Na segunda-feira à tardinha, dentro do carro ruidoso embalavam quatro vozes, conseguia distingui-los, e pelo contexto da conversa pescando palavras soltas falavam de lombas na estrada, até decifrar um "ahhh, é verdade" paterno.
Anoitecera, já dentro do apartamento vestia um blusão e quando ouvi a minha irmã e mãe a conversarem entre si:
Irmã - Mãe! Mãe - O que é? Irmã - os meus fooooones??? Mãe - Não sei!
Ri-me baixinho, de sorriso atrás da orelha, fui ao quarto dela buscar os fones brancos pousados na secretária e lhe dei, vi dois olhos admirados a beijar nos meus. Deitei a língua fora, cúmplice e em jeito de brincadeira recebi abraços exaltados, abanões...
Resolvi aventurar-me no mundo das línguas estrangeiras, adoptei carinhosamente o espanhol como o meu primeiro desafio na era do pós-activação do Implante Coclear.
Conversei com a formadora, e incrivelmente só mesmo no final é que lhe contei acerca do meu problema, ficou surpresa pois segundo as palavras dela, nem eu lhe parecia ser deficiente auditiva, mas que estaria engripada. Ou seja a minha voz deixou de ser típica de uma pessoa surda.
No decorrer das aulas, a experiência está a revelar-se impressionante tanto a nível da fonética espanhola, consigo captar melhor as dicções do discurso, as palavras são mais abertas e melódicas cujos intervalos intensificam, portanto completamente diferente do Português.
E pretendo ser fluente nesta língua, nas duas modalidades: falada e escrita, ainda tenho mais 43 horas de aprendizagem.
Deixei o blog "Sou uma Cyborg - Ouvido Implantado" cair no esquecimento, é apenas temporário mas não iria deixar de registar alguns episódios ridiculamente risíveis debaixo de um dilúvio inesperado, o céu tristonho, a chuva cair na noite anterior neste Novembro atípico e invulgar.
Estava sentada, de pernas cruzadas frente à secretária onde dialogava no portátil com a R. e o R., uma reunião de 3 Cyborg's, ainda houve um pormenor evidente pois a R. apesar de já ter o chip e eléctrodos bem colocados não foi ainda activada. Conversamos sobre o tempo, de que na zona portuense não chuviscava e fez-me uma pergunta, de como ouvia a tempestade com o IC, se os sons dos trovões me assustavam, se conseguia ouvir todos os ruídos... claro, como qualquer implantado que se preze apenas pude descrever a minha própria experiência auditiva.
O céu começara a formar nuvens pesadas, então respondi-lhe que os sons não me atemorizavam facilmente, basta estar atenta às gotinhas de prata que batem no vidro da janela e no solo, as árvores dançar com o vento inquieto, o trovejar, os estores a abanar. Não preciso de olhar, nem abrir a janela, conheço o som detalhadamente no meio da vivalma, um a um todos juntos mas ao mesmo tempo desunidos.
Depois de enviar esta mensagem no rodapé, um raio caiu ao lado do meu prédio, fez-se um clarão súbito e brilhante, segundos depois veio o som, assustei-me repentinamente sem qualquer aviso e o apartamento tremeu todo.
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Já começo a pegar mais conversas através do telemóvel com uma nitidez impressionante tanto nas vozes conhecidas de agudas e graves. Ui, os €€€, não consigo resistir.
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Tenho dificuldades nas palavras que tenham vogais duplas/triplas que começam e terminam com o O, por exemplo: polvo, touro, loiro, louco, potro... etc. Tenho de ver isso.
O vento começou a mover com bastante frequência à tarde, cada vez mais forte e as folhas caídas das árvores jaziam no passeio aos redemoinhos em forma de um funil, a ondearem e depois flutuavam do chão, podia ouvi-las a beijar na superfície. Os carros passavam por mim, furiosos, acelerados na estrada e um som enigmático atropelara o meu cérebro, uma emissão metálica e excêntrica que fazia um barulho bizarro, e quando não havia nenhum carro por perto o ruído parara de chiar.
Sentia o ar frio a palpitar no meu rosto, as mãos geladas e os cabelos agitados. Vejo o aproximar de dois veículos de quatro rodas, o Peugeot e o Mercedes, de repente o estranho som tinha-se ressuscitado misteriosamente! Restava agora procurar e saber donde vinha este timbre, apercebi no entanto de que estava mais perto de o descobrir, fosse qual fosse...
Olhei para o piso de alcatrão, no meio da estrada havia um circulo, mais do que isso, uma tampa de esgotos, e cada vez que os pneus pisavam naquela tampa um pouco solta lançava um barulho estridente e metálico. Era isto!
Comboio adentro, à espreita da janela com vista para a boca do mar que separa as duas margens, a lua no céu tão redonda e brilhante como as estrelas sonoras envolvem-me ternamente. Música. Ouço-a no interior, a tocar no meu lado esquerdo misturando o roçar metálico das rodas que cintilam continuamente... continuamente... continuamente... e a força do vento que bate nos vidros duplos da carruagem dá vida ao som, o silêncio das vozes assiste impávido e sossegado perante o olhar das pessoas.
Hoje a manhã acordou com o céu cinzento e ensonado e o meu ouvido implantado vai ser embalado pela vida da música com a mesma intensidade das primeiras descobertas do inicio, no fim da tarde. Irei vibrar nos instrumentos de sopro, fecharei os olhos por um momento deixando a visão de lado para dar mais ênfase na melodia.
Saborear. Guardar os sons para depois o relembrar assim que quiser. As expectativas. O sonho de ouvir aquando criança, altura em que passava muitas noites sem dormir fechada no quarto a teclar o piano electrónico e de retirar a prótese colocando o ouvido junto à coluna plana, lembro-me de ouvir e soltar lágrimas, lembro-me de a música soar lindamente, lembro-me de aguardar uma parte da canção, lembro-me de falar baixinho do quanto queria ter a audição retornada... porque nesta idade, aos oito anos, eu percebi que estava a perder progressivamente um pouco em cada ano.
E o meu amor pelos sons era tanto. Hoje, apesar de ouvir de maneira diferente, soam ainda melhores, completos e cheio de vida! Por isso, ao entardecer recordarei a infância e o prazer do presente. A de ouvir novamente.
Do nada comecei a ouvir o piu piu melódico dos pássaros, neste tempo louco que faz um calor esquisito, húmido por vezes e ventoso quando a gente menos se espera. Uma mistura de Verão e Outono de braços dados, um emaranhado de sons contínuos que ingere quantidades enchentes no meu interior sereno.
Este processo de aprender ouvir e saber ouvir cativa como degraus infinitos, subindo cada muralha do esforço e quando mais alto trepava, mais criança sentia que tocar o céu na ponta dos dedos vislumbraria uma cidade diferente da que conhecia, uma cidade sonora e brilhante recriando a sua própria musicalidade.
E o teu ouvido implantado beija-te, sabendo que vai estar sempre presente para o resto da tua vida dedicando lindas sinfonias de sons. Como nunca estás satisfeita, queres sempre mais e mais até que viste a necessidade de mudares o caminho, decidiste enveredar o implante Coclear Bilateral.
Até lá, vamos aguardar e ver se o mundo continua a girar.
As palavras começam a fazer sentido ao entrar pelo ouvido implantado, directo ao cérebro com aparente facilidade. Há dias, estive numa orquestra organizado por um grupo de mães dos músicos onde a família e amigos poderiam estar presentes, portanto uma festa bem apreciada e agradável.
Vibrei ao som dos instrumentos. Mágico. A sonoridade.
Já no fim, uma senhora dirigiu-se na plateia e pegou no microfone tapando a boca para mim essencial sustentar a harmonia da leitura labial à distância donde me encontrava, sentada na bancada vermelha lotada de indivíduos embalados. Recorri na minha audição, a de tentar decifrar nuances nem que sejam palavras soltas. O mais surpreendente estava a ascender o inimaginável, inesperadamente ouvi:
"É uma honra ter-vos aqui ........ (sem entendimento) ....... muito obrigado por estarem presentes ........ (sem entendimento) ......... vamos agora rifar, não é depois mas agora ......... (sem entendimento) ......"
"O prémio do sorteio é o numero trinta e sete"
--------------------- Com o meu namorado noutra ocasião, de costas viradas para ele ouço:
"Guarda a carteira dentro da tua mala"
-------------------- Ontem na mesa de votos donde ocorreram as eleições autárquicas, pessoas que não conheço e são completos desconhecidos, eu olhava para o boletim de votos discriminando os números e palavras auditivamente: quarenta e vinte, trinta três e noventa.... faça favor, pode entrar, aproxime, bom dia, boa tarde por aí fora.
------------------- Relativamente ao Implante Coclear Bilateral, está em suspensão até quarta-feira, depois darei notícias.
Devo ser alérgica ou uma goma doce que atrai políticos e deputados socialistas, decididamente não me dou bem com eles, descobri no curso durante a sua apresentação eloquente que o docente é um político em actividade e candidato à Presidência da Câmara Municipal de Almada.
Valha-me!!! Valha-me!!! Valha-me!!! Não acredito nisto! Fiquei para morrer!!!
Sim ou Não? Eis a questão, não sei se o meu segundo ouvido (o direito) reúne condições adequadas para a implementação intra-coclear. Para já aguardo que chegue sexta-feira, depois saberei se é possível... agora estou sem expectativas.
Para continuar o treino auditivo, decidi recorrer a áudio-livros, confesso que nunca antes tinha experimentado. Assim sendo, o primeiro objectivo foi iniciar a busca no Google e imediatamente saltou-me à vista um áudio de "A Fórmula de Deus", inquietante no factor-chave a respeito da qualidade sonora intercalada numa possível voz de uma mulher ou de homem.
Já não tinha com o que me preocupar, pois os graves tiveram uma revolução programável facilitando assim a discriminação verbal, estava contudo mais que determinada em superar esta prova de fogo. Descarreguei. Agrupei os três capítulos dentro de cada pasta. Experimentei abrindo o Media Player, e a fita electrónica deu andamento sem eu dar conta do facto... uma voz de homem pronunciando claramente: "A Fórmula de Deus (pausa) de José Rodrigues dos Santos..." não queria acreditar no que tinha escutado!
Percebi ali, que valeria a pena pois assim não corro o risco de interromper os progressos conquistados em Coimbra. Aqui vou eu ouvindo e lendo o livro em simultâneo, memorizando as palavras recitadas. Que bom!
Coimbra lacrimejou a gemer de tristeza aquando antes da minha partida, os pingos de chuva embatiam o solo raso do corredor predial incapaz de me abraçar e proteger da tempestade selvagem. Não tinha o guarda-chuva comigo. Resolvi aguardar um pouco no hall de entrada para que a tempestade diminuísse de intensidade, mas nada valeu.
Decidi abrir a bagagem, demovi o casaco branco no fundo da mala e o vesti agasalhada, depois retirei o processador de fala e o íman da minha cabeça colocando-o dentro do estojo à prova de aguaceiros. Silêncio. Que estranho silêncio, do timbre chuvoso para o nada. A renúncia da ocasião levou-me a querer auxiliar-te carinhosamente, pôr-te longe da embriaguez incessante e assim foi. Meti-te dentro da mochila do Monte Campo, estarias ali seguro. De mochila às costas, e a bagagem pesada apreendida no meu ombro esquerdo, sai a correr debaixo de uma carga de água molhando-me em segundos, não na totalidade. Saltei. Declinei na passadeira directa à paragem de autocarros.
Observando-te Coimbra, continuavas a ter um aspecto limpo em que a chuva tirava toda a imundície, nunca me apercebi do quão a formosura de excelência te fazia brilhar mesmo nos dias mais amargos do ano. As avenidas inundadas de gabardinas coloridas, a praça enchia de figuras humanas, de todas as idades encantara-me!
Encaminhei a olhar para os dois edifícios independentes, porém só um deles me interessava cuja rampa tinha a forma em L e no meio do passeio estava uma mulher de cigarro na mão, um rosto belo e repousado com os olhos vidrados no pequeno jardim. Pensativa e distante perante a claridade da manhã, desviei-me sem a incomodar e os barulhos invadiam o meu ouvido implantado através dos pequenos vinte e dois eléctrodos cintilando o nervo auditivo, pude assim escutar tudo que era ruído.
Perceptíveis. Carregados de significado, jamais cessados. O pipilar dos pássaros de caudas azuis e vermelhas, as vozes dos bons dias, dos está tudo bem?, dos como está?. Graves e agudos de mãos dadas a serem processados com tamanha rapidez permitindo-me ouvir neste caminho, tão meu e impagável. Não trocaria por nada neste mundo, se pudesse fá-lo-ia de novo pois escolhi OUVIR. Subi as escadas, vi uma menina pequenita loira, de olhos azuis com um turbante na cabeça nos braços do pai. Aquela visão trouxe-me à memória o ano 2007, na segunda semana ia finalmente tirar os pontos e a angustiante ligadura avelhentada de sujidade, o cabelo imundo por lavar. Depois de a Enfermeira ter pegado numa tesoura cortando cuidadosamente a atadura de algodão, vi-me ao espelho pronunciando: que metade carecada! A linha dos pontos bem visíveis, de um castanho escuro fez-me abrir um sorriso. Sentei de novo no banco, quieta, não podia mexer sequer e é então com as mãos delicadas que a Enfermeira coloca o spray anestésico antes de aparar os pontos. Quando o fez, senti a linha sair entre a pele, foi esquisito. Agora, livre de pontos quis observar o aspecto da cicatriz, ela ali tão lisa e perfeita. Parecia um simples aranhão. O mesmo que irá suceder à menina dos olhos azuis, tão cor do mar. E a vida, ai que vida longe de todas as dificuldades, invejo-a. A T.H ao telefone, aceno, vejo a sua barriga redonda que transporta vida no líquido amniótico e ao lado está o mesmo rapaz de ontem, e de anteontem. Sou a sua cobaia de aprendizagem, um de muitos estudos reais que ditará a nota final do estágio. Tem o caderno na mesa. A Caneta pendurada na algibeira da bata com as inicias da Universidade da Beira-Interior. Olhar atento e sereno, meticuloso no pormenor, seguiu todos os exercícios propostos e colaborou interessado na ausência da T.H pondo-me à prova a sua voz grave, gravíssima fazendo a mim um grande duplo esforço de entender palavras superando-as milagrosamente e cada vez mais, acertando e não acertando. No final, a sessão acabou com a T.H ditar frases de 5 ou 6 palavras, já estava de rastos, cansada mentalmente acabei em beleza decifrando: "O ladrão bateu na Sofia". Passou uma espécie de T.P.C. de forma continuar a progredir incansável na discriminação de palavras que começam por P e D. Amanhã é o último dia. A última sessão.
Ocorreu o segundo dia consecutivo, desta vez num cenário diferente de ontem, os transportes urbanos de Coimbra resolveram entrar em greve hoje. Santo dia! Nunca vi tantos táxis a circularem, pareciam peças de dominó uns atrás de outros.
Receosa de chegar atrasada, apanhei um táxi mas mesmo assim estava um frio tremendo, o calor vai ensaiando a despedida pouco a pouco, lentamente, no seu ritmo tão próprio e característico de Setembro onde a luz e cores emitem uma harmonia suave que comove os sentidos em qualquer lugar.
Depois de receber o dinheiro trocado do motorista, sai a correr para dentro do edifício principal de Otorrinolaringologia - Implantes Cocleares onde a T. H. estava a minha espera, avistou-me ofegante para entrarmos adentro do minúsculo e imaculado espaço, com fotografias de crianças implantadas afixadas na parede, reparei a presença de mais uma pessoa sentada na cadeira, um estagiário e futuro terapeuta.
Iria assistir novamente a minha reabilitação, tomando nota de todos os processos, assim começou o tiro de partida com as vogais, tento acertado com apenas duas falhas, depois em palavras à escolha, mais tarde frases de 5 ou 6 palavras, uau que progressos! Que avanço!
Perplexa, em tão pouco tempo dei um pulo, claro a T.H estava de tal maneira maravilhada e basta tão somente continuar nesta sequência. Amanhã há mais. Que venham quebras-cabeças, divirto-me tanto. Este reajuste fez toda a diferença. Para já, durante um ano não penso em reprogramar, vou deixa-lo firme.
Uma semana, sete dias no sossego do interior, no tão Portugal profundo em brasa perto da fronteira Espanhola, onde o calor mantivera inalterável e constante. As idas à piscina têm sido um sonho imerso de caprichos, e logo em todos os entardeceres o sol foi tapado por nuvens tempestivas pintadas no cinzento-escuro que trovejaram como nunca antes se viu. É bonito o som, a chuva que cai vigorosamente, digna de uma borrasca tropical, alonguei o braço à cabeça retirando o processador de fala e o telemóvel nos bolsos dos calções para dentro de um estojo maleável, lancei-me sem pensar de braços esticados à chuvarada com fortes rajadas de vento, fazendo com que o meu cabelo molhado esvoaçasse descontrolado no meu rosto tapando a vista. As gotas. A chuva fria e densa banhara a superfície criando enormes quantidades de poças de água na alcatifa, as pessoas ficaram encharcadas da cabeça aos pés sentindo a leve brisa bater-lhes nas suas faces e as roupas coladas nos corpos bronzeados, li o alívio depois de semanas sufocantes e cálidas nesta aldeia do interior, longe da civilização e do mar.
A noite caiu, com ele o vento limpou o céu nublado para dar lugar a uma vista imponente, de estrelas onde estive deitada respirando a frescura campestre sob relva observando o firmamento e é impressionante o silêncio que se fez perscrutar, senão ervas daninhas a abanar, os grilos cantar e murmúrios bizarros. O Sino. Os ladrares noctívagos, a respiração canina a meu lado, o som das lambedelas e o glup glup glup da ponta lingueta e coberta de baba enfiada no interior da tigela metálica. O comboio passar no sopé da montanha, a melodia das rolas brancas, e os meus simples movimentos de colher a areia da terra na palma da mão...
Passei tardes e horas a tirar fotografias através da máquina digital, semi-profissional. No dia seguinte acaba-se o descanso, hoje portanto, atirei-me para a estrada da IC8 rumo a Coimbra. E assim, estou eu, instalada confortavelmente neste pequeno e moderno apartamento do meu primo que se encontra fora profissionalmente. Almocei. Vi metade da cidade. Continua a ter o mesmo encanto!
Está escuro. Faz calor e estou deitada na minha cama, cansada de carregar móveis nos braços de um compartimento para o outro, deixei cair acidentalmente um objecto ao chão sem saber, reajo virando o rosto em direcção ao som e é um prego abatido que se soltou da gaveta. ++
Alugares um telemóvel toca estridente, e ninguém parece o atender, dou um grito: "Telemóvel!" ouço passos que correm rasteados, onde não há gestos visíveis, nem expressões vivas só meras palavras agarradas por um fio transparente em que o ouvido humano consegue captar, menos aqueles que não ouvem. ++
Anoiteceu, há uma corrente de ar, escuto o vento de lá fora e é lindo o som que produz, não tenho palavras para descrever o quão bom é OUVIR e num impulso nada vacilante resolvi ligar o portátil para transferir as músicas ao Touch Screen LG-Ligoo através do Bluetooth, lembrei-me agora que poderia contudo enviar um áudio-livro, acho que o farei em breve antes de rumar a Coimbra.
Aproveito também para sacar assuntos pertinentes sobre o Implante Coclear Bilateral, e o porque de Portugal não aderir neste estudo como o resto da Europa, excepto para quem tem Síndrome de Uscher e Surdo-Cegueira.
Um idoso, sentado na mesa a bebericar uma cerveja da Super Bock tem os olhos fixos em mim, e a história começa já ali. Vejo o jornal, o correio da manhã pousada sobre a pedra de mármore redonda, avanço gentilmente a perguntar se posso pegar na gazeta.
Eis o barrigudo de barba rija, começa a enxergar para a bolsinha em que seguro o processador de fala no ombro, ao se aperceber da minha quase Surdez, eleva os braços e faz umas mímicas gestuais de morrer a rir, penso, obviamente indignada neste abismo onde impera a desinformação cultural abundante.
Reprimi calada, a espera do momento certo e respondi-lhe sem papas na língua, “Senhor, não o quero ofender, mas por favor fale comigo oralmente e deixe os gestos de lado, pode ser?”
Só me recordo, de o seu rosto ter ficado assombrosamente boquiaberto, incapaz de dizer qualquer palavra, a boca muda e o mundo repousou abatido naquele espaço barulhento, preso pela minha resposta fortuita e a minha satisfação infiltrara como o raio de sol a brilhar interiormente.
O homem continuou abalado, confuso e perdido nos seus pensamentos a questionar de como pode uma pessoa surda a falar, foi preciso pessoas amigas dar palmadas nas costas, e durante a minha permanência no clube não conseguiu desviar a curiosidade vibrante. Seguiu-me sempre com o olhar firme.