terça-feira, 26 de outubro de 2010

O meu Setembro em Coimbra II


Quando cheguei à paragem junto do rio próximo da ponte de Santa Clara, havia um placard electrónico que informava os minutos de chegada do autocarro e me iria transportar ao Hospital dos Covões, faltava cerca um quarto de hora e a manhã da cidade espreguiçara docemente depois do sono vigilante, as águas do Mondego abrigada de vapor na quietude que me pareceu haver mais do que qualquer coisa, um mimo de tranquilidade emaranhado no murmúrio do sopro a roçar no meu ouvido implantado.

O estalar da bolacha a ser partida em duas partes, os meus dentes a chocalhar de frio, o esfregar das mãos, meu deus já não me lembrava disto desde o Inverno passado, é assim que pequenas coisas que a gente ouve passam a ser despercebidas?! Cada som tem um cheiro diferente, e eles tem também personalidade própria que vão mudando de humor, tanto podem soar harmónico como de repente ser desprezível, isto não podemos mudar, tal como a vida os sons chegam a nós de forma inesperada e é no inesperado que renasce a beleza da magia sonora.
Vi a camioneta aproximar-se, ao entrar retiro do bolso do casaco o bilhete magnético e pico-o no ponto que engole e cospe o passe temporário das três viagens, e é então que fecho os olhos durante não sei quanto tempo, perdi a noção dos minutos, mas ninguém sabe que não posso ver de pálpebras desabotoadas nem a estrada através da janela de vidro mas estou no fundo bem desperta a ouvir o barulho ensurdecedor da viatura, o arrastamento dos travões enferrujados, os passos pisados dos saltos altos, as portas a abrir e fechar e os desculpes com licenças dos idosos.  
  
Era evidente, que já reconhecia de longe estes ruídos, mas chega sempre aquele que mesmo à distância e de passagem surge um timbre misterioso, diferente e por isso irreconhecível como foi daquela vez quando descobri o tilintar da chuva e a dança dos talheres na cozinha da fazenda do norte. A porta estará para mim sempre aberta, vou imaginando como uma criança que escuta e vê à sua frente uma grande odisseia de descobertas permanentes, e isto é emocionante! 

Cheguei pensativa ao local do edifício de ORL, preocupada com a otite persistente do ouvido direito e que continuava a deitar líquido, e da explicação a dar acerca do reajuste muito mal feitinho e ajustado. Dirigi à recepção de maneira confirmar a minha presença e pagar a taxa moderadora da consulta, lá se foi mais 3€ e tal… ainda faltava um bocado para ser chamada, diria que vim bastante cedo, antes da hora prevista.  

Antes de ir para a sala de espera, espreitei a saída e reconheci ao longe dois rostos, a mãe V com o R, o bebé mais novo implantado em Portugal, decidi então aguardar lá fora com um sorriso aberto e dialogar para dentro dos meus botões “será que vai reconhecer-me?”.

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