sexta-feira, 13 de março de 2009

A Paragem do Silêncio



Tenho momentos a sós, aliciando-me a ouvir música através do MP3 ligado ao diapositivo do processador de fala na curta viagem a Lisboa e todos os sons banham o meu ser outrora silencioso, aquele silêncio omisso e perturbante que lentamente emudecia os rasgares da infância e adolescência.

Chorei horas a fio num corpo de meninice, cuja consciência despertara bastante cedo, um sofrimento que superava a qualquer prazer… a de não ouvir. Foram tantas as dores segredadas e confidentes em mim. Tremi por dentro. Queria tanto ouvir as palavras audíveis e brilhantes, acompanhar a música e dançar. Sentir os sons a penetrar no meu cérebro, discriminar cada acorde de uma canção e não colocar as minhas mãos junto às colunas enormes que dali vibravam músicas.

Quis apenas sair desse abominável mundo taciturno. Chega de silêncio, não posso mais, não é meu e não lhe pertenço de maneira nenhuma. Que sinto quando olho para ele? Vazio e sem vida, habita o fim do mundo.

Abano a cabeça ao som da guitarra rockeira, ouço a voz do cantor, a bateria e no ambiente de fundo os passageiros conversam, o troço da linha ferra, o altifalante anuncia as próximas paragens e olhando para isto tudo ESCUTO em permanente redescoberta no meu ouvido implantado. Percebo os sons, identifico os sons, acho os sons em qualquer lugar e a qualquer instante! Saboreio as vozes de quem amo. Os meus olhos agora tocam os olhos dos outros e não a boca, já não preciso das bocas para eu ler as palavras. Para isso a tarefa cabe ao ouvido implantado captar subtilmente sílaba a sílaba as dicções da Língua Portuguesa.

A faixa mudou, depois do Rock segue as teclas do piano, reconheço e é a nona sinfonia de Beethoven, agora fecho os olhos e tímidas cócegas chapinham no meu interior á luz do dia, é uma liberdade imponente. O silêncio já não me prende. Nunca.

2 comentários:

Laura disse...

Tal como tu já chorei, chorei lágrimas doridas pelos sons que não ouvia, pelos sons que não sentia, e dentro de mim não existiam... e assim; fui criando minha própria caixinha de sons, e ia-me embalando neles quando a vida doía... fiz meus sentidos sonoros, minhas batucadas de silêncio...mas, meus sons permaneciam em mim e eu neles, sempre que quisesse ir além dos sons terrenos!...
Tinha de ser assim.
Agora já implantada, graças ao enorme empurrão que me deste...querida nina, já ouço os sons, os tons, a musica, as vozes que ainda não consigo descortinar o que dizem, mas basta ter os sons a saltar para que me sinta feliz...

Que bom que pouco apouco a realidade vai mudando e poderemos ouvir e entender o que nos dizem, porque o que nós dizemos, isso sim, sabemos o que dizemos e é o mais importante, dentro de cada um...
Um beijinho minha querida Alice... e muita felicidade, paz e amor pela vida fora..deseja a laura..

olinda disse...

Que lindo o que você escreveu!!! Pude sentir tão bem a tua dor e a tua angustia ja que o viví também a pesar de que nossa historia seja diferente. O silêncio é triste e isola-nos. Estou cada dia mais feliz com o implante e fico mais feliz ainda de saber que você disfruta tanto da vida com ele. Você tem um tesouro que os ouvintes não conhecem, saber o que significa escutar. Aproveite muito desta nova vida que apenas começou pra você. Ainda vai descobrir muiiiitos sons maravilhosos.

Um beijo grande, vc é uma lutadora fantástica.