sem qualquer aviso e o apartamento tremeu todo.

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Já começo a pegar mais conversas através do telemóvel com uma nitidez impressionante tanto nas vozes conhecidas de agudas e graves. Ui, os €€€, não consigo resistir.

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Tenho dificuldades nas palavras que tenham vogais duplas/triplas que começam e terminam com o O, por exemplo: polvo, touro, loiro, louco, potro... etc. Tenho de ver isso.

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O dia para regressar a Coimbra aproxima.

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sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Ruído Misterioso

O vento começou a mover com bastante frequência à tarde, cada vez mais forte e as folhas caídas das árvores jaziam no passeio aos redemoinhos em forma de um funil, a ondearem e depois flutuavam do chão, podia ouvi-las a beijar na superfície. Os carros passavam por mim, furiosos, acelerados na estrada e um som enigmático atropelara o meu cérebro, uma emissão metálica e excêntrica que fazia um barulho bizarro, e quando não havia nenhum carro por perto o ruído parara de chiar.

Sentia o ar frio a palpitar no meu rosto, as mãos geladas e os cabelos agitados. Vejo o aproximar de dois veículos de quatro rodas, o Peugeot e o Mercedes, de repente o estranho som tinha-se ressuscitado misteriosamente! Restava agora procurar e saber donde vinha este timbre, apercebi no entanto de que estava mais perto de o descobrir, fosse qual fosse...

Olhei para o piso de alcatrão, no meio da estrada havia um circulo, mais do que isso, uma tampa de esgotos, e cada vez que os pneus pisavam naquela tampa um pouco solta lançava um barulho estridente e metálico. Era isto!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Noite Serena

Comboio adentro, à espreita da janela com vista para a boca do mar que separa as duas margens, a lua no céu tão redonda e brilhante como as estrelas sonoras envolvem-me ternamente. Música. Ouço-a no interior, a tocar no meu lado esquerdo misturando o roçar metálico das rodas que cintilam continuamente... continuamente... continuamente... e a força do vento que bate nos vidros duplos da carruagem dá vida ao som, o silêncio das vozes assiste impávido e sossegado perante o olhar das pessoas.

Estados de alma, ensejos introspectivos.

domingo, 1 de novembro de 2009

Duas Pontes

Hoje a manhã acordou com o céu cinzento e ensonado e o meu ouvido implantado vai ser embalado pela vida da música com a mesma intensidade das primeiras descobertas do inicio, no fim da tarde. Irei vibrar nos instrumentos de sopro, fecharei os olhos por um momento deixando a visão de lado para dar mais ênfase na melodia.

Saborear. Guardar os sons para depois o relembrar assim que quiser. As expectativas. O sonho de ouvir aquando criança, altura em que passava muitas noites sem dormir fechada no quarto a teclar o piano electrónico e de retirar a prótese colocando o ouvido junto à coluna plana, lembro-me de ouvir e soltar lágrimas, lembro-me de a música soar lindamente, lembro-me de aguardar uma parte da canção, lembro-me de falar baixinho do quanto queria ter a audição retornada... porque nesta idade, aos oito anos, eu percebi que estava a perder progressivamente um pouco em cada ano.

E o meu amor pelos sons era tanto. Hoje, apesar de ouvir de maneira diferente, soam ainda melhores, completos e cheio de vida! Por isso, ao entardecer recordarei a infância e o prazer do presente. A de ouvir novamente.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Reflexão Interior

(Photo - Todos os direitos reservados Sun Melody)

Do nada comecei a ouvir o piu piu melódico dos pássaros, neste tempo louco que faz um calor esquisito, húmido por vezes e ventoso quando a gente menos se espera. Uma mistura de Verão e Outono de braços dados, um emaranhado de sons contínuos que ingere quantidades enchentes no meu interior sereno.

Este processo de aprender ouvir e saber ouvir cativa como degraus infinitos, subindo cada muralha do esforço e quando mais alto trepava, mais criança sentia que tocar o céu na ponta dos dedos vislumbraria uma cidade diferente da que conhecia, uma cidade sonora e brilhante recriando a sua própria musicalidade.

E o teu ouvido implantado beija-te, sabendo que vai estar sempre presente para o resto da tua vida dedicando lindas sinfonias de sons. Como nunca estás satisfeita, queres sempre mais e mais até que viste a necessidade de mudares o caminho, decidiste enveredar o implante Coclear Bilateral.

Até lá, vamos aguardar e ver se o mundo continua a girar.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Vento e Chuva

O Outono chegou em força com cores, chuva e vento. Já tinha saudades de ouvir o ar agitado a dançar rolando as folhas castanhas no solo e os picos caírem das nuvens na noite anterior em que o mundo chorou copiosamente nas altas horas de madrugada.

Música deliciosa, que estremece no meu ouvido implantado e aquece o coração.

domingo, 18 de outubro de 2009

Outros Momentos IC

(Photo todos os direitos reservados by Sun Melody)
4 meses após a activação


Esqueci-me de mencionar um episódio marcante que se passou dentro da camioneta, tinha os olhos diante da montra vidraça e ouvi um telemóvel a tocar, uma passageira desconhecida atendera e pude perceber a conversa ali, foi difícil acreditar no que ouvia.

Uma Surda Profunda cuscar a conversa dos outros, sem leitura labial estando ela à minha frente, no lado direito e próximo das portas de saída. "Tou .... (sem entendimento) .... estou a chegar. Sim, estou mesmo perto ... (sem entendimento) ... até já".

Abanada, percebi que a camioneta estava parada no semáforo, e daí o ruído de fundo ser menos intenso que o habitual. Pela primeira vez na vida, na era pós-implante posso finalmente experimentar e abusar tudo o que o processador de fala me oferece.

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Perdi o medo, fui à discoteca com o meu mais-que-tudo e amigos, é indescritível! O som entra mesmo no ouvido, mas nunca imaginei que fosse tão alto e nítido, foi impressionante ao ponto de não ter aguentado mais e desliguei o processador de fala. Mesmo assim conseguia ouvir a música pela via natural do lado implantado.... foi maravilhoso!!!

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Plena escuridão, dentro do estabelecimento escuto um nítido "Anda cá! Anda cá!"

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Momentos IC

(Todos os direitos reservados Photo by Alicani)

As palavras começam a fazer sentido ao entrar pelo ouvido implantado, directo ao cérebro com aparente facilidade. Há dias, estive numa orquestra organizado por um grupo de mães dos músicos onde a família e amigos poderiam estar presentes, portanto uma festa bem apreciada e agradável.

Vibrei ao som dos instrumentos. Mágico. A sonoridade.

Já no fim, uma senhora dirigiu-se na plateia e pegou no microfone tapando a boca para mim essencial sustentar a harmonia da leitura labial à distância donde me encontrava, sentada na bancada vermelha lotada de indivíduos embalados. Recorri na minha audição, a de tentar decifrar nuances nem que sejam palavras soltas. O mais surpreendente estava a ascender o inimaginável, inesperadamente ouvi:

"É uma honra ter-vos aqui ........ (sem entendimento) ....... muito obrigado por estarem presentes ........ (sem entendimento) ......... vamos agora rifar, não é depois mas agora ......... (sem entendimento) ......"

"O prémio do sorteio é o numero trinta e sete"

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Com o meu namorado noutra ocasião, de costas viradas para ele ouço:

"Guarda a carteira dentro da tua mala"

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Ontem na mesa de votos donde ocorreram as eleições autárquicas, pessoas que não conheço e são completos desconhecidos, eu olhava para o boletim de votos discriminando os números e palavras auditivamente: quarenta e vinte, trinta três e noventa.... faça favor, pode entrar, aproxime, bom dia, boa tarde por aí fora.

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Relativamente ao Implante Coclear Bilateral, está em suspensão até quarta-feira, depois darei notícias.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Book - Audio


Para continuar o treino auditivo, decidi recorrer a áudio-livros, confesso que nunca antes tinha experimentado. Assim sendo, o primeiro objectivo foi iniciar a busca no Google e imediatamente saltou-me à vista um áudio de "A Fórmula de Deus", inquietante no factor-chave a respeito da qualidade sonora intercalada numa possível voz de uma mulher ou de homem.

Já não tinha com o que me preocupar, pois os graves tiveram uma revolução programável facilitando assim a discriminação verbal, estava contudo mais que determinada em superar esta prova de fogo. Descarreguei. Agrupei os três capítulos dentro de cada pasta. Experimentei abrindo o Media Player, e a fita electrónica deu andamento sem eu dar conta do facto... uma voz de homem pronunciando claramente: "A Fórmula de Deus (pausa) de José Rodrigues dos Santos..." não queria acreditar no que tinha escutado!

Percebi ali, que valeria a pena pois assim não corro o risco de interromper os progressos conquistados em Coimbra. Aqui vou eu ouvindo e lendo o livro em simultâneo, memorizando as palavras recitadas. Que bom!

sábado, 19 de setembro de 2009

4º Dia de Reabilitação I

(Photo - todos os direitos reservados Sun Melody)

Coimbra lacrimejou a gemer de tristeza aquando antes da minha partida, os pingos de chuva embatiam o solo raso do corredor predial incapaz de me abraçar e proteger da tempestade selvagem. Não tinha o guarda-chuva comigo. Resolvi aguardar um pouco no hall de entrada para que a tempestade diminuísse de intensidade, mas nada valeu.

Decidi abrir a bagagem, demovi o casaco branco no fundo da mala e o vesti agasalhada, depois retirei o processador de fala e o íman da minha cabeça colocando-o dentro do estojo à prova de aguaceiros. Silêncio. Que estranho silêncio, do timbre chuvoso para o nada. A renúncia da ocasião levou-me a querer auxiliar-te carinhosamente, pôr-te longe da embriaguez incessante e assim foi. Meti-te dentro da mochila do Monte Campo, estarias ali seguro. De mochila às costas, e a bagagem pesada apreendida no meu ombro esquerdo, sai a correr debaixo de uma carga de água molhando-me em segundos, não na totalidade. Saltei. Declinei na passadeira directa à paragem de autocarros.

Observando-te Coimbra, continuavas a ter um aspecto limpo em que a chuva tirava toda a imundície, nunca me apercebi do quão a formosura de excelência te fazia brilhar mesmo nos dias mais amargos do ano. As avenidas inundadas de gabardinas coloridas, a praça enchia de figuras humanas, de todas as idades encantara-me!

(continuidade)

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

3º Dia de Reabilitação

(Photo - todos os direitos reservados Sun Melody)

Encaminhei a olhar para os dois edifícios independentes, porém só um deles me interessava cuja rampa tinha a forma em L e no meio do passeio estava uma mulher de cigarro na mão, um rosto belo e repousado com os olhos vidrados no pequeno jardim. Pensativa e distante perante a claridade da manhã, desviei-me sem a incomodar e os barulhos invadiam o meu ouvido implantado através dos pequenos vinte e dois eléctrodos cintilando o nervo auditivo, pude assim escutar tudo que era ruído.

Perceptíveis. Carregados de significado, jamais cessados.

O pipilar dos pássaros de caudas azuis e vermelhas, as vozes dos bons dias, dos está tudo bem?, dos como está?. Graves e agudos de mãos dadas a serem processados com tamanha rapidez permitindo-me ouvir neste caminho, tão meu e impagável. Não trocaria por nada neste mundo, se pudesse fá-lo-ia de novo pois escolhi OUVIR.

Subi as escadas, vi uma menina pequenita loira, de olhos azuis com um turbante na cabeça nos braços do pai. Aquela visão trouxe-me à memória o ano 2007, na segunda semana ia finalmente tirar os pontos e a angustiante ligadura avelhentada de sujidade, o cabelo imundo por lavar. Depois de a Enfermeira ter pegado numa tesoura cortando cuidadosamente a atadura de algodão, vi-me ao espelho pronunciando: que metade carecada! A linha dos pontos bem visíveis, de um castanho escuro fez-me abrir um sorriso.

Sentei de novo no banco, quieta, não podia mexer sequer e é então com as mãos delicadas que a Enfermeira coloca o spray anestésico antes de aparar os pontos. Quando o fez, senti a linha sair entre a pele, foi esquisito. Agora, livre de pontos quis observar o aspecto da cicatriz, ela ali tão lisa e perfeita. Parecia um simples aranhão.

O mesmo que irá suceder à menina dos olhos azuis, tão cor do mar. E a vida, ai que vida longe de todas as dificuldades, invejo-a.

A T.H ao telefone, aceno, vejo a sua barriga redonda que transporta vida no líquido amniótico e ao lado está o mesmo rapaz de ontem, e de anteontem. Sou a sua cobaia de aprendizagem, um de muitos estudos reais que ditará a nota final do estágio. Tem o caderno na mesa. A Caneta pendurada na algibeira da bata com as inicias da Universidade da Beira-Interior.
Olhar atento e sereno, meticuloso no pormenor, seguiu todos os exercícios propostos e colaborou interessado na ausência da T.H pondo-me à prova a sua voz grave, gravíssima fazendo a mim um grande duplo esforço de entender palavras superando-as milagrosamente e cada vez mais, acertando e não acertando.

No final, a sessão acabou com a T.H ditar frases de 5 ou 6 palavras, já estava de rastos, cansada mentalmente acabei em beleza decifrando: "O ladrão bateu na Sofia". Passou uma espécie de T.P.C. de forma continuar a progredir incansável na discriminação de palavras que começam por P e D.

Amanhã é o último dia. A última sessão.