sexta-feira, 27 de março de 2009

Tenho


nove anos.

As minhas roupas estão ensopadas de suor por ter andado de bicicleta a manhã inteira, mas agora estou a descansar sentada no leito de uma pedra à beira do rio e tudo se estende ao infinito.

No fundo, milhares de patas esguias criam uma névoa rosada contendo a plumagem cal como neve, de beleza indiscutível e os bicos pungentes prendem o meu olhar acriançado. Fechei os olhos, devolvi o rosto ao mundo sentido um leve sopro ameno e pus-me a pensar de como seria o seu som. Não podia ouvi-los. Os flamingos e o vento no marulhar das rochas.

Contive a respiração tremida, revoltei-me de não puder escutar como os outros, os timbres pareciam ser belíssimos naqueles corpos cheios de vida, corpos de gente desconhecida arrastadas no panorama momentâneo. Encolhi mais uma vez os ombros, danada comigo própria. Procurei respostas, mas ninguém soube explicar as minhas teorias sobre o regresso tumultuoso da Surdez, questionei vezes sem conta o porquê a mim.

Tenho o coração a ranger cada vez mais e na tentativa de esquecer esta dor imprudente pego na bicicleta e pedalo em alta velocidade, fujo assim um pouco da realidade que me rodeia.

2 comentários:

*Lisa_B* disse...

Querida Sun
por vezes é o que apetece, fugir fugir pedalar acelerar o carro ou o que se tenha à mão....mas...a vida é outra coisa...gostei muito do texto.

Aproveito para lembrar que hoje e o dia mundial da consciencialização do autismo, passe em meu blog please :-)
Beijinhos

oliviacastrocranwell disse...

Adoro seu jeito de escrever. Você transmite muito bem os sentimentos, é isso mesmo, o silêncio é triste e frío.

Beijos