terça-feira, 9 de março de 2010

Sou implantada. Sou surda.


Sou implantada. Sou surda. Sou uma surda implantada ou Cyborg. Ok, sou uma Cyborg porque assim não tenho ninguém que me defina a pessoa que sou, não pertenço de modo algum a uma comunidade em particular. Não possuo identidade Surda. Não falo Língua Gestual Portuguesa. Não percebo o que dizem os gestos falantes, é para mim pura e simplesmente incompreensível de conceitos e significação. Sou eu e pronto!
Sou implantada. Sou surda. Sou uma surda implantada ou Cyborg. Ok, sou uma Cyborg falante, a minha boca mexe, a minha língua enrola com mestria pois têm uma ginástica do caraças para produzir a fonologia das palavras, posso cantar a letra de qualquer música fluentemente e não depender de ninguém. Posso pensar por mim mesma nas estrelas e ser leve como uma brisa de Verão, não deixo que os outros me influenciem o julgamento racional, não deixo que tentem a todo o custo consertar-me, não podem mudar a minha vida e visões encharcadas de emoções distintas profundamente enraizadas.  
Sou implantada. Sou surda. Sou uma surda implantada ou Cyborg. Ok, sou uma Cyborg ouvinte, os meus ouvidos ensurdeceram o mundo que me rodeava em criança aos 18 meses de idade como se nada me tivesse acontecido, cresci sem escutar ou pouco com as próteses auditivas. Continuei adolescer na esperança de um dia puder ouvir todas as canções da vida e retirar-me dos lugares silenciosos. Não me limitei por ter Surdez. Fiz da deficiência auditiva a maior prova de superação, dupliquei as forças na base dos desejos e sonhos. Cresci em sociedade! Sou uma Cyborg ouvinte!
Não preciso que um especialista ou docente doutorado em Surdez com todas as suas nabas idealidades utópicas me fornecem explicações tão asnáticas e minuciosas cheias de cavalgaduras de que uma criança surda ou surdos profundos devam ter como primeira língua materna, a Língua Gestual Portuguesa. ERRADO. Existe também outra forma de comunicar com o mundo, a oralidade. Não podem é privar a liberdade de escolha aquando à opção de uma determinada língua aos pais dessas crianças surdas, estão a ocultar a autenticidade dos factos… um verdadeiro atentado à deliberação civil neste malabarismo circundante. 
Tudo anda agitado e tudo anda louco.        

1 comentário:

soramires disse...

Que delícia despertar e ler um texto tão sensível, de uma pessoa surda como eu, que gosta de ouvir, que quer ouvir, que pode falar. Minhas caixas acústicas são mais fáceis de colocar que as suas, porque ficam do lado de fora da cabeça, mas isso não nos diferencia porque nos iguala o desejo de estar no mundo, de ouvir, de cantar. Abraços transoceânicos.