sábado, 20 de junho de 2009

19 de Junho



A claridade transparece uma tela colorida, da cor do índigo ao anoitecer e a música rodopia dentro de mim, uma orquestra. Conheço aqueles sons, mais que meras partituras de notas vindo dos músicos adolescentes quase-quase-muito-próximo-de-se-tornarem-profissionais, esses mesmos adolescentes que há quatro anos eram crianças. E hoje tocam com bastante desenvoltura, está calor aqui dentro, no hall de entrada e transpiro imenso.

Caminho pela rua barulhenta, e sim ainda ouço a orquestra e a música da festa popular, elas abraçam em uníssono e consigo diferencia-la, e olho para o chão pensativa a tentar perceber porque é que as pessoas têm tanto medo do Implante Coclear.

Não fazem ideia. Absolutamente nada. Como seria bom, ver o riso espantado e os olhos a brilhar de incredulidade perante um novo som como o cair da chuva nas noites frias e estar junto da janela a contemplar o vento que abana as folhas das árvores produzindo a mais bela melodia, e assustar-se com os gritos dos trovões. Deslumbrar o marulhar das ondas, e embevecer na música dos pássaros cantantes! Não esquecer o som da vida a ser desabrochada no balbuciar de um bebé, as primeiras palavras desajeitadas e engraçadas, os muitos choros de diferentes significados. Reconhecer as vozes, entendendo-as de olhos fechados.

Meu deus! Quantas possibilidades… infinitas. Cheguei à conclusão: as pessoas podem escolher entre ouvir e não ouvir mas há ainda o medo pelo desconhecido, de se aventurar e reconhecer o “eu” interior. O que é feio, e pateticamente claustrofóbico é denunciar informações infundadas, mal interpretadas e distorcidas a qual não corresponde à verdade, porque estes sim no meu entender jamais vão conhecer o som do Implante Coclear, a sua música interior nos pequenos 22 eléctrodos. Eu tenho uma grande ternura pelo meu Implante, agradeço por o ter de volta, tal e qual como o tinha dentro do ventre intacto antes de perder toda a audição.”

Virei as costas, ao som das sirenes de ambulância que fustigou a reacção de me desviar do sítio, mas ainda está longe do meu campo de visão. Continuo a ouvi-la intermitente, cada vez mais próximo e mais agudo. Passou noutro lado da estrada. Estou no Parque Infantil, tanta acriançada aos berros, uma a gritar “mamã mamã” quase a soltar lágrimas, de medo e pânico para descer no escorrega. Outras a gritar de prazer, uma bela mistura de vozes deliciosas.

Dei meia volta, segui a rota rumo ao pavilhão para ir buscar a minha irmã.

3 comentários:

Laura disse...

E a tua mana está quase uma musica profissional, né? a tocar trombone, clarinete? já nem me lembro bem...beijinhos e boa sorte para ela..laura, e para ti também..
Ha muita gente que não quer fazer implantes cocleares, medo, receio do desconhecido, mas é isso; quem não arrisca não petisca, ahhhhh
beijinhos.

Laura disse...

Nina, ando a ver se arranjo aquela peça de plastico que se põe debaixo do aparelho e que se encaixa na orelha, apenas atrás da orelha, tenho aqueles tubinhos d epleastico fininhos, mas a maior parte das vezes, na parte que uso quandos aio, a maior e mais larga, aquilo sai e fica pendurado, da uma trabalheira que não saia e tem no livro dos acessórios do implante, essa peça, queria compra ruma, da cor da carne, da pele, por exemplo, e não sei como,a qui não há, so no porto e outras terras...será que fazes ideia quanto custa, se é fácil de arranjar, etc, ja perguntei ao joão pedro, mas ele diz que não têm, so mandando vir ou indo comprar, mas as casas so têm morada não tem net ...tu usas essa peça? é a que uma menina trás na folha do livro de instruções de peças...que dizes?..beijinhos.

Je Vois la Vie en Vert disse...

Querida Sun Melody,

Só quando nos faz falta é que nos apercebemos que tudo na vida tem um sentido e que o mundo é feito de beleza.
Mas mesmo se um dos sentidos falha, alguma arte assegura a continuidade como uma prenda do ceú.

Infeliz é aquele que tem uma deficiência grave no seio do seu coração : a maldade e o egoismo !

Beijinhos da

Verdinha