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quinta-feira, 7 de maio de 2009

Reajuste


Tenho diante dos olhos um doce amanhecer, o astro-rei radia o rio sereno de onde observava através das janelas envidraçadas do Catamarã, a Lisboa inteira. Contemplo com tranquilidade e tudo que ouço são vozes vindas de todas as direcções a serem derrubadas pelo barulho ensurdecedor do motor e isto estremeceu-me instantaneamente.

De coração envolvido, escutei fascinada a circulação de múltiplas sonoridades, existia em mim uma sensação de segurança e felicidade arrebentada. Um desconhecido encorpado, de barba rija sentado atrás de mim folheava o Correio da Manhã, podia ouvir o sopro das páginas a virar-se ásperas.

Um apito do barco começou a soar, trata-se de aviso, o Catamarã do Barreiro fura de relance em alta velocidade na fachada ultrapassando-me gigante e monstruoso na robustez intrigante com vibrações de ondas, balançando ligeiramente.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Coimbra de Novo


O dia aproxima e com ele o calor embarca sem cortinas senão sombras atenuadas pela protecção das árvores brotadas de Coimbra. Agrada-me o escape, o silêncio murmurante das vozes intercaladas e com a luz dos teus olhos castanhos escuros continuas a andar, a viver e redescobrir cada pedaço de alma nesta majestosa e elegante Cidade.

No regresso hás-de notar a diferença do reajuste, não vais gostar de inicio e mais uma vez será fase de readaptação. Se te custar imenso, podes sempre voltar ao programa antigo e assim facilitares a transição sem grandes percalços desesperantes.

Coimbra!
Cá vou eu.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Coimbra (II)


Ainda planeei apanhar a camioneta em vez do Táxi, houve qualquer coisa e por via das dúvidas não arrisquei, segui no Táxi cambaleando o passeio defeituoso e o sol aureolava o centro de Coimbra.

Consumi e embebi a paisagem como a da primeira vez, e o veículo de repente vira a um atalho incógnito, tenho os sentidos em vigilância e fico a pensar “Queres ver que o taxista percebeu mal?!” não digo nada ainda, não antes de ter a certeza, enxergo o caminho e reconheço a ponte acolá na via-rápida. Está cortada e em obras. Alivio-me na alcatifa dividida em dois sentidos onde passam camiões gigantes carregados de pedras às costas. Pó, muita poeirada ergue á nossa frente. Rotundas. Curvas. Cheguei e os pássaros pipilam dedicando-me uma linda sinfonia.

Na entrada do Edifício, vejo uma família, o pai, a mãe, o irmão e o mais novo de três anos bi-implantado, um processador de fala em cada orelha, fica tão giro assim. Um mimo. Ascendi degraus e deparei na extensão um senhor ouvinte que aguardava a consulta.
Reconheço o grito de criança dentro da sala ao longe, a aprender ouvir no brotar das primeiras palavras ensinadas. E quando as duas mãos se unem á palmatoada é o triunfo da conquista, mãos juntas, um punhado de sons iguais, repetidos em estilo.

Encanta-me.

Apoiada de costas na parede, vejo a terapeuta e um rapazinho loiro, de olhos azuis, parece-me ter 2 anos a sair do recinto terapêutico de mãos dadas com o progenitor, a mãe visivelmente confusa esconde no sorriso o sofrimento, a culpa encravada por o seu filho ter nascido sem audição. Acusa-me com o olhar mais patético que existe, de desprezo e inveja. A frialdade humana levou-a enfrentar as circunstâncias, zangada com a vida, e sobretudo consigo própria.
Não resisti, disse bom dia no esboçar do riso. Mirou-me furiosamente, morta em expressões.

Engoli em seco. Perplexa por ainda não se ter entregado á redenção.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Coimbra (I)


Ainda é noite no cais fluvial, o silêncio reina e a cegueira da madrugada infiltra o grande baile de luzes na margem lisboeta ali ao fundo, sob o meu olhar ensonado que repousava nas águas do Tejo. O barco aproxima ainda longínquo, ouço o seu som motorizado e o vento com o seu odor salgado mergulha nas minhas narinas, o cheiro do mar, das algas ainda submersas e no fim revejo-me. Tudo é diferente.

à bordo, rego a generosidade em cada olhar, pessoas dotadas de enredos simbólicos e uma rapariga senta-se á minha frente encostando a cabeça na sebe do barco que treme. Olha-me e sorri encharcada de inércia, as pálpebras semi-fechadas e os cabelos molhados em água.
Saio do barco no meio de gentes, e depois do Cais Fluvial rumo a Santa Apolónia serenamente, devagar de metro e é então o guardião dos sons renasce amanhecendo os rugires de uma selva citadina.

Sigo o caminho entusiasmada, estou já nas bilheteiras e digo: “Bom dia, um bilhete para Coimbra-B” e a voz soa-me fina e suave ao meu ouvido implantado “È para às 07h30?”, eu escutava distraidamente quando tentava retirar a carteira da mala, “sim é, no InterCidades”.

Bilhete pago. Vou ao café e tomo o pequeno-almoço, olho para as horas, ainda tenho meia hora e mais uma vez contemplo o espaço vazio, despovoado cuja claridade desabrochava o quente do sol embaciado pelo vidro do telhado.

Entrei na carruagem, avistei o número e ali permaneci com lugar cativo á janela rumo a Coimbra, e como sempre mirei sob uma intensa névoa alaranjada o fulgor imponente da Natureza. E todos os sons me invadiram, bastou fechar os olhos por um momento e os ruídos banais eram melodias para mim, a musicalidade do metal a rugir como um beijo dominado, o eco ao passar por um túnel cintilaram as células ciliadas, as portas a reabrir e fechar, o altifalante. Senti bem, aninhada como os bonecos de peluche ao deitar. Sons. Ruídos.

Definitivamente eles pertencem-me.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

No Horizonte

Nucleus Freedom - Ipod

Coimbra à espreita, absorver-te sonoramente em cada segundo o deslumbramento cadenciado pelo despertar do dia. O barulhar das rodas férreas, os apitos das estações, as vozes, os telemóveis a tocarem e eu estarei sentada a ouvir música, canções de todos os géneros de acordo com a minha preferência, no MP3 conectado ao Implante Coclear Nucleus Freedom multi-funcional.

Vou limpar a alma e maravilhar os acordes da canção à beira da janela, a observar os campos agrestes cheios de verdura e o sol ainda por nascer. Estarei ansiosa por pisar o solo de Coimbra, o toque mágico da cidade... esta cidade alegre e desperta que me põe os pés em pico sob o Rio do Mondego.

Até já Coimbra!

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Hospital dos Covões I


Escrevo ao som da chuva que tomba lá fora, com gotas a embater na janela. A mesma chuva de ontem em que jornadeamos a Coimbra, de comboio e á chegada cheirava á terra molhada, abrimos o guarda de chuva agarrados um ao outro, num abraço acolhedor.

Deambulamos á paragem de táxi, ficamos ali um bocado até o motorista nos fazer sinal para entrarmos adentro, um táxi carrinha, preto e quase redondo a andar em passo de caracol rumo ao Hospital dos Covões. A paisagem continua a mudar, os acessos, a evolução das obras de mês a mês. Mudanças. Estas já fazem parte de mim. O mundo muda e nós também. Tudo muda, nada é como dantes.

Aproximámo-nos, táxi estacionado á berma, abro a carteira e dou 5€ em nota, ele fica com o troco pois por 20 cêntimos não faz diferença. Ainda chove mas não tanto, leves aguaceiros quedam e mesmo assim reabrimos o chápeu, olho para as horas e são 10h. Temos tempo, falta 1h para a reabilitação. Aproveitamos visitar uma amiga, a L que tinha sido implantada na semana passada, no edificio antigo ainda a ser remodelado, e o meu namorado pergunta se haverá visitas a esta hora, digo que não sei e lá fomos.

Cheira á Hospital. Um cheiro intenso que incomoda, uma mistura de odores abafados e húmidos. Recorda-me o tempo que lá estive, quando fui implantada num Verão, ainda estão dentro de mim lembranças, imagens e cheiros intactos. Foram os dias mais felizes da minha vida. E agora eis-me a ouvir. Voltando ao resumo, continuemos...

Escalámos degraus, viramos a um corredor estrangulado de enfermeiros, médicos e pacientes. O ambiente está diferente, inovaram as infra-estruturas e andei por ali desamparada, meia perdida... Perguntei pela L a uma enfermeira, não sabe quem é, entretanto quando uma delas ouve a nossa conversa interrompe-nos e nos indica a ala de Otorrinolaringologia. Seguiamos atrás. Vimos um papel asfixado na porta da especialidade de que as visitas era a partir do meio dia. Ok.

Revertemos o percurso descendo escadas para outro edificio ali á frente, o edificio das consultas externas onde iria fazer reabilitação, piquei o ponto e subimos. Esperamos cerca de meia-hora. Ouço o telefone a tocar, tocando obstinadamente porém não sei de onde vem o som, se da direita ou esquerda, viro na esperança de captar a origem sonora mas soa-me igual em distância. Só tenho um ouvido a funcionar. O ouvido implantado.

Chegara a Terapeuta dos olhos brilhantes, fomos encaminhados a uma pequena sala e assim demos ínicio o treinamento auditivo começando pelas minhas dificuldades sentidas, o L e R, concentro-me no máximo que posso á sua voz, atentamente letra a letra e palavra a palavra. Acerto as vogais em 98%.
Pássamos nas palavras, acerto e não acerto, mas está muito melhor, evolui drasticamente e agora sim, sinto que vou dar um pulo nos próximos meses, assim o espero.

(continuação)

domingo, 25 de janeiro de 2009

A Letra L


O meu pirata L, a letra mais difícil do alfabeto auditivo. Decidi avançar pois quanto mais cedo eu lidar com este pestinha melhor será para mim, claro houve muita D-I-F-I-C-U-L-D-A-D-E pois não tenho memória auditiva o que é perfeitamente normal em surdos peri-línguais (perda auditiva adquirida em plena fase do desenvolvimento da linguagem).

Eis as palavras que acertei esforçosamente, sem as saber e podia ser qualquer uma que começasse pela primeira letra, neste caso, o L.

Lápis-Lisboa-Lupa-Lilás-Leite-Luva-Lareira-Lavar-Lobo-Lixo-Livro-Lata

Aquelas que não acertei ou percebi por outras palavras:

Lago-Lava-Loiro-Leque-Lulas(luvas)-Luta-Lucas-Lesma-Larva(lava)-Largata(levanta)-Lista(lisa)-Leilão(leitão)-Limão(Lima)-Lapela(latela)

No entanto torço o nariz, acho que tenho de pedir ao técnico J.P para colocar um programa adequado ás vozes graves, é desesperante e pior ainda não reagir a elas na exacta medida que me chamam, o meu namorado sabe muito bem. Creio eu, dantes as frequências situavam num nível bastante centrado antes de ter feito o reajuste ou seja preferia o anterior mapeamento.

Felizmente, o dia para ir de novo a Coimbra está a chegar, desta vez com muito encanto e serenidade. O meu mais que tudo acompanhar-me-á nesta deliciosa aventura, sempre, desde o ínicio e irei apresentar-lhe uma pessoa. Uma amiga minha, que implantou na semana passada, a doce L.

Espero que não chova bastante, senão estamos bem tramados.

Luisa_B - Obrigada pela referência do selo, agradeço no fundo do coração e no próximo post colocarei.

Z@Blog - Ui, Ui, Ui, vou tentar entrar neste desafio e logo eu á prova de fogo! :)

domingo, 28 de dezembro de 2008

Dia 22 - Coimbra - Parte I


Segunda-feira de manhã abalamos rumo a norte, seguimos a auto-estrada da A1 e logo a 60 km de Coimbra avistamos um camião abalroado em sentido contrário, deitado por terra, destruído e amordaçado. Assustador. Um pouco mais á frente ouvi sirenes da BT, passou a galope seis viatures possivelmente para socorrer as vítimas do acidente e manter ordem o tráfego inundado de fileira.

Entretanto, seguia a viagem lendo um livro fascinante envolto de mistério e foi então um outro som atropelara-me de novo, aquele cintilar agudo de ambulância, passou por nós com celeridade, uma carinha da INEM. Mais um acidente? Pensei eu. Adiante, vi a dimensão do acontecimento, como aquilo se sucedera, impressionante... marcas de travagens visíveis no piso de alcatrão, o carro derrapou após a curva e saiu da via aterrando no meio do mato.

Anda tudo maluco! Que perigo! Selei pela segurança dos meus familiares, fechei o livro e mirei o horizonte serpenteando. Uma placa verde anuncia-nos a virada para Coimbra-Sul, beijamos a cidade dos estudantes enfeitiçadas pelas luminárias de Natal, e jazia uma feira junto ao rio do Mondego, um mar de cores agradáveis.

Os meus pensamentos dançavam dentro da cabeça durante a curta aproximação ao Hospital dos Covões para mais uma terapia extensa, a dos sons, a de descriminar palavras. Ansiosa, desejosa de subir mais um degrau, de desafiar as capacidades auditivas, de ir mais além onde nunca antes fui. Tudo em mim movia uma força imensa, de vontade em superar cada triunfo.

Subi para a ala de Implantes Cocleares, avistei quatro pessoas sentadas, pais de crianças que se encontravam a reabilitar. A terapeuta dos famosos olhos azuis aparece, esboçando um riso carinhoso e junto dela, uma menina esconde-se no meio das pernas da M, envergolhada.

Penetrei o interior da sala, a mesa imaculada de brinquedos, e ao lado uma secretária a segurar o computador. Sentei-me ali, de frente á terapeuta e com o papel a tapar a sua boca soletrado as vogais. Correu bem. Seguiu então as consoantes, avisando que era ainda cedo para mim, no entanto iriamos tentar e aparentamente entendo o m/s/p/t.

Ainda me custa perceber as vozes ásperas e graves, é o caso da terapeuta. Devagarinho chegarei, quer melódica ou não. Abraçamos um outro exercício, distinguir o Pá do Tá, o Pé do Té, mas o Pi do Ti mostrou uma clara desordem auditiva, a corda vocal atravessada no interior do ouvido implantado balançava o rumor das incertezas, não sabia se era o Pi ou o Ti, soou-me estranhamente idênticos!

Nem quis acreditar... ao pronunciar apenas as consoantes de m/s/p/t sou capaz de separar o som, especificando-as o timbre, a marca linguística, o sinal que as distingue de uma outra excepto o L - o meu eterno vilão.

A reabilitação correu dentro do esperado, superando as expectativas onde por norma a terapeuta também ficara surpreendida, tenho a capacidade de reconhecer determinada consoante e dissê-la de forma rápida. Trouxe trabalho, desta vez mais esticado para o longo mês de Janeiro.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Reajuste Marcado


Irei novamente a Coimbra com a Sara para um novo reajuste agendado no dia 27 de Outubro, logo de manhã ás 09h e a seguir tenho uma consulta com a finalidade de conhecer melhor o médico Dr.L, pois a Dra.S foi colocada noutra especialidade e já não faz parte da secção dos implantados para minha tristeza.

Assim aproveito, pedir uma prescrição médica de modo adquirir o sistema FM que com a base dos três orçamentos encaminharei os documentos necessários á Segurança Social, e aguardar uns meses... vou rezar.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Encontro de Implantados - Coimbra 1


Depois de um longo dia, na viagem de carro pela manhã revigorante via o mundo a passar, os ecos da natureza nascer, os raios solares e a seguir o azul do céu. Deixamos a cidade, agora só serpenteávamos na auto-estrada no meio de um véu esverdeado.

Ouvia motores enfurecidos a acelerar, segundo por segundo em alta velocidade, a ânsia das férias, do escapulir para longe, o precioso escape e dedicar todo o amor aos que há muito não se vêem, encurtar a distância a um abraço.

Tanta gente na estrada portuguesa, olho constantemente para o relógio do meu telemóvel, falta meia hora para às 10h, o coração aperta, pressinto de que irei chegar um pouco atrasada, pergunto quantos quilómetros faltam. Daqui 40 minutos devemos estar lá.

Vejo a placa, Coimbra – 50 km, parece-me uma eternidade! Dedico o meu olhar á natureza, e absorvo a essência a escutar música do carro em pleno andamento, abro a janela de vidro, o som do vento, gosto do som e é irresistível, delicioso de se ouvir. O vento a bater no carro. Digo para dentro, oh que bom é ser implantada!

Recebo mensagens, de amigas e amigos implantados e não-implantados no lugar-comum a todos nós, Coimbra, a cidade mágica, o berço do Implante Coclear. Estão ansiosos como eu, empolgados para o 1º Encontro Nacional e Convívio de Implantados no Parque Verde da Cidade do Mondego. Será que vai muita gente ou pouca? Não sei, o importante é conviver e trocar experiências.

Virámos para Coimbra-Sul, quase está quase, ultrapassamos a portagem, Coimbra invade a minha visão, esplendorosa e procura beijar-me, abraçar, pegar em mim e dançar a rodopiar com picos dos pés sob o Rio do Mondego. Derrama-me os sentidos.