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quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Hospital dos Covões I


Escrevo ao som da chuva que tomba lá fora, com gotas a embater na janela. A mesma chuva de ontem em que jornadeamos a Coimbra, de comboio e á chegada cheirava á terra molhada, abrimos o guarda de chuva agarrados um ao outro, num abraço acolhedor.

Deambulamos á paragem de táxi, ficamos ali um bocado até o motorista nos fazer sinal para entrarmos adentro, um táxi carrinha, preto e quase redondo a andar em passo de caracol rumo ao Hospital dos Covões. A paisagem continua a mudar, os acessos, a evolução das obras de mês a mês. Mudanças. Estas já fazem parte de mim. O mundo muda e nós também. Tudo muda, nada é como dantes.

Aproximámo-nos, táxi estacionado á berma, abro a carteira e dou 5€ em nota, ele fica com o troco pois por 20 cêntimos não faz diferença. Ainda chove mas não tanto, leves aguaceiros quedam e mesmo assim reabrimos o chápeu, olho para as horas e são 10h. Temos tempo, falta 1h para a reabilitação. Aproveitamos visitar uma amiga, a L que tinha sido implantada na semana passada, no edificio antigo ainda a ser remodelado, e o meu namorado pergunta se haverá visitas a esta hora, digo que não sei e lá fomos.

Cheira á Hospital. Um cheiro intenso que incomoda, uma mistura de odores abafados e húmidos. Recorda-me o tempo que lá estive, quando fui implantada num Verão, ainda estão dentro de mim lembranças, imagens e cheiros intactos. Foram os dias mais felizes da minha vida. E agora eis-me a ouvir. Voltando ao resumo, continuemos...

Escalámos degraus, viramos a um corredor estrangulado de enfermeiros, médicos e pacientes. O ambiente está diferente, inovaram as infra-estruturas e andei por ali desamparada, meia perdida... Perguntei pela L a uma enfermeira, não sabe quem é, entretanto quando uma delas ouve a nossa conversa interrompe-nos e nos indica a ala de Otorrinolaringologia. Seguiamos atrás. Vimos um papel asfixado na porta da especialidade de que as visitas era a partir do meio dia. Ok.

Revertemos o percurso descendo escadas para outro edificio ali á frente, o edificio das consultas externas onde iria fazer reabilitação, piquei o ponto e subimos. Esperamos cerca de meia-hora. Ouço o telefone a tocar, tocando obstinadamente porém não sei de onde vem o som, se da direita ou esquerda, viro na esperança de captar a origem sonora mas soa-me igual em distância. Só tenho um ouvido a funcionar. O ouvido implantado.

Chegara a Terapeuta dos olhos brilhantes, fomos encaminhados a uma pequena sala e assim demos ínicio o treinamento auditivo começando pelas minhas dificuldades sentidas, o L e R, concentro-me no máximo que posso á sua voz, atentamente letra a letra e palavra a palavra. Acerto as vogais em 98%.
Pássamos nas palavras, acerto e não acerto, mas está muito melhor, evolui drasticamente e agora sim, sinto que vou dar um pulo nos próximos meses, assim o espero.

(continuação)

domingo, 25 de janeiro de 2009

A Letra L


O meu pirata L, a letra mais difícil do alfabeto auditivo. Decidi avançar pois quanto mais cedo eu lidar com este pestinha melhor será para mim, claro houve muita D-I-F-I-C-U-L-D-A-D-E pois não tenho memória auditiva o que é perfeitamente normal em surdos peri-línguais (perda auditiva adquirida em plena fase do desenvolvimento da linguagem).

Eis as palavras que acertei esforçosamente, sem as saber e podia ser qualquer uma que começasse pela primeira letra, neste caso, o L.

Lápis-Lisboa-Lupa-Lilás-Leite-Luva-Lareira-Lavar-Lobo-Lixo-Livro-Lata

Aquelas que não acertei ou percebi por outras palavras:

Lago-Lava-Loiro-Leque-Lulas(luvas)-Luta-Lucas-Lesma-Larva(lava)-Largata(levanta)-Lista(lisa)-Leilão(leitão)-Limão(Lima)-Lapela(latela)

No entanto torço o nariz, acho que tenho de pedir ao técnico J.P para colocar um programa adequado ás vozes graves, é desesperante e pior ainda não reagir a elas na exacta medida que me chamam, o meu namorado sabe muito bem. Creio eu, dantes as frequências situavam num nível bastante centrado antes de ter feito o reajuste ou seja preferia o anterior mapeamento.

Felizmente, o dia para ir de novo a Coimbra está a chegar, desta vez com muito encanto e serenidade. O meu mais que tudo acompanhar-me-á nesta deliciosa aventura, sempre, desde o ínicio e irei apresentar-lhe uma pessoa. Uma amiga minha, que implantou na semana passada, a doce L.

Espero que não chova bastante, senão estamos bem tramados.

Luisa_B - Obrigada pela referência do selo, agradeço no fundo do coração e no próximo post colocarei.

Z@Blog - Ui, Ui, Ui, vou tentar entrar neste desafio e logo eu á prova de fogo! :)

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Balanço Auditivo


Estou prestes a fazer 18 meses de activada daqui a uma semana. É impressionante como o tempo voa, e fazendo uma retrospectiva desde a activação até agora houve claramente um grande avanço em todos os sentidos, tanto em ambientes ruidosos e discriminação de palavras.

Sou deveras curiosa no que respeita na captação de múltiplos sons com uma dupla exigência misturada em ataques de riso, posso usar as minhas habituais necessidades sem depender de ninguém: falar ao telemóvel e orientar-me em qualquer lugar, bem como ser interpelada por estrangeiros onde por vezes entendo-os com a ajuda da leitura labial.

É certo, que de vez enquanto entendo uma palavra ou frases muitas vezes de forma inesperada, não só, na realidade os 18 meses de activada irá pôr o ponto de final de uma odisseia que culminou a perda auditiva exactamente quando tinha 1 ano e 6 meses.

Ontem tive um mini-treino reabilitativo distinguindo diversas palavras de Porta, Torta, Pato, Tacto, Pála, Tála, Porco, Torto, Tomate, Tapete, Mota, Lota, Mil, Mentir, Tia e Pia no entanto a fragilidade da compreensão fonética permanece no Tente, Pente, Tosta, Pontaria, Pateta, Luta, Ler, Lente e Multa.

Tudo leva o seu tempo. O meu irá seguramente caminhar com segurança... interpretando a fala humana, a pronúncia no fio de vozes saciadas e adoravéis no meu mundo sonoro agora desperto para toda a eternidade enquanto viver.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Progresso

É a palavra de ordem deste mês.

Houve muitas palavras reconhecidas, tanto de costas viradas e inclusive no telemóvel mas tenho um senão, as vozes graves - não me atino bem com elas!!! OK.

Coimbra estou a chegar, depois vejo como poderei melhorar esta parte negativa, a das vozes graves, roncas, entorpecidas e grossa.

Estou a precisar de um novo reajuste?
Será?

domingo, 28 de dezembro de 2008

Dia 22 - Coimbra - Parte I


Segunda-feira de manhã abalamos rumo a norte, seguimos a auto-estrada da A1 e logo a 60 km de Coimbra avistamos um camião abalroado em sentido contrário, deitado por terra, destruído e amordaçado. Assustador. Um pouco mais á frente ouvi sirenes da BT, passou a galope seis viatures possivelmente para socorrer as vítimas do acidente e manter ordem o tráfego inundado de fileira.

Entretanto, seguia a viagem lendo um livro fascinante envolto de mistério e foi então um outro som atropelara-me de novo, aquele cintilar agudo de ambulância, passou por nós com celeridade, uma carinha da INEM. Mais um acidente? Pensei eu. Adiante, vi a dimensão do acontecimento, como aquilo se sucedera, impressionante... marcas de travagens visíveis no piso de alcatrão, o carro derrapou após a curva e saiu da via aterrando no meio do mato.

Anda tudo maluco! Que perigo! Selei pela segurança dos meus familiares, fechei o livro e mirei o horizonte serpenteando. Uma placa verde anuncia-nos a virada para Coimbra-Sul, beijamos a cidade dos estudantes enfeitiçadas pelas luminárias de Natal, e jazia uma feira junto ao rio do Mondego, um mar de cores agradáveis.

Os meus pensamentos dançavam dentro da cabeça durante a curta aproximação ao Hospital dos Covões para mais uma terapia extensa, a dos sons, a de descriminar palavras. Ansiosa, desejosa de subir mais um degrau, de desafiar as capacidades auditivas, de ir mais além onde nunca antes fui. Tudo em mim movia uma força imensa, de vontade em superar cada triunfo.

Subi para a ala de Implantes Cocleares, avistei quatro pessoas sentadas, pais de crianças que se encontravam a reabilitar. A terapeuta dos famosos olhos azuis aparece, esboçando um riso carinhoso e junto dela, uma menina esconde-se no meio das pernas da M, envergolhada.

Penetrei o interior da sala, a mesa imaculada de brinquedos, e ao lado uma secretária a segurar o computador. Sentei-me ali, de frente á terapeuta e com o papel a tapar a sua boca soletrado as vogais. Correu bem. Seguiu então as consoantes, avisando que era ainda cedo para mim, no entanto iriamos tentar e aparentamente entendo o m/s/p/t.

Ainda me custa perceber as vozes ásperas e graves, é o caso da terapeuta. Devagarinho chegarei, quer melódica ou não. Abraçamos um outro exercício, distinguir o Pá do Tá, o Pé do Té, mas o Pi do Ti mostrou uma clara desordem auditiva, a corda vocal atravessada no interior do ouvido implantado balançava o rumor das incertezas, não sabia se era o Pi ou o Ti, soou-me estranhamente idênticos!

Nem quis acreditar... ao pronunciar apenas as consoantes de m/s/p/t sou capaz de separar o som, especificando-as o timbre, a marca linguística, o sinal que as distingue de uma outra excepto o L - o meu eterno vilão.

A reabilitação correu dentro do esperado, superando as expectativas onde por norma a terapeuta também ficara surpreendida, tenho a capacidade de reconhecer determinada consoante e dissê-la de forma rápida. Trouxe trabalho, desta vez mais esticado para o longo mês de Janeiro.

domingo, 16 de novembro de 2008

Campainha e Irmã


A campainha toca bruscamente. Maldita campainha, atingiu o cume dentro do meu nervo auditivo e pôs-me a rodar mil e umas voltas de tontura, esta peste! Só ela clica o botão assim, igual aos anteriores, a mesma sequência regular.

Barafusto irritada, raio de campainha tenho que te trocar por uma mais leve e menos ruidosa, espreito o pequeno circulo vidrado e a peste está do outro lado da minha porta cheia de pressa, suada e ofegante. Abro-a.

Corre para a casa de banho, deixando as coisas no chão do corredor: a mochila, as sapatilhas, incluído a parte cima do Dobok e fecha a porta a cadeado. Passou-se! Ouço o chapinhar da água a partir da cozinha, e reclamo os 10 minutos no chuveiro e grito "despacha-te senão o jantar fica frio!"

Nenhuma palavra foi dita.

Escuto a porta reabrir devido à ausência de óleo e a seguir os passos arrastados, e vejo-a com uma cara de poucos amigos, mal-humorada e acaba por se sentar a meu lado, enquanto ponho comida no prato dizendo "ó piolha vê se para a próxima não coles o dedo no botão durante uns segundos, basta tocares uma vez apenas, está bem?"

Responde-me indignada com "epá já vais começar?!"

Que bicho lhe mordeu?! ^^'

Entendi na perfeição, sem leitura labial. Mais uma festa.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Discriminação Auditiva


Imagem retirada daqui

Anteontem, depois de ter tido uma manhã atribulada na metrópole lisboeta tornou-se evidente o cansaço que se fazia sentir no meu corpo, quase esgotada mentalmente de tanta pressão acima dos ombros.

Sentada no banco metálico da estação de comboios, uma aragem gélida batia-me o rosto esvoaçando os milhares fios de cabelo e o processador de fala de vez enquanto espreitava o mundo.

Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii. Credo!

Um apito muito agudo, e depois o altifalante anuncia, no entanto percebe-se pessimamente e só consigo apanhar bocados da frase "Senhores Passageiros ........ comboio ...... Setúbal ......." - digo eu, está a chegar.

Mesmo á distância, as rodas chiavam, gosto do som.

As portas abrem automaticamente, entro, desço as escadas para o "rés-do-chão" desesperada por um sossego momentâneo e vejo o jornal deitado na polpa, pego-o para manter a leitura em dia sobre as tendências da actualidade, ainda se fala sobre a vitória e momentos históricos de Barak Obama.

A seguir, a famosa crise financeira, salto a página procurando o soduko - este jogo fascina-me tanto mas tanto e nunca fui boa em números, cada dia me surpreendo. Concentrada lá ia resolvendo o problema existial do quadrado, nem me tinha apercebido a presença do revisor a meu lado, até eu ouvir um tímido "desculpe!", sobressaltei-me!

Um pouco a leste, mexi as mãos apressadas e retirei das calças o passe, no entanto os meus dedos escorriam sempre que tentava tirar o passe do plástico, e novamente o revisor pronunciou "não é preciso" - olhei embasbacada.

Tinha discriminando as palavras sem fazer leitura labial! E eu percebi nítida e claramente - inteira, sem intervalos e paragens no tempo vocal. Soletrou tudo seguindo.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Mini - Treino Auditivo

Revi as vogais, testanto a minha memória auditiva - A -E -I -O -U tendo acertado uns 85% e mais adiante, discriminando os números e notei a minha dificuldade no 19, 10 e 6.
Continuo amanhã o resto.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Palavras e Telemóvel


Digitalizo essas palavras ao som da música “Amanda – Aisha Duo” de Jazz, onde por sinal gosto da melodia, da entoação e percebo como me acalma bastante enquanto trabalho estimulando o nervo auditivo sem qualquer mínimo de esforço.

Estou há mais de um ano neste caminho interminável, sem fim e espero continuar nesta empreitada cavalgando estradas e lugares diferentes, dia após dia ao volante do processador de fala em busca de sons e discriminações auditivas atravessando o mundo á pé.

Procuro. Encontro. Descubro. Vibro em cada conquista. Guardo para dentro de mim, que percorrem como borboletas procurando quem sou através das mudanças sonoras, o meu silêncio já não é silêncio de oiro. Mudou como as pessoas que mudam a maneira de pensar e sentir das coisas em que o mundo lhes oferece.

Conduzo de olhos fechados. O processador de fala guia-me, ruído a ruído, palavra a palavra, melodia a melodia e tudo em mim é música, apenas música crua e verdadeira, capazes de me devolver o calor da vida, o seu sentido e significado em tempestades de gelo que fazem doer os ossos.

No entanto, o amor das palavras existem, reconhecer a voz de alguém familiar por detrás do telemóvel que toca desenfreado e cheio de pressa de ser atendido, ouvir um “olá” alegre aliado a uma preocupação crescente do “está tudo bem?”.

E a minha resposta entregue do “sim, está tudo em ordem e por aí”, novamente a voz do outro lado sussurra ao meu ouvido implantado ténue e aguda do “também está tudo bem”, e então fala-me uma frase comprida mas eu não percebi desta vez porque havia muito ruído de fundo naquele lugar. Mas que lugar era esse? Desconheço. Não cheguei a saber.

A frase é repetida, continuo a não entender e desanimo um pouco, não devia ser difícil de aprender a ouvir, questionei. À terceira com mais calma, noto que ela saiu do ambiente ruidoso e consigo escutar claramente o “passa ao acorrentado”, fez-se luz e reafirmo o que ouvi “passo ao acorrentado?”, a voz sobressai o “sim”. Wow!

Cheguei á conclusão, que mesmo lentamente chegarei ao destino - vitoriosa.

Foi o que aconteceu ontem, no entardecer em que a chuva se avizinhava na espreita do céu cinzento-escuro, triste e deprimido. As nuvens pareciam ter um mapa escondido, a dos sons e palavras soletradas.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Reabilitação Auditiva - Casa

Palavras que já pego com facilidade.

Nomes em 49/12

Ricardo
João
Ana
Marco
Alice
Irene
Susana
Margarida
Duarte
Humberto
Alberto
Dolores

Animais em 25/8

Vaca
Urso
Peixe
Elefante
Girafa
Gato
Pato
Cão

Frutas em 25/4

Ameixas
Maçã
Banana
Manga

Vegetais em 22/6

Azeite
Alho
Massa
Cenoura
Pimento
Favas

Objectos em 29/4

Cama
Alfinete
Caneta (cadeira)
Pente (tapete)

Roupa em 29/7

Camisa
Calças
Sapato
Xaile
Luvas
Sapatinha
Chapéu

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Conquista Sonora de Prata


Já a caminho para a casa nesta tarde quente, imprevísivel ás certezas metereológicas captei auditivamente o altifalante do comboio: Próxima Estação Pragal.

Sempre a crescer, e cada conquista é de prata.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Metro Agitado


O enredo confuso no saco de vozes humanas, o ferrar da linha metropolitana, os beeps agudos das portas de carruagem a fechar e reabrir em cada paragem, em cada estação onde acabariam por entrar mais vozes e cheiros de perfume, de tabaco e cremes. Um baile de ruídos e aromas excêntricos, sem igual e os telemóveis a tocar o tempo todo.

Rio-me para dentro, é tão mas tão bom escutar os embaraços insignificantes, ouço lentamente, saboreio todos os sons um a um, dissemelhantes aos anteriores, mal a porta reabriu um cego de bengala entrara com o seu tinir do copo de lata a pedir caridade cada vez que o bastão comprido batia em seco o pavimento.

Espirros repetidos, tosses, o assoar remexido por mãos frenéticas e o altifalante anuncia a próxima estação: Marquês de Pombal nítida e claramente perceptível. A minha vida já não é a mesma, tudo mudou... e gosto dela assim.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Som Reconhecido


Ouvi o barulho da panela de pressão, um chiado severo a entupir a habitação coberto de vapor, balançado no eco das vozes apagadas. Fiquei em êxtase, de olhos fechados para que pudesse absorver o máximo aquele ruído banal...

Quase toco nas nuvens de algodão, o infinito túnel das melodias sem fim, abraço as gotinhas de prata na captação de um chamamento adolescente, forte e seco devidamente estruturado que com personalidade foi capaz em abafar o pio cravado da panela de pressão... e eu ouvi, ou melhor discriminei auditivamente:

"Mãeeeee!! Anda cá rápido!!"

Pulei e fui logo a correr assustada... deparo-a sentada na secretária a rir tanto, SAFADA a miúda! (irmã)

domingo, 21 de setembro de 2008

Descobertas nas Férias II


Depois de ter acabado de lavar a loiça, ainda arrumava os entulhos dentro do armário, neste preciso instante uma voz invadiu-me, alojou-se uma espécie de eco continuado e ritmado porém identifiquei a palavra.

O meu namorado tinha-me chamado do primeiro andar, e eu estava situada no rés-do-chão.

"Sun!"

Fiquei em pulgas, eu que tenho um pouco mais dificuldade de entender as vozes graves, paralisei durante um tempo até responder.

"Siiim?"

Julguei até, que a partir de agora não iria perceber patavina, puro engano! Como pude ser tão desajeitada?

"Sun, anda cá!"

Divaguei perplexa, "ouvi realmente? Não estarei a sonhar, não pode ser!" Meu deus, consegui perceber nitidamente palavra a palavra e silaba a silaba.

"Já vou!"

Fiquei com os olhos esbugalhados de emoção no feito conquistado. Um diálogo de duas pessoas separadas na distância de um andar.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Momento Histórico - Implante Coclear


Para mais tarde recordar, e gritar: "sim consegui, e vou conquistar ainda mais o impossível". Era tudo uma questão de tempo, de vontade e persistência, hoje abraçei finalmente as palavras sozinha frente ao computador com o Implante ligado ás colunas.

Lentamente elas foram-se revelando a identidade, o conteúdo linguistico e significante ao ponto de querer tocar o sublime, de tamanha foi a emoção por vezes inexplicável em decifrar cada palavra reconhecida.

E o momento histórico do Implante Coclear foi esse, acertei 57 palavras. São palavras que nunca antes ouvi ou não me lembro desde a perda auditiva.

YEAH!!!

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Discriminação de Palavras



Toco a campainha do meu apartamento.

A porta abre-se, entro e escuto um sonoro "QUEM È?" e repeli com o "SOU EU!"

: )

sábado, 9 de agosto de 2008

A Descoberta no Azul-Esmeralda


Amarramos as coisas nas costas, directos para a ponta do mato que fica noutro lado da cidade, pude ouvir os meus passos a roçar os grãos de areia, um som agreste mas surpreendente que fez-me ceder a força do impacto no solo para um feitio mais suave… já não andava de forma desajeitada, aprendi manter a postura delicada.

Pego na mochila, e tiro de lá a toalha de praia colorida onde acabo por a lançar pelo ar cheio de vida e depois desce até ao chão paralisado. É então que o vejo á minha frente, um imenso líquido azul-esmeralda, não me recordo de contemplar algo assim em toda a minha vida.

Boquiaberta. As cores nutriram os meus sentidos. Não era possível, dizia eu, Lisboa estava ali noutra margem, tempo louco este, peixes, observo escamas prateadas que reflectiam á luz do sol, e são tantos… tantos dentro da água, daquele azul-esmeralda.

A visão fora beijada, tinha ficado sem palavras, e escondi o arrependimento por não ter trazido comigo a máquina fotográfica e marcar esta eternidade extática, o calor começara a apertar no meio de um vento brando.

Virei, na espera de amigos á frente da estrada poeirada, uma grande nuvem de pó erguia velozmente e sem esperar ouço um chamamento de uma criança “Maaaãeeee”. Era uma voz diferente, de alguém que não conhecia de nada nenhum, nem muito menos da Rua, a voz de um rapazinho aloirado e moreno a tomar conta do irmão mais novo.

Outro, “Maaaãeeee” inundou o meu ouvido implantado. E foi assim que abracei o som do rapazinho desconhecido sem vigiar por perto, o meu cérebro finalmente aprendeu aspirar uma voz de um lugar que outrora não existia, porque antes ele não aceitava, o meu cérebro não recebia com agrado o fonema misterioso - de um desconhecido.

Hoje ele adquiriu o conhecimento da memória auditiva. Cresceu, e eu prosperei.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Discriminação de Palavras II

O cansaço era ainda mais profundo, tinha os pensamentos conservados a um lugar distante, vazio e próximo do sossego ao mesmo tempo que escutava a extensão ferroviária sob o peso da carruagem.

O som do metal a ser engolido, no arranhar das rodas em brasa, e apercebo como é bom provar este ruído lentamente, ao longo do percurso.

Estou a chegar, e o altifalante rompe o meu cérebro: "Entrecampos".

Discriminação de Palavras

- Um.

- Sessenta e sete.

- Seis

- Letra: D, S, Z, B, T.

- Mas.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Conquistas Sonoras

Dei uma volta na baía com a minha família, ao andar á beira do rio ouvi o bater de asas dos pombos em pleno voo, mais uma descoberta solta invadiu o meu interior mágico e esse som é tão banal para quem as ouve desde sempre.

De regresso a casa, acabei por ligar o computador e ouço a uns 20 metros, o espaço que separa o escritório da cozinha, um nítido ATCHIIIMM ecoado e contínuo, mas ponderado como ondas sonoras submersas no azul do mar.

Eu: “Santinho!”

Pai: “Obrigado”