quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O meu Novembro em Coimbra

(Photo de Rudolfo Lopes)

Espreitei-te Coimbra, dentro da locomotiva antes de atravessar a ponte e debaixo da haste de metal corriam as águas do Mondego. O céu pardo proclamava um sopro gelado como breu, os sons reconhecidos e familiares sussurravam no microfone do meu processador de fala, apanhando a voz meio robótica do altifalante: “Coimbra-B”.

Um desconhecido próximo de mim abre a porta do comboio, a seguir desço apoiando o cotovelo ao corrimão, de casaco apertado e cachecol envolto no pescoço, duas mãos ocupadas a segurar o guarda de chuva e noutra a bagagem. Começou soprar o intempestivo vento, queimando as maças do meu rosto. Os dedos entorpecidos e expostos ao frio. A queda repentina das pequenas e leves gotas de chuva, via Coimbra totalmente coberta por um manto de névoa humedecida.

Enviei-me num táxi, os gestos precisos e delicados de quem ali passavam, pessoas de carne e osso, bem agasalhadas e umas com máscaras verdes estampadas na face devido à propagação da Gripe A, a histeria e o pânico entrelaçados perante os olhares temerosos… eu ali indiferente a este cenário autêntico. Na vanguarda um trilho serpenteado em obras, furamos com os meus olhos colados na paisagem envolvente, mais uma mudança! A construção de um pilar para a sustentação da nova ponte ainda invisível e inexistente.

Abeirei, e os uon uon uon das ambulâncias irrompem fugaz e cintilantes no meu cérebro, vejo as horas e recordo-me da A.C, uma jovem deficiente auditiva desde nascença e oralista, finalista da Universidade. Conheci-a no 2º Encontro Nacional de Implantados em Aveiro, na qual decidira tentar o Implante Coclear e a ajudei obter o endereço do Hospital. Tem vontade e fome de ouvir! Coincidência, quis o destino juntar-nos de novo na sina da vida e como o mundo é pequeno, compareci na sala de espera. Onde ela está? Não a vejo. Deve estar já na consulta.

Tenho tempo, pego numa revista e folheio-a uma a uma devorando os textos digitalizados, o tempo escorre ao som da chuva que tomba lá fora. A A.C surge ganhando vida no corredor cândido, transparecendo outro ar, de esperança e sei-o naquele preciso momento que a euforia cora, e o olhar são estrelas a brilhar perante a possibilidade de ingressar no mundo dos sons. Fora aceite. Agora recomecem os exames para um sim definitivo.

Conheci os pais dela. Simpáticos. Esplendorosos. Curiosos. Diálogos edificantes, perguntas sobre o meu ouvir.

São quase 14h, está na hora, subo para cima, escalando os ilustres degraus, crianças a gritar, outras a falar. A inocência. Os processadores com bobina fixada através do íman. Correm cheios de energia. Chamaram-me. Lá está, a Terapeuta dos grandes olhos azuis e a barriga mais redonda que a da última vez, diz-me está quase para a ter nos braços.

Pergunta como estou, se tenho estado a ouvir bem e se precisava de um reajuste, incrivelmente não quis arriscar em remampear o processador. Não. Nem pensar tendo em conta os avanços dos progressos obtidos nos últimos dois meses. Assim ficou, tal como está. O ajuste perfeito.

Iniciamos as vogais, como é habitual para aquecer. Passamos a palavras, e uuuaaauuu tinha acertado praticamente aquelas que nunca tinha ouvido pela primeira vez, o meu cérebro auditivo estava absolutamente embalado, mesmo assim falhei outras por pouco devido às parecenças na sonoridade. A seguir foram as frases, neste aspecto foi o ponto mais alto da terapia, a M. estava encantada! Delirante!

Eu… feliz por acreditar que aprender ouvir tudo é POSSÍVEL e VALE A PENA independentemente dos resultados a curto ou longo prazo, a intenção é progredir com o tempo e estou a fazê-lo de forma surpreendente.

1 comentário:

imisal disse...

Boa, linda!
Parabéns pelas conquistas!!
Coimbra sempre com chuva e névoa nesta altura do ano, não é?? E aquele friozinho que entra por debaixo de casacos e camisolas, nem sabemos como!!
bjs,Misal